6 – A experiência – e os problemas - evoluem
(as inserções são numeradas por ordem de data em que
foram escritas)
Como acontece
com todos os blogs que mantenho – eu ia dizer “tento manter” mas, apesar deste
comentário, eles existem –, acabam passando às vezes semanas, meses, entre as
postagens. Então, retomando nosso papo, o Cineclube Latino-Americano viveu mais
dois meses – junho e julho –, acumulou diversas experências, conseguiu algumas
vitórias, continua enfrentando problemas já detectados aqui e tem revelado
novos. Finalmente, decidimos mudar o dia - e um pouco o modelo – de exibição.
Programação e divulgação
No final de
junho terminamos o ciclo sobre os trabalhadores. Com o problema de divulgação,
entre talvez outros, mantivemos uma média de perto de 10 pessoas por sessão, às
vezes menos. Como acho que já comentei em outras postagens, o clima criado, de
cineclube, é nossa grande vitória até aqui. Mas um público médio de 10 pessoas,
considerando toda a nossa situação (abordada em outros textos aqui) é
indiscutivelmente uma derrota.
Sinto que
a maior razão para isso é a falta de
comunicação com o público. É revoltante que jornais como a Folha de São Paulo e
Estado de São Paulo, que mantêm uma página de “serviço” com todos os cinemas da
metrópole – e uma rubrica “cineclubes” em ambos!! – não publique nossa
programação. Mais que uma grande conspiração ideológica da imprensa burguesa
contra um cineclubismo potencialmente
revolucionário (que, no entanto, certamente faz parte disso), vejo nesse
fenômeno uma manifestação de um certo atavismo pequeno-burguês dos responsáveis
por essas seções – e acessoriamente os editores dos cadernos de cultura – que
usam seu poderzinho para estimular seus valores “culturais” subjetivos. Têm o pequeno
poder de selecionar o que lhes apraz. Algo semelhante ao que acontece quando o
Estado dá um uniforme e uma arma a um policial... Uma indicação dessa “esfera
de poder” quase individualizada é que um outro jornal, menor, do grupo Folha,
tem dado a nossa programação. O fato de – segundo me diz o pessoal da divulgação
do cineclube –, num outro extremo, alguns saites não aceitarem divulgar
programações pagas, mesmo a preços acessíveis, também me parece um paternalismo
preconceituoso de quem não reflete na necessidade de iniciativas independentes
precisarem se manter.
Mas não
ficamos parados; é claro, e então nos voltamos mais para a internet. Eu acho
que existe uma supervalorização muito grande desse meio. Para mim, ela é uma
espécie do velho boca-a-boca turbinado: espalha com muita, maior eficiência,
idéias, informações simples que já sejam do interesse das pessoas. Mas,
evidentemente, não tem o condão de mobilizá-las. O buraco é bem mais embaixo.
Com todo o trabalho que foi feito nestes três meses, nossa divulgação atinge
alguns milhares de pessoas: a lista de correio (mailing list) do Memorial, diversas páginas do Facebook de associados – alguns com milhares de “amigos” -, a lista
nacional dos cineclubes, a nossa própria lista... Mas não alterou
significativamente a situação.
Uma fácil,
rápida e muito equivocada tentativa de explicação para esse bloqueio de público
seria a de que “hoje em dia tudo pode ser acessado em casa”, pelo Youtube e quejandos. É verdade, mas
ninguém faz isso. Além das condições específicas da experiência em comum, da
tela grande, do ambiente adequado, a verdade é que (quase) ninguém vê filmes
como os da(s) programação(ões) do(s) cineclube(s).pela internet. De fato, me
lembro de uma frase do Alain Bergala num debate: 99% do material postado no Youtube é visto apenas por um restrito
círculo de dois ou três amigos do “realizador”. E de vez em quando postam lá um
gatinho rolando a escada, uma gafe da Beyoncé, e tem 50 milhôes de acessos...
No mês de
julho, somando essa questão com a oportunidade de parceria com o Festival de
Cinema Latino-Americano de São Paulo, mudamos nossa programação: mantivemos as
sessões às terças e quintas, mas eliminamos as duas quintas de abertura e
encerramento do Festival (dias 11 e 18) e programamos filmes todos os dias do
Festival (12 a 17) num horário alternativo. As sessões do Festival no Auditório
do Memorial foram às 17, 19 e 21 horas; as nossas, às 20hs. Esta foi a
programação:
Ciclo
Fundadores do Cinema Latino-Americano
Dia 2 – Los Olvidados (1950), Luís Buñuel – México.
Dia 4 – Barravento (1962), Glauber Rocha – Brasil.
Dia 9 – Cinco Vezes Favela (1962), Diversos – Brasil.
Dia 12 - 79 Primaveras – Santiago Álvarez (Cuba, 1967).
Dia 13 – La Hora de los Hornos (1968), Fernando Solanas e Octavio
Getino – Argentina.
Dia 14 – A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos
– Brasil.
Dia 15 – O Chacal de Nahueltoro (1969), Miguel Littín – Chile.
Dia 16 – Os Fuzis (1964), Ruy Guerra – Brasil.
Dia 17 – Yamar Maliku (O Sangue do Condor), (1969), Jorge
Sanjinéz – Bolívia.
Dia 23 – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Tomás Gutierrez
Alea – Cuba.
Dia 25 – A Tortura e Outras Formas de Diálogo (1968), Patrício
Guzmán – Chile.
Dia 30 – Maioria Absoluta (1963), Leon Hirszman; Viramundo (1965),
Geraldo Sarno, e Liberdade de Imprensa (1967), João Batista de
Andrade – Brasil.
Sem fazer parte exatamente do Festival, que se concentra em filmes
contemporâneos, nosso ciclo pretendeu dar uma visão geral dos grandes nomes que
trouxeram à baila a própria idéia de uma identidade comum do cinema realizado
em nosso sub-continente. Nossa parceria incluiu ainda a comemoração do
centenário do cineclubismo – a que voltaremos – e a realização de uma oficina
de formação cineclubista para os frequentadores do Festival. Também cedemos
nossa sala para projeções e debates feitos pela ABD de São Paulo em comemoração-reflexão
sobre os 40 anos da entidade.
Até o dia 12 a situação continuou igual, mas a partir do início do
Festival nosso público cresceu significativamente. Chegamos a ter sessões com
mais de 50 pessoas. Não sei se foi uma maior exposição na mídia que tivemos na
carona do Festival ou o fato de que passamos a contar com um luminoso
emprestado pelo Memorial, uma espécie de fachada luminosa que dirigimos para a
entrada do Auditório, anunciando nossa programação – o painel é programável -
de cada dia. Durante os 6 dias do Festival também não cobramos, pois o Festival
é gratuito, mas isso certamente não foi decisivo fora daquele contexto porque
as pessoas que voltaram depois nunca reclamaram da nossa pequena taxa de
manutenção. Passado o Festival voltamos a desaparecer dos jornais já citados e
o público refluiu para nossa média anterior.
Em vista dessa experiência, o cineclube decidiu passar as sessões para
os sábados às 17hs. Também resolveu diminuir o número de sessões, limitando a
um filme por sábado. Fui voto vencido, por estreita margem: ainda acho que
devíamos passar dois filmes – por exemplo, às 16 e 18h. A grande vantagem do
horário do sábado é que agora poderemos fazer um bom debate após as projeções.
Começando às 20hs durante nas terças e quintas só fazíamos uma apresentação
inicial, de uns dez minutos, pois não dava para ficar até tarde durante a
semana. Por outro lado, na minha opinião, um único filme por semana –
considerando todas as facilidades que temos no Memorial – vai empobrecer a
abordagem dos temas em ciclos, ou então prolongar os ciclos por dois ou mais
meses...
Essa questão toda do público é muito particular do nosso caso, que temos
que buscar um público genérico numa cidade muito diversa e competitiva. Numa
cidade do interior o cineclube teria pouca “concorrência” e uma quase natural
acolhida da imprensa – além de poder cercar os principais pontos de
visibilidade locais. Num cineclube de bairro pode-se chegar nas pessoas até com
filipetas embaixo da porta. Nos dois casos as pessoas têm mais contato, se
conhecem mais. Ter São Paulo como desafio não é mole, mas esse desafio está à
nossa altura, e nós à dele.
Parênteses: o centenário do
cineclubismo
No domingo, dia 14 de julho (da queda da Bastilha e início da Revolução
Francesa), o Festival apresentou uma sessão montada conjuntamente conosco em
homenagem ao centenário do cineclubismo. Como representante do cineclube e
curador do Festival, ponderei que não adiantaria fazer uma mesa redonda para
debater o tema, pois na condição atual do cineclubismo, não haveria quadros
para compor esse debate. Seria, para variar, uma mesa de cineastas falando
sobre cineclubismo. Preferi fazermos um ato voltado fundamentalmente para o
público: uma sessão ao ar livre do filme produzido pelo primeiro cineclube: A Comuna, realizado pela cooperativa
Cinema do Povo em 1914. Foi proposto ao grupo afro e feminino de percussão Ilú
Obá de Min sonorizar essa experiência. Foi um, senão o momento de maior significação e impacto do Festival. Entre 500 e
600 pessoas se juntaram para provavelmente terem um primeiro contato com a
própria idéia do cineclubismo como organização do público e sua força centenária.
Muito otimismo talvez... Mas de qualquer forma foi um sucesso muito grande, uma
experiência empolgante e comovedora que certamente marcou a memória dos
participantes e a história do Festival.
Nenhum comentário:
Postar um comentário