5 – O público inicial
Os
filmes
Já falamos antes do público que buscamos atingir,
organizar, representar. Faltou, talvez, considerar que, se pensamos num público
de uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes e partimos de uma sala de 70
ou 80 lugares localizada numa instituição bem conhecida, e se já definimos
objetivos bem determinados, estamos falando de uma comunidade bem menor: bem
informada, pois interessada num tema preciso e nada comercial; politizada, pois
América Latina, nesse contexto, traz logo a imagem das questões sociais,
políticas, culturais...
Nosso ciclo inicial, sobre o tratamento do trabalhador
no cinema mundial, reforça essas características. Ele deverá ter um apelo para
quem já viu muitos dos filmes programados, reconhecidamente importantes na
história do cinema e também na experiência do público que viveu a relação de
alguns desses filmes com os contextos históricos em que foram lançados. Vários
desses títulos foram lançados durante os anos da ditadura (ou das ditaduras,
também em outros países), e solidariamente exxperimentados por pessoas que a
ela resistiam; outros eram programados no contexto de atividades de resistência
mesmo, clandestinamente, nos cineclubes por exemplo. Por causa desse mesmo perfil
geral, devem ser atrativos para os jovens que não tiveram oportunidade de
vè-los, mas que têm informação e formação para se interessar. O ciclo do nosso
cineclube é, francamente, muito bem montado e bastante completo: uma verdadeira
história do tema no cinema ocidental – com a ausência importante do cinema
japonês e outros do Oriente. Também não tínhamos espaço para um panorama igualmente
representativo de curtas; optamos por mostrar apenas uns poucos, mas de
importância fundadora para o tema. Em junho o ciclo se completa.Terão sido 18
filmes em 16 programas, desde A Comuna,
realizada em 1914 pelo cineclube Cinema do Povo, até Pão e Rosas, de Kenneth Loach, entrando no século 21, passando por
Eisenstein, Brecht, o surrealismo, o Neorealismo, o cinema político italiano,
dos EUA e, claro, dos países latino-americanos, com destaque para o Brasil.
Divulgação
Por um lado, ainda não temos uma comissão de divulgação funcionando
regularmente – as comissões são a pauta principal da nossa próxima reunião de
trabalho (da diretoria, aberta aos sócios). A Mayra, diretora da área, contatou
ou buscou contatar os principais jornais da cidade – especialmente Folha de Sâo
Paulo e Estado de São Paulo -, além de desenhar uma página inicial no facebook
com a ajuda posterior do Rafael, nosso secretario; o Frank e eu palpitando com
textos e sinopses. Por outro lado, o Memorial colocou nossa programação no seu “caderno
de programação” mensal e sua assessoria de imprensa a distribuiu para os
principais guias de jornais e revistas semanais.
Nenhum grande veículo publicou. É impressionante: confirmamos que os
responsáveis receberam, mas não estão publicando. O mais incrível é que os
guias de programação, diária e semanal, tanto da Folha quanto do Estado, têm
uma rubrica Cineclubes (onde divulgam
programações diversas, mas nenhuma de cineclube mesmo). Não consigo compreender
porque um espaço de serviço, que lista todas as salas de São Paulo, está
claramente se recusando a dar a nossa programação. É uma política deliberada?
Uma arrogância disseminada?Já os jornais de bairro e de distribuição gratuita, ainda
que bem menos influentes, estão dando alguma coisa e já ganhamos frequentadores
através deles. Alguns saites também divulgaram. O resto é esforço nosso, ainda
pouco organizado, em listas de amigos...
Pessoalmente tive uma experiência – e uma lição - muito interessante.
Diante da falta de divulgação e do pouco público (como veremos adiante),
consegui uma doação para que publicássemos um anúncio na Folha de São Paulo.
Minha experiência de outros cineclubes, especialmente do Elétrico, que tinha um
público muito grande, era que a Folha era o grande canal de comunicação com
ele. Conseguíamos na época capas e matérias de destaque no caderno cultural do
jornal e isso dava resultados visíveis na frequência. O exemplo contrário também:
quando uma crítica malhava um filme que exibíamos podia prejudicar muito sua “carreira”
em nossa sala. Eu pensei, então, que um único tiro – o anúncio na Folha –
poderia ser decisivo para a gente romper essa barreira que estava nos impedindo
de fazer chegar nossa programação ao público.
E foi uma grande lição: ninguém do público daquele dia veio por causa da
Folha ou sequer havia visto o anúncio. Aprendi que os tempos realmente mudaram
drasticamente: o público que vimos construindo não lê a grande imprensa; o
público leitor (por telefone ou email algumas pessoas indicaram terem visto o
anúncio, mas não vieram para o filme) não está mobilizado para o nosso tipo de
atividade. Tem mais o que não fazer. São generalizações talvez muito rápidas,
mas acredito que essencialmente – nesse sentido geral – corretas.
A força e a independencia da comunicação do cineclube provavelmente
estará, em última instância, no boca-a-boca – o que inclui as formas de
comunicação em rede – e na constituição de uma efetiva comunidade proprietária,
no sentido de participante, do cineclube.
O público
Essa conclusão acima se deve à experiência destas primeiras 8 sessões (1
mês) já realizadas e de como está se constituindo nosso público. Acho que
documentar aqui essa evolução e as reflexões sobre ela serão muito
interessantes para cotejar, no futuro, com os resultados reais a que
chegaremos.
Mais da metade dos sócios fundadores, da primeira assembléia, não veio
ao cineclube neste período. Desses, uma parte contribui meio de longe: é essencialmente
solidária. Uma minoria expressiva, o que inclui a maior parte da diretoria e
mais alguns, milita, trabalha nas atividades que vimos desenvolvendo.
Com o bloqueio da divulgação, nosso públlico até aqui é pequeno: uma
média de 12 ou 13 espectadores em cada sessão, incluindo os associados. Ou
seja, apenas cerca da metade veio pela divulgação e pelo convite de membros do cineclube.
Em outro texto eu disse que havia frustrações que me alegravam. E é
isso: embora o público seja pequeno e cresça quase à razão de um novo
frequentador por sessão, ou menos, o clima do cineclube está fantástico. As
pessoas estão adorando, e praticamente todos os que vieram passaram a voltar em
todas as sessões seguintes. Dessa meia dúzia, quem não se associou, pretende
fazê-lo. Dois dos novos frequentadores e sócios são hermanos de países vizinhos
Esse pequeno público se reconhece no cineclube, adota o cineclube, se
integra, sente-se em casa no cineclube. O debate, não programado, acontece
espontaneamente: o pessoal não vai embora e forma uma roda na porta, discutindo
o filme, a situação da história. Dado o tema, o papo é bem político, mas é
também sobre cinema.
Estou muito contente: em um mês podemos dizer que temos um público
pequeno mas que participa realmente. Que se consolida em bases bem firmes,
mesmo que não estoure num sucesso pontual. Que cresce devagar e
persistentemente. Temos cada vez mais membros para acolher os novos. Os casos
concretos é que mexem com a gente – e eu me lembro de outros depoimentos, em
outras épocas, quando as pessoas diziam que o cineclube tinha mudado a vida
delas. Um casal que veio, manifestou um entusiasmo imediato: tinha sido como
que uma descoberta para os dois: ele mais ligado no tema social; ela, em
cinema. Coisa que, duas sessões depois, como disseram, já tinha mudado. Ah!,
esqueci de mencionar que são todos jovens, a maioria estudante ou
recém-formada. Então, com a generosidade e calor da juventude, também foram
emocionantes os relatos, no debate informal, da indignação que sentiam e
descobriam com as histórias das vidas e lutas da classe operária em diferentes
momentos, países, circunstâncias.
Dá trabalho, mas é muito gratificante partilhar essas emoções. Vale a
pena cineclubar.