quinta-feira, 30 de maio de 2013


5 – O público inicial
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Os filmes

Já falamos antes do público que buscamos atingir, organizar, representar. Faltou, talvez, considerar que, se pensamos num público de uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes e partimos de uma sala de 70 ou 80 lugares localizada numa instituição bem conhecida, e se já definimos objetivos bem determinados, estamos falando de uma comunidade bem menor: bem informada, pois interessada num tema preciso e nada comercial; politizada, pois América Latina, nesse contexto, traz logo a imagem das questões sociais, políticas, culturais...

Nosso ciclo inicial, sobre o tratamento do trabalhador no cinema mundial, reforça essas características. Ele deverá ter um apelo para quem já viu muitos dos filmes programados, reconhecidamente importantes na história do cinema e também na experiência do público que viveu a relação de alguns desses filmes com os contextos históricos em que foram lançados. Vários desses títulos foram lançados durante os anos da ditadura (ou das ditaduras, também em outros países), e solidariamente exxperimentados por pessoas que a ela resistiam; outros eram programados no contexto de atividades de resistência mesmo, clandestinamente, nos cineclubes por exemplo. Por causa desse mesmo perfil geral, devem ser atrativos para os jovens que não tiveram oportunidade de vè-los, mas que têm informação e formação para se interessar. O ciclo do nosso cineclube é, francamente, muito bem montado e bastante completo: uma verdadeira história do tema no cinema ocidental – com a ausência importante do cinema japonês e outros do Oriente. Também não tínhamos espaço para um panorama igualmente representativo de curtas; optamos por mostrar apenas uns poucos, mas de importância fundadora para o tema. Em junho o ciclo se completa.Terão sido 18 filmes em 16 programas, desde A Comuna, realizada em 1914 pelo cineclube Cinema do Povo, até Pão e Rosas, de Kenneth Loach, entrando no século 21, passando por Eisenstein, Brecht, o surrealismo, o Neorealismo, o cinema político italiano, dos EUA e, claro, dos países latino-americanos, com destaque para o Brasil.

Divulgação

Por um lado, ainda não temos uma comissão de divulgação funcionando regularmente – as comissões são a pauta principal da nossa próxima reunião de trabalho (da diretoria, aberta aos sócios). A Mayra, diretora da área, contatou ou buscou contatar os principais jornais da cidade – especialmente Folha de Sâo Paulo e Estado de São Paulo -, além de desenhar uma página inicial no facebook com a ajuda posterior do Rafael, nosso secretario; o Frank e eu palpitando com textos e sinopses. Por outro lado, o Memorial colocou nossa programação no seu “caderno de programação” mensal e sua assessoria de imprensa a distribuiu para os principais guias de jornais e revistas semanais.

Nenhum grande veículo publicou. É impressionante: confirmamos que os responsáveis receberam, mas não estão publicando. O mais incrível é que os guias de programação, diária e semanal, tanto da Folha quanto do Estado, têm uma rubrica Cineclubes (onde divulgam programações diversas, mas nenhuma de cineclube mesmo). Não consigo compreender porque um espaço de serviço, que lista todas as salas de São Paulo, está claramente se recusando a dar a nossa programação. É uma política deliberada? Uma arrogância disseminada?Já os jornais de bairro e de distribuição gratuita, ainda que bem menos influentes, estão dando alguma coisa e já ganhamos frequentadores através deles. Alguns saites também divulgaram. O resto é esforço nosso, ainda pouco organizado, em listas de amigos...

Pessoalmente tive uma experiência – e uma lição - muito interessante. Diante da falta de divulgação e do pouco público (como veremos adiante), consegui uma doação para que publicássemos um anúncio na Folha de São Paulo. Minha experiência de outros cineclubes, especialmente do Elétrico, que tinha um público muito grande, era que a Folha era o grande canal de comunicação com ele. Conseguíamos na época capas e matérias de destaque no caderno cultural do jornal e isso dava resultados visíveis na frequência. O exemplo contrário também: quando uma crítica malhava um filme que exibíamos podia prejudicar muito sua “carreira” em nossa sala. Eu pensei, então, que um único tiro – o anúncio na Folha – poderia ser decisivo para a gente romper essa barreira que estava nos impedindo de fazer chegar nossa programação ao público.

E foi uma grande lição: ninguém do público daquele dia veio por causa da Folha ou sequer havia visto o anúncio. Aprendi que os tempos realmente mudaram drasticamente: o público que vimos construindo não lê a grande imprensa; o público leitor (por telefone ou email algumas pessoas indicaram terem visto o anúncio, mas não vieram para o filme) não está mobilizado para o nosso tipo de atividade. Tem mais o que não fazer. São generalizações talvez muito rápidas, mas acredito que essencialmente – nesse sentido geral – corretas.

A força e a independencia da comunicação do cineclube provavelmente estará, em última instância, no boca-a-boca – o que inclui as formas de comunicação em rede – e na constituição de uma efetiva comunidade proprietária, no sentido de participante, do cineclube.

O público

Essa conclusão acima se deve à experiência destas primeiras 8 sessões (1 mês) já realizadas e de como está se constituindo nosso público. Acho que documentar aqui essa evolução e as reflexões sobre ela serão muito interessantes para cotejar, no futuro, com os resultados reais a que chegaremos.

Mais da metade dos sócios fundadores, da primeira assembléia, não veio ao cineclube neste período. Desses, uma parte contribui meio de longe: é essencialmente solidária. Uma minoria expressiva, o que inclui a maior parte da diretoria e mais alguns, milita, trabalha nas atividades que vimos desenvolvendo.

Com o bloqueio da divulgação, nosso públlico até aqui é pequeno: uma média de 12 ou 13 espectadores em cada sessão, incluindo os associados. Ou seja, apenas cerca da metade veio pela divulgação  e pelo convite de membros do cineclube.

Em outro texto eu disse que havia frustrações que me alegravam. E é isso: embora o público seja pequeno e cresça quase à razão de um novo frequentador por sessão, ou menos, o clima do cineclube está fantástico. As pessoas estão adorando, e praticamente todos os que vieram passaram a voltar em todas as sessões seguintes. Dessa meia dúzia, quem não se associou, pretende fazê-lo. Dois dos novos frequentadores e sócios são hermanos de países vizinhos

Esse pequeno público se reconhece no cineclube, adota o cineclube, se integra, sente-se em casa no cineclube. O debate, não programado, acontece espontaneamente: o pessoal não vai embora e forma uma roda na porta, discutindo o filme, a situação da história. Dado o tema, o papo é bem político, mas é também sobre cinema.

Estou muito contente: em um mês podemos dizer que temos um público pequeno mas que participa realmente. Que se consolida em bases bem firmes, mesmo que não estoure num sucesso pontual. Que cresce devagar e persistentemente. Temos cada vez mais membros para acolher os novos. Os casos concretos é que mexem com a gente – e eu me lembro de outros depoimentos, em outras épocas, quando as pessoas diziam que o cineclube tinha mudado a vida delas. Um casal que veio, manifestou um entusiasmo imediato: tinha sido como que uma descoberta para os dois: ele mais ligado no tema social; ela, em cinema. Coisa que, duas sessões depois, como disseram, já tinha mudado. Ah!, esqueci de mencionar que são todos jovens, a maioria estudante ou recém-formada. Então, com a generosidade e calor da juventude, também foram emocionantes os relatos, no debate informal, da indignação que sentiam e descobriam com as histórias das vidas e lutas da classe operária em diferentes momentos, países, circunstâncias.

Dá trabalho, mas é muito gratificante partilhar essas emoções. Vale a pena cineclubar.

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