3 - O cineclube batalha – primeiras questões
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)
Penso que um cineclube deve, antes de tudo, definir seu público, conhecer
a comunidade que lhe dá origem e em que busca se enraizar. Isso, talvez na
maioria dos casos, seja o bairro; em localidades menores, que geralmente sequer
têm cinema, é a própria cidade; mas pode ser uma escola, uma empresa, um prédio
– há uma certa geografia envolvida, né? Mas também pode ser uma comunidade de
interesses, meio que em torno de um tema: meio ambiente, literatura, o próprio
cinema. Há cineclubes que se organizam em torno de identidades étnicas,
socioculturais. Acho que é sempre uma mistura desses, e outros, elementos. Não
há definição prévia, a manha é procurar a avaliação correta da situação
concreta – que, ainda por cima, é cambiante...
No caso do Cineclube Latino-Americano, nosso público deve ser (quer
dizer, o que buscamos, porque, afinal, só a prática mesmo vai acabar definindo
isso) o de pessoas interessadas nos nossos objetivos definidos nos estatutos e
já um pouco na assembléia de fundação: conhecer e promover o audiovisual e a
cultura da comunidade latino-americana em seu sentido mais amplo, aproximar as
comunidades imigrantes da população paulistana e brasileira. Essa comunidade
mais definida dilui-se, entretanto, na enormidade que é São Paulo: é com toda a
cidade que devemos nos comunicar para reunir esse público mais específico. Mais
que isso, como deveremos usar as mídias abertas – ao contrário do bairro, da
cidade pequena, da escola e outros exemplos –, para nos comunicarmos com essa
comunidade de interesses nosso universo abrange até a região metropolitana, com
cerca de 20 milhôes de pessoas.
Felizmente estamos instalados no Memorial da América Latina, que já atrai
grosso modo esse tipo de público. O
Memorial é uma referência para todas as comunidades imigrantes de São Paulo –
mais de 300 mil pessoas. E tem ao lado o terminal de transportes da Barra
Funda, com várias linhas de ônibus, inclusive intermunicipais, metrô e trens
suburbanos. Além disso, o bairro da Barra Funda, onde estamos, está vivendo um
processo de adensamento populacional bem marcante, é muito próximo do Centro e
cercado por diversos bairros importantes: Campos Elíseos, Santa Ifigênia,
Higienópolis, Perdizes, Lapa, etc. O Memorial é também – com seus 85 mil metros
quadrados, biblioteca, galeria de arte, auditórios grandes e pequenos, seu
quase-museu de arte popular latino-americana e grandes espaços abertos onde
rolam diversas atividades e manifestações culturais – um espaço e equipamento
de lazer e cultura muito importante, uma referência na cidade (o conjunto é
obra do Niemeyer). E, na atual gestão, do cineasta João Batista de Andrade, tem
como marca e direção a popularização sem vulgarização de suas atividades, a
apropriação pela sociedade deste importante espaço público. O Batista tem uma
proximidade histórica (encurtando muito a história) com o cineclubismo. Outros
dois diretores do Memorial são sócios do cineclube (e também por isso não
ocupam nenhum cargo de direção no cineclube), entre eles eu mesmo, o que
formalmente não garante nada mas serve para ilustrar o bom momento e clima com
que começam nossas atividades. De qualquer forma, como já disse antes, o
cineclube é absolutamente independente e, se um dia essa boa convivência se
alterar, esperamos já nos termos consolidado o suficiente para poder continuar
em outro local, se necessário.
Outra diretriz e objetivo do cineclube é de praticar o cineclubismo em
todas a sua latitude e profundidade. O que parece óbvio, mas não é. Como
escrevi no primeiro texto, apresentação deste blog, diversos motivos levaram a
uma crise do cineclubismo no Brasil, fazendo os cineclubes perderem suas
principais características: associativismo, democracia e autonomia. Isso se
passa um pouco em todo o mundo, mas apenas no Brasil[i]
tornou-se praticamente a realidade dominante. Por isso, estabelecer um modelo
de cineclube com estatutos de notoriedade pública, associados contribuintes,
trabalho coletivo organizado em comissões abertas, reuniões e eleições
periódicas e auto-sustentabilidade baseada na participação dos sócios e
frequentadores tornou-se hoje uma postura política. O Cineclube
Latino-Americano quer praticar e divulgar esse modelo centenário – antigo mas
não velho, e revolucionário no quadro conservador que hoje domina a exibição
alternativa – e com ele buscar reconstruir o cineclubismo paulista e
brasileiro.
É, então, com estas condições, pressupostos e objetivos que começamos
nossa aventura cineclubista.
[i] Estive recentemente na
assembléia geral da Federação Internacional de Cineclubes, realizada na Tunísia
com mais de 40 países representados. Lá pude comprovar que, embora o
individualismo e o empreendedorismo rondem os cineclubee em várias partes do
mundo, apenas no Brasil o associativismo, as regras de controle democrático e a
sustentabilidade autônoma praticamente desapareceram, tornando-se a
informalidade e a dependência do Estado a realidade dominante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário