sábado, 25 de maio de 2013

2 - Diário do cineclube
 (as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Há uns dias mandei uma nota intitulada Nasce um cineclube para a lista dos cineclubes brasileiros. A intenção era de compartilhar a experiência da organização inicial do cineclube, mostrando um pouco os passos que a gente dá – assembléia, estatutos, eleições, etc. Nos tempos que correm, em que o nome cineclube enfeita todo tipo de iniciativa, em sua quase totalidade pouco cineclubista de fato, esse passo-a-passo da constituição do cineclube me pareceu poder interessar, exemplificar e até motivar algun(ma)s. Depois, a prática do Cineclube Latino-Americano, meu cineclube, me sugeriu que talvez o próprio acompanhamento diário da vida de um cineclube pudesse ser um grande instrumento de formação, e de interesse mais amplo. Assim, vou tentar manter um Diário do Cineclube, para mim também um instrumento de questionamento de um movimento brasileiro em crise, praticamente agônica, e de refundação de um cineclubismo centenário e revolucionário: associativo, democrático e independente.

Crise do cineclubismo no Brasil

Porque a característica mais fundamental do cineclubismo, o associativismo democrático, tem sido muito desprestigiada, substituída com muita frequência pelo voluntarismo de uma ou muito poucas pessoas que se dão todo o trabalho de organizar projeções e eventuais debates, mas que se tornam, intencional ou inadvertidamente, também responsáveis exclusivas pela orientação desse trabalho. Mistura de missionários abnegados e donos do cineclube. E o público, sem vias claras e concretas de participação, retorna a um estágio que é, na verdade, pré-cineclubista: o de platéia, de público “atendido” pela iniciativa, alfabetizado pelos que sabem mais. Muitas vezes isso acontece com as melhores intenções. Mas isso está mais para uma espécie de filantropia paternal que para a decantada “organização do público”, que tanto apregoamos.

Esse voluntarismo eventualmente é compreendido como empreendedorismo, palavra cujo sentido nem sempre é plenamente compreendido por todos que a utilizam. O empreendedorismo é a valorização consciente da iniciativa particular, individual ou definidamente limitada. Tem uma componente subjetiva importante, de exaltação da iniciativa pessoal, característica de personalidade dominante, da liderança e superioridade do empreendedor. Max Weber tem uma magnífico trabalho em que mostra como a ética protestante, por exemplo, serviu de estímulo e justificativa do empreendorismo, identificando nessa qualidade pessoal um sinal da graça divina e de um lugar assegurado no Paraíso.  De qualquer forma, essa valorização da iniciativa privada – diretamente oposta à organização coletiva e ao associativismo - é a base da organização comercial ou capitalista, em que a acumulação pessoal (ou privada, restrita a um número limitado e permanente de sócios) é o caminho da exploração de terceiros.

Corolário dessas circunstâncias – seja a falta de organização coletiva ou a iniciativa privada intencional – é que grande parte das chamadas “iniciativas cineclubistas” (eufemismo para cineclube, que já indica a ausência das características de estou falando) caiu na dependência de estímulos externos. Em outras palavras, em vez de se basear num esforço coletivo mais amplo (também há que se notar que o termo “coletivo” muitas vezes identifica justamente o quadro limitado de um grupo) das comunidades em que se assentam, essas iniciativas cineclubistas ficam quase completamente dependentes do Estado, através dos diferentes programas. E, consequentemente, também frágeis e vulneráveis, porque no Brasil ainda não existem políticas de Estado para o cineclubismo (e mesmo para grande parte da cultura) e esses programas são descontínuos, acidentados, sujeitos às frequentes oscilações de pessoas, partidos, alianças, numa realidade política pouco desenvolvida especialmente no campo cultural – e muito mais ainda no campo cultural popular.

Ou seja, grande ou a maior parte das iniciativas cineclubistas nasce e morre segundo a vigência desses programas. Outras, em número muitíssimo menor, mas mais consolidadas, conseguem constituir um mix de subvenções (são ponto disso e daquilo, com prêmio daquilo outro, cine mais, etc., ao mesmo tempo) e portanto assegurar uma base mais ou menos permanente de financiamento. Muitas dessas, entretanto, se tornam verdadeiras especialistas em atender às demandas do Estado e, dessa forma, têm sua atividade dirigida nesse sentido. Um exemplo limite: os editais de várias instituições públicas ou mesmo privadas que condicionam seu apoio a programas públicos exigem que as atividades beneficiadas sejam feitas exclusivamente em suas instalações. Quando esses grupos limitados permitem a remuneração sistemática de seus membros nas atividades “vendidas” ou “estimuladas” pelo Estado, pode-se cair numa espécie de modelo empresarial sem risco: três ou quatro pessoas (para constituir uma associação em cartório bastam trés pessoas – e mesmo apenas duas assinaturas) que se eternizam na prestação de serviços comprados por um Estado que, de forma geral, já não recebe reivindicações da sociedade, mas faz demandas de atendimento das necessidades que reconhece e decide internamente.

Claro, nas dimensões brasileiras, muitas são as exceções a todas essas situações que estou comentando. Somos historicamente um celeiro de criatividade, de invenções e experiências cineclubistas e, em grande medida, berço da própria noção do cineclubismo como organização do público. Mas atualmente essas exceções certamente são absolutamente minoritárias. Quantos cineclubes existirão no Brasil hoje que se sustentam, ainda que em parte, através de seus associados ou por taxas de manutenção que auferem em suas atividades? Quantos mantêm um quadro de associados, e realizam assembléias em que seu público decide o essencial de sua orientação? Em que medida a comunidade participa, escolhe a programação que lhe é oferecida? Há renovação, troca de direção periódica? E vejam: ainda que existam formas associativas consagradas, estas indagações não se limitam a elas. A tradição cineclubista pensa participação e democracia em termos bem informais, mas que garantam visibilidade, conhecimento e possibilidade de intervenção das comunidades dos cineclubes. Que se use o termo coletivo, de ressonância tão positivamente democrática – ou qualquer outra: círculo, usina, união, ateneu... -; mas em que medida ele se integra na comunidade ou paira sobre ela, auto-suficiente? Em que medida se comprova e se renova sua representatividade? As reuniões são públicas, abertas, sistemáticas, divulgadas?

Hegemonia da produção sobre o público

Provavelmente o maior número de casos seja o das iniciativas geradas pelo modelo Cine Mais Cultura: por ser um programa barato, distribuiu um número muito grande de equipamentos, gerando a expectativa de quase dois mil cineclubes em todo o País. Mas justamente por ser barato – isto é, não comportar as dimensões de instalação e manutenção das atividades – e por ter desvalorizado essencial e crescentemente a dimensão de formação especificamente cineclubista, gerou o modelo típico a que me refiro neste texto: o cineclube como mera ação e não organização. O objetivo do programa era a exibição de filmes – muito especialmente de filmes brasileiros e, mais especialmente, de curtas-metragens. Não era a formação de cineclubes, mas a proliferação de pontos de exibição. A direção do programa foi hegemonizada pelos interesses da produção – de um segmento definido da produção, o da produção semiamadora de curtas metragens. Por isso, não era importante a organização, a participação, a democracia: na verdade isso só complicaria e alongaria a execução do programa. Nem era necessária a sustentabilidade – elemento essencial da auto-organização -, os filmes a serem exibidos já são financiados em sua quase totalidade pelo Estado. Baseado em falsas premissas, o programa não atendeu aos interesses do verdadeiro patrocinador, o governo. O circuito precário inicialmente constituído apresentou um rendimento – em público – pífio, com médias de espectadores por sessão muito baixas (ainda que o investimento tivesse sido mínimo). Mas sobretudo mostrou-se pouco controlável, no sentido de que interessa ao Estado o acompanhamento burocrático preciso de seus investimentos, ainda que em matéria tão difícil como é a cultura. Mesmo com os produtores e dirigentes cineclubistas a eles identificados esforçando-se ao máximo, o “sistema” não forneceu informações suficientes: nem o governo consegue justificar em sua lógica interna essa farra de exibições informais nem os famosos relatórios de sessão vieram em volume suficiente para justificar mais investimentos na produção.

Embora não seja intenção deste texto discutir esta questão mais em detalhe, não posso deixar de comentar o quanto essa questão ficou mais evidente nos últimos tempos. O Cine Mais Cultura parou subitamente (há alguns anos já), e em seu lugar abriu-se uma discussão – inicialmente totalmente confusa e inconclusiva e que agora, com nova direção, entra em outra etapa – sobre como se constituir esse circuito de exibição complementar a um sistema  comercial que é essencialmente inadequado para a maioria dos segmentos da produção brasileira (não acredito que o público, no momento, tenha participação ou sequer seja reconhecido neste debate). As propostas de uso do Vale Cultura que inundaram a lista cncdialogo nos últimos tempos são a última e mais cabal demonstração do tragipatético e subalterno papel atribuído aos cineclubes e ao público, e de uma certa voracidade irrealista de alguns produtores. Primeiro se promoveu um cineclubismo gratuito para atrair e facilitar a vinda de um público que nem assim compareceu; agora se quer usar o Vale Cultura para criar bases de uma possível remuneração dos filmes nas exibições dos cineclubes. Diante do absurdo, uma sugestão luminosa: os cineclubes (que não, ou mal conseguem fazer uma sessão semanal) podem manter a situação criada de gratuidade para todos e criar uma outra sessão paga, só para as seletas categorias agraciadas pelo Vale Cultura. Venham todos, é de grátis! Só trabalhador paga...

Cineclube fácil

Mas, voltando ao que interessa, a priorização da exibição e a consequente desvalorização da organização dos cineclubes levou a um modelo e uma visão redutora em que a “atividade cineclubista” se identificava essencialmente com a projeção (e a eventual palestra ou conversa com o realizador, que passou a se confundir com o debate). Coisa simples. Você faz uma oficina rápida aqui, pega um projetor e uma tela, escolhe os filmes no cardápio da Programadora Brasil ou usa os seus e dos amigos, e pronto: Shazam! Cineclube!

Evidentemente não é assim. Projetar filmes é cada vez mais fácil – de certa forma, por isso mesmo é cada vez mais difícil reunir pessoas para vê-los. A ação do cineclube é essencialmente junto ao, com o público. O filme, o produto audiovisual, é instrumento, ferramenta de conhecimento, compreensão e de intervenção no mundo. O que inclui conhecer, compreender e fazer cinema, mas não se limita a isso. O cinema não é um fim, é um meio. Um meio de muitas coisas. O meio mais essencial, paradigmático, particularmente dos nossos tempos. A sociedade se informa, se comunica através do audiovisual. O indivíduo se socializa, se forma, em cada vez maior medida, através do audiovisual. Nos divertimos principalmente com e pelo audiovisual. Vivemos várias horas por dia – e muita gente a maior parte do dia – ligados em alguma forma de tela audiovisual. Mas nós, a sociedade, o povo, o público, não controlamos o audiovisual e esse papel essencial que ele exerce sobre todos nós. Essa formidável ferramenta – ou arsenal de muitas ferramentas – é instrumento, mais essencialmente, de alienação, de dominação, de controle, de indução ao consumo. O objetivo maior, a finalidade última do cineclube é autoorganizar o público para conhecer o audiovisual em toda a sua diversidade; compreender sua(s) estrutura(s), apoderar-se dessa ferramenta para construir o “seu” audiovisual e, através dele, reconstruir a si mesmo e ao mundo. E, quando possível, fazer isso da forma mais divertida. Divertir, instruir, emancipar!

Não é mole, não. Não basta botar um disquete num projetor e convidar alguém para vir “debater”. Tem que ser sistemático, tão confortável quanto possível. Portanto, tem que se sustentar, tem que ser do interesse do público – verificável pela sua afluência. Tem que motivar os participantes, formar cineclubistas, crescer em alcance e representatividade. Tem tanta coisa!

O cineclube batalha

Três semanas e 6 programas depois da fundação do nosso cineclube, me sinto revivendo mais uma vez uma experiência que repeti tantas vezes na vida, em quarenta anos de cineclubismo, e que nunca é a mesma.  Embora nunca tenha feito outra coisa que cineclubar – considero meu trabalho teórico e acadêmico mais recente parte integral e continuação da minha militância cineclubista – há cerca de 4 anos não vivia a rotina das sessões, das reuniões, das inúmeras tarefas que o cineclube exige numa base quase diária. Há um tempo não vivia essa expectativa, ver se deu no jornal, quantas “curtidas” hoje na nossa página. As satisfações e as frustrações esperando a chegada do público, juntando a grana para registrar o cineclube: quantas taxas de manutenção, quantos se associaram hoje? Na sala, a reação do público diante do filme, sua integração ou distanciamento do cineclube mesmo, se ele se sente e compreende parte do cineclube ou se percebe apenas a relação de consumo a que está acostumado. A tensão de falar em público (até hoje fico tenso com isso), de provocar identificação ou sofrer o estranhamento. Aguardar que os participantes se manifestem, quebrem eles as suas respectivas resistências e tensões. E a trabalheira de fazer o boletim, pesquisar os filmes, arranjar as cópias, verificar todo o material. Animar a discussão dentro da lista dos associados, juntar o pessoal para as comissões de trabalho: programar os filmes, escrever e distribuir releases. É muito trabalho, muita ansiedade, muita gratificação também. Eu até me divirto com certas derrotas que claramente são novas e importantes lições que aprendo: postura filosófica que deve indicar que estou envelhecendo...

Cineclube não é nada fácil. É dureza e vale muito a pena – literalmente, porque se pena mesmo. Por isso acho que esse relato subjetivo, esse diário pessoal, político e cineclubista, pode ser útil  para esclarecer quem está querendo montar um cineclube, quem quer cotejar experiências. E para quem quiser corrigir uma trajetória equivocada.

Quero fazer isto na forma de um blog, a que as pessoas acederão quando tiverem interesse e onde poderão também postar contribuições, questões e questionamentos, de forma que possamos trocar esse aprendizado todo de cineclubar.

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