sábado, 24 de agosto de 2013


6 – A experiência – e os problemas - evoluem

(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

 

Como acontece com todos os blogs que mantenho – eu ia dizer “tento manter” mas, apesar deste comentário, eles existem –, acabam passando às vezes semanas, meses, entre as postagens. Então, retomando nosso papo, o Cineclube Latino-Americano viveu mais dois meses – junho e julho –, acumulou diversas experências, conseguiu algumas vitórias, continua enfrentando problemas já detectados aqui e tem revelado novos. Finalmente, decidimos mudar o dia - e um pouco o modelo – de exibição.

Programação e divulgação

No final de junho terminamos o ciclo sobre os trabalhadores. Com o problema de divulgação, entre talvez outros, mantivemos uma média de perto de 10 pessoas por sessão, às vezes menos. Como acho que já comentei em outras postagens, o clima criado, de cineclube, é nossa grande vitória até aqui. Mas um público médio de 10 pessoas, considerando toda a nossa situação (abordada em outros textos aqui) é indiscutivelmente uma derrota.

Sinto que a  maior razão para isso é a falta de comunicação com o público. É revoltante que jornais como a Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, que mantêm uma página de “serviço” com todos os cinemas da metrópole – e uma rubrica “cineclubes” em ambos!! – não publique nossa programação. Mais que uma grande conspiração ideológica da imprensa burguesa contra um  cineclubismo potencialmente revolucionário (que, no entanto, certamente faz parte disso), vejo nesse fenômeno uma manifestação de um certo atavismo pequeno-burguês dos responsáveis por essas seções – e acessoriamente os editores dos cadernos de cultura – que usam seu poderzinho para estimular seus valores “culturais” subjetivos. Têm o pequeno poder de selecionar o que lhes apraz. Algo semelhante ao que acontece quando o Estado dá um uniforme e uma arma a um policial... Uma indicação dessa “esfera de poder” quase individualizada é que um outro jornal, menor, do grupo Folha, tem dado a nossa programação. O fato de – segundo me diz o pessoal da divulgação do cineclube –, num outro extremo, alguns saites não aceitarem divulgar programações pagas, mesmo a preços acessíveis, também me parece um paternalismo preconceituoso de quem não reflete na necessidade de iniciativas independentes precisarem se manter.

Mas não ficamos parados; é claro, e então nos voltamos mais para a internet. Eu acho que existe uma supervalorização muito grande desse meio. Para mim, ela é uma espécie do velho boca-a-boca turbinado: espalha com muita, maior eficiência, idéias, informações simples que já sejam do interesse das pessoas. Mas, evidentemente, não tem o condão de mobilizá-las. O buraco é bem mais embaixo. Com todo o trabalho que foi feito nestes três meses, nossa divulgação atinge alguns milhares de pessoas: a lista de correio (mailing list) do Memorial, diversas páginas do Facebook de associados – alguns com milhares de “amigos” -, a lista nacional dos cineclubes, a nossa própria lista... Mas não alterou significativamente a situação.

Uma fácil, rápida e muito equivocada tentativa de explicação para esse bloqueio de público seria a de que “hoje em dia tudo pode ser acessado em casa”, pelo Youtube e quejandos. É verdade, mas ninguém faz isso. Além das condições específicas da experiência em comum, da tela grande, do ambiente adequado, a verdade é que (quase) ninguém vê filmes como os da(s) programação(ões) do(s) cineclube(s).pela internet. De fato, me lembro de uma frase do Alain Bergala num debate: 99% do material postado no Youtube é visto apenas por um restrito círculo de dois ou três amigos do “realizador”. E de vez em quando postam lá um gatinho rolando a escada, uma gafe da Beyoncé, e tem 50 milhôes de acessos...

No mês de julho, somando essa questão com a oportunidade de parceria com o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, mudamos nossa programação: mantivemos as sessões às terças e quintas, mas eliminamos as duas quintas de abertura e encerramento do Festival (dias 11 e 18) e programamos filmes todos os dias do Festival (12 a 17) num horário alternativo. As sessões do Festival no Auditório do Memorial foram às 17, 19 e 21 horas; as nossas, às 20hs. Esta foi a programação:

Ciclo Fundadores do Cinema Latino-Americano

 

Dia 2 – Los Olvidados (1950), Luís Buñuel  – México.

Dia 4 – Barravento (1962), Glauber Rocha – Brasil.

Dia 9 – Cinco Vezes Favela (1962), Diversos – Brasil.

Dia 12 - 79 Primaveras – Santiago Álvarez (Cuba, 1967).

Dia 13 – La Hora de los Hornos (1968), Fernando Solanas e Octavio Getino – Argentina.

Dia 14 – A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos – Brasil.

Dia 15 – O Chacal de Nahueltoro (1969), Miguel Littín – Chile.

Dia 16 – Os Fuzis (1964), Ruy Guerra – Brasil.

Dia 17 – Yamar Maliku (O Sangue do Condor), (1969), Jorge Sanjinéz – Bolívia.

Dia 23 – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Tomás Gutierrez Alea – Cuba.

Dia 25 – A Tortura e Outras Formas de Diálogo (1968), Patrício Guzmán – Chile.

Dia 30 – Maioria Absoluta (1963), Leon Hirszman; Viramundo (1965), Geraldo Sarno, e Liberdade de Imprensa (1967), João Batista de Andrade – Brasil.

Sem fazer parte exatamente do Festival, que se concentra em filmes contemporâneos, nosso ciclo pretendeu dar uma visão geral dos grandes nomes que trouxeram à baila a própria idéia de uma identidade comum do cinema realizado em nosso sub-continente. Nossa parceria incluiu ainda a comemoração do centenário do cineclubismo – a que voltaremos – e a realização de uma oficina de formação cineclubista para os frequentadores do Festival. Também cedemos nossa sala para projeções e debates feitos pela ABD de São Paulo em comemoração-reflexão sobre os 40 anos da entidade.

Até o dia 12 a situação continuou igual, mas a partir do início do Festival nosso público cresceu significativamente. Chegamos a ter sessões com mais de 50 pessoas. Não sei se foi uma maior exposição na mídia que tivemos na carona do Festival ou o fato de que passamos a contar com um luminoso emprestado pelo Memorial, uma espécie de fachada luminosa que dirigimos para a entrada do Auditório, anunciando nossa programação – o painel é programável - de cada dia. Durante os 6 dias do Festival também não cobramos, pois o Festival é gratuito, mas isso certamente não foi decisivo fora daquele contexto porque as pessoas que voltaram depois nunca reclamaram da nossa pequena taxa de manutenção. Passado o Festival voltamos a desaparecer dos jornais já citados e o público refluiu para nossa média anterior.

Em vista dessa experiência, o cineclube decidiu passar as sessões para os sábados às 17hs. Também resolveu diminuir o número de sessões, limitando a um filme por sábado. Fui voto vencido, por estreita margem: ainda acho que devíamos passar dois filmes – por exemplo, às 16 e 18h. A grande vantagem do horário do sábado é que agora poderemos fazer um bom debate após as projeções. Começando às 20hs durante nas terças e quintas só fazíamos uma apresentação inicial, de uns dez minutos, pois não dava para ficar até tarde durante a semana. Por outro lado, na minha opinião, um único filme por semana – considerando todas as facilidades que temos no Memorial – vai empobrecer a abordagem dos temas em ciclos, ou então prolongar os ciclos por dois ou mais meses...

Essa questão toda do público é muito particular do nosso caso, que temos que buscar um público genérico numa cidade muito diversa e competitiva. Numa cidade do interior o cineclube teria pouca “concorrência” e uma quase natural acolhida da imprensa – além de poder cercar os principais pontos de visibilidade locais. Num cineclube de bairro pode-se chegar nas pessoas até com filipetas embaixo da porta. Nos dois casos as pessoas têm mais contato, se conhecem mais. Ter São Paulo como desafio não é mole, mas esse desafio está à nossa altura, e nós à dele.

Parênteses: o centenário do cineclubismo

No domingo, dia 14 de julho (da queda da Bastilha e início da Revolução Francesa), o Festival apresentou uma sessão montada conjuntamente conosco em homenagem ao centenário do cineclubismo. Como representante do cineclube e curador do Festival, ponderei que não adiantaria fazer uma mesa redonda para debater o tema, pois na condição atual do cineclubismo, não haveria quadros para compor esse debate. Seria, para variar, uma mesa de cineastas falando sobre cineclubismo. Preferi fazermos um ato voltado fundamentalmente para o público: uma sessão ao ar livre do filme produzido pelo primeiro cineclube: A Comuna, realizado pela cooperativa Cinema do Povo em 1914. Foi proposto ao grupo afro e feminino de percussão Ilú Obá de Min sonorizar essa experiência. Foi um, senão o momento de maior significação e impacto do Festival. Entre 500 e 600 pessoas se juntaram para provavelmente terem um primeiro contato com a própria idéia do cineclubismo como organização do público e sua força centenária. Muito otimismo talvez... Mas de qualquer forma foi um sucesso muito grande, uma experiência empolgante e comovedora que certamente marcou a memória dos participantes e a história do Festival.

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