quinta-feira, 30 de maio de 2013


5 – O público inicial
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Os filmes

Já falamos antes do público que buscamos atingir, organizar, representar. Faltou, talvez, considerar que, se pensamos num público de uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes e partimos de uma sala de 70 ou 80 lugares localizada numa instituição bem conhecida, e se já definimos objetivos bem determinados, estamos falando de uma comunidade bem menor: bem informada, pois interessada num tema preciso e nada comercial; politizada, pois América Latina, nesse contexto, traz logo a imagem das questões sociais, políticas, culturais...

Nosso ciclo inicial, sobre o tratamento do trabalhador no cinema mundial, reforça essas características. Ele deverá ter um apelo para quem já viu muitos dos filmes programados, reconhecidamente importantes na história do cinema e também na experiência do público que viveu a relação de alguns desses filmes com os contextos históricos em que foram lançados. Vários desses títulos foram lançados durante os anos da ditadura (ou das ditaduras, também em outros países), e solidariamente exxperimentados por pessoas que a ela resistiam; outros eram programados no contexto de atividades de resistência mesmo, clandestinamente, nos cineclubes por exemplo. Por causa desse mesmo perfil geral, devem ser atrativos para os jovens que não tiveram oportunidade de vè-los, mas que têm informação e formação para se interessar. O ciclo do nosso cineclube é, francamente, muito bem montado e bastante completo: uma verdadeira história do tema no cinema ocidental – com a ausência importante do cinema japonês e outros do Oriente. Também não tínhamos espaço para um panorama igualmente representativo de curtas; optamos por mostrar apenas uns poucos, mas de importância fundadora para o tema. Em junho o ciclo se completa.Terão sido 18 filmes em 16 programas, desde A Comuna, realizada em 1914 pelo cineclube Cinema do Povo, até Pão e Rosas, de Kenneth Loach, entrando no século 21, passando por Eisenstein, Brecht, o surrealismo, o Neorealismo, o cinema político italiano, dos EUA e, claro, dos países latino-americanos, com destaque para o Brasil.

Divulgação

Por um lado, ainda não temos uma comissão de divulgação funcionando regularmente – as comissões são a pauta principal da nossa próxima reunião de trabalho (da diretoria, aberta aos sócios). A Mayra, diretora da área, contatou ou buscou contatar os principais jornais da cidade – especialmente Folha de Sâo Paulo e Estado de São Paulo -, além de desenhar uma página inicial no facebook com a ajuda posterior do Rafael, nosso secretario; o Frank e eu palpitando com textos e sinopses. Por outro lado, o Memorial colocou nossa programação no seu “caderno de programação” mensal e sua assessoria de imprensa a distribuiu para os principais guias de jornais e revistas semanais.

Nenhum grande veículo publicou. É impressionante: confirmamos que os responsáveis receberam, mas não estão publicando. O mais incrível é que os guias de programação, diária e semanal, tanto da Folha quanto do Estado, têm uma rubrica Cineclubes (onde divulgam programações diversas, mas nenhuma de cineclube mesmo). Não consigo compreender porque um espaço de serviço, que lista todas as salas de São Paulo, está claramente se recusando a dar a nossa programação. É uma política deliberada? Uma arrogância disseminada?Já os jornais de bairro e de distribuição gratuita, ainda que bem menos influentes, estão dando alguma coisa e já ganhamos frequentadores através deles. Alguns saites também divulgaram. O resto é esforço nosso, ainda pouco organizado, em listas de amigos...

Pessoalmente tive uma experiência – e uma lição - muito interessante. Diante da falta de divulgação e do pouco público (como veremos adiante), consegui uma doação para que publicássemos um anúncio na Folha de São Paulo. Minha experiência de outros cineclubes, especialmente do Elétrico, que tinha um público muito grande, era que a Folha era o grande canal de comunicação com ele. Conseguíamos na época capas e matérias de destaque no caderno cultural do jornal e isso dava resultados visíveis na frequência. O exemplo contrário também: quando uma crítica malhava um filme que exibíamos podia prejudicar muito sua “carreira” em nossa sala. Eu pensei, então, que um único tiro – o anúncio na Folha – poderia ser decisivo para a gente romper essa barreira que estava nos impedindo de fazer chegar nossa programação ao público.

E foi uma grande lição: ninguém do público daquele dia veio por causa da Folha ou sequer havia visto o anúncio. Aprendi que os tempos realmente mudaram drasticamente: o público que vimos construindo não lê a grande imprensa; o público leitor (por telefone ou email algumas pessoas indicaram terem visto o anúncio, mas não vieram para o filme) não está mobilizado para o nosso tipo de atividade. Tem mais o que não fazer. São generalizações talvez muito rápidas, mas acredito que essencialmente – nesse sentido geral – corretas.

A força e a independencia da comunicação do cineclube provavelmente estará, em última instância, no boca-a-boca – o que inclui as formas de comunicação em rede – e na constituição de uma efetiva comunidade proprietária, no sentido de participante, do cineclube.

O público

Essa conclusão acima se deve à experiência destas primeiras 8 sessões (1 mês) já realizadas e de como está se constituindo nosso público. Acho que documentar aqui essa evolução e as reflexões sobre ela serão muito interessantes para cotejar, no futuro, com os resultados reais a que chegaremos.

Mais da metade dos sócios fundadores, da primeira assembléia, não veio ao cineclube neste período. Desses, uma parte contribui meio de longe: é essencialmente solidária. Uma minoria expressiva, o que inclui a maior parte da diretoria e mais alguns, milita, trabalha nas atividades que vimos desenvolvendo.

Com o bloqueio da divulgação, nosso públlico até aqui é pequeno: uma média de 12 ou 13 espectadores em cada sessão, incluindo os associados. Ou seja, apenas cerca da metade veio pela divulgação  e pelo convite de membros do cineclube.

Em outro texto eu disse que havia frustrações que me alegravam. E é isso: embora o público seja pequeno e cresça quase à razão de um novo frequentador por sessão, ou menos, o clima do cineclube está fantástico. As pessoas estão adorando, e praticamente todos os que vieram passaram a voltar em todas as sessões seguintes. Dessa meia dúzia, quem não se associou, pretende fazê-lo. Dois dos novos frequentadores e sócios são hermanos de países vizinhos

Esse pequeno público se reconhece no cineclube, adota o cineclube, se integra, sente-se em casa no cineclube. O debate, não programado, acontece espontaneamente: o pessoal não vai embora e forma uma roda na porta, discutindo o filme, a situação da história. Dado o tema, o papo é bem político, mas é também sobre cinema.

Estou muito contente: em um mês podemos dizer que temos um público pequeno mas que participa realmente. Que se consolida em bases bem firmes, mesmo que não estoure num sucesso pontual. Que cresce devagar e persistentemente. Temos cada vez mais membros para acolher os novos. Os casos concretos é que mexem com a gente – e eu me lembro de outros depoimentos, em outras épocas, quando as pessoas diziam que o cineclube tinha mudado a vida delas. Um casal que veio, manifestou um entusiasmo imediato: tinha sido como que uma descoberta para os dois: ele mais ligado no tema social; ela, em cinema. Coisa que, duas sessões depois, como disseram, já tinha mudado. Ah!, esqueci de mencionar que são todos jovens, a maioria estudante ou recém-formada. Então, com a generosidade e calor da juventude, também foram emocionantes os relatos, no debate informal, da indignação que sentiam e descobriam com as histórias das vidas e lutas da classe operária em diferentes momentos, países, circunstâncias.

Dá trabalho, mas é muito gratificante partilhar essas emoções. Vale a pena cineclubar.

4 – O cineclube batalha – preparando a sessão
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Nossa assembléia de fundação foi na quinta e, por causa da divulgação do Memorial, já tínhamos sessão marcada na terça seguinte. Marcamos reunião no domingo, que teve quórum da diretoria mais eu. Vimos que o registro do cineclube iria aguardar um pouco: calculamos que o custo seria da ordem de 400 reais e ainda não tínhamos nenhum recurso. Enquanto isso, a secretária da assembléia de fundação está passando a limpo a ata que será juntada às assinaturas colhidas.

Acertamos a definição de alguns pontos tratados na assembléia: a taxa de manutenção será de 5 reais e a mensalidade dos sócios de 20 reais, dando direito a 4 entradas e desconto de 20% em qualquer outra atividade (temos grandes planos). De qualquer forma, neste primeiro mês exibiremos 8 programas, com duas sessões semanais, às terças e quintas.

Boletim

Dividimos o trabalho para a feitura do primeiro boletim: formato ofício dobrado – até por uma espécie de homenagem saudosa, para lembrar os clássicos boletins de cineclubes. Acertamos uma introdução de uma página, apresentando o cineclube e orientando o frequentador sobre como participar, se associar, etc. Escrevi um texto que introduzia a questão do centenário do cineclubismo e uma nota sobre o Dia do Público, em memória do 10 de maio de 1849 e o massacre do Astor Place[i].

No estado de São Paulo existe uma lei que instituiu o Dia do Público e do Cineclubismo. Eu sempre digo que é meio esquisito – e creio que posso fazer essa afirmação porque a proposta do Dia do Público, aprovada por federações de cineclubes de vários pa[ises, é minha: o dia do público deve valorizar o público em geral, de cinema, teatro, dança, futebol... O cineclubismo é uma gota – ainda que importante – nesse universo, e não devia se apropriar da data como faz no texto da lei. E ainda por cima, os eventos do Astor Place aconteceram 50 anos antes do surgimento do próprio cinema!

As outras páginas do boletim tinham a programação, com nome do filme, diretor, data e origem, além de uma curta sinopse. Imprimimos e encadernamos 150 exemplares na segunda-feira, com a colaboração de sócios que trabalham no Memorial. Retrospectivamente, posso dizer que acabaram sobrando alguns...

Logotipia

Coloca-se, então, o problema da identidade visual. O cineclube - todo cineclube, creio – precisa de uma logotipia que o identifique e marque sua relação com o público. Na minha experiência isso geralmente acontecia com a identificação de um talento entre os membros do cineclube. O capixaba Hélio Coelho é um grande nome nessa tradição: fez o logotipo do Elétrico Cineclube, mas também é o criador da formiguinha – que foi feita para o CNC comemorar os 60 anos do cineclubismo, em 1988 - que usamos em várias atividades, e da marca da Associação de Cineclubes de Vila Velha (ES), entre outras. Tremendo artista. O Victor Nosek criou as peças do Cineclube Bixiga, o Marcos Madalena, incrível ilustrador, deu vida ao Oscarito e me esqueço do primemiro nome doEpstein, que fazia cartazes muito legais para o Cineclube Oficina, entidades de que participei.

Nosso secretário, o Rafael, conhece a coisa, mas não houve ainda tempo para desenvolver essa tal identidade. Assim, pegamos na rede um mapa estilizado da América Latina e aplicamos – com letras sugeridas pelo Rafael – na capa do boletim e também na página do facebook (preparada pela Mayra), igualmente feita meio às pressas. Mas o problema da identidade, da logotipia aplicada e identificada com outras peças e atividades ainda está de pé, irresolvido.

Organização da sessão

Outro tema urgente era organizar e dividir  os trabalhos da sessão. Já está acertado que o Carlos assume a projeção, e o filho dele vem ajudar: os dois manjam bastante de tudo referente a equipamento, autoração, etc. Vamos rodiziar entre os diretores e outros associados cuja presença já está confirmada as funções de bilheteria e recolha dos “ingressos”.

Como a sala do cineclube fica num dos extremos do Pavilhão da Criatividade – que é a sede da exposição permanente de cultura popular latino-americana no Memorial – nossa entrada corresponde à saída da exposição, mas ela está fechada nesse horário. A sala de espera do cineclube é uma beleza: é uma das pontas da exposição, enfeitada com vitrines com peças belindíssimas... O espaço de projeção é uma espécie de caixa preta, em cuja parede teremos que em breve colocar nome e marca do cineclube e, na porta de entrada, um banner com a programação (mais tarde, na terceira semana, a Adriana preparou dois banners sobre armações que são postas externamente, indicando o caminho e a entrada do cineclube).

O Frank tem guardados os borderôs que eram usados na sala Maria Antonia do PopCine, eu os imprimirei. E, como o Memorial tem um sistema de impressão de ingressos para seus grandes espetáculos, fornecer um número relativamente pequeno para nós praticamente não tem custo para eles: assim, nossos ingressos também ficaram bem bacanas. Também imprimimos uma ficha de associação provisória bem simples.

Os membros do cineclube procurarão chegar o mais cedo possível, mas abriremos nossa bilheteria (uma mesinha na entrada) às 19h30 e seremos rigorosos com todos os horários – é importante para estabelecer o hábito. Às 20h, um ou mais membros do cineclube farão uma breve apresentação do filme (e, neste começo, do cineclube), de até 10 minutos. No começo será mais o Frank, e um pouco eu, mais velhuscos. Mas o ideal é que todos partilhem essa tarefa. Como as sessões são em dias de trabalho e devem terminar lá pelas 22h ou mais, não haverá debate formal (logo ficará claro que o debate ocorre de qualquer jeito na saída, mas voltarei a isto).

 


[i] Outro blog meu: http://felipemacedocineclubes.blogspot.com.br/ tem um texto contando e contextualizando essa efeméride.

domingo, 26 de maio de 2013


3 - O cineclube batalha – primeiras questões

(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Penso que um cineclube deve, antes de tudo, definir seu público, conhecer a comunidade que lhe dá origem e em que busca se enraizar. Isso, talvez na maioria dos casos, seja o bairro; em localidades menores, que geralmente sequer têm cinema, é a própria cidade; mas pode ser uma escola, uma empresa, um prédio – há uma certa geografia envolvida, né? Mas também pode ser uma comunidade de interesses, meio que em torno de um tema: meio ambiente, literatura, o próprio cinema. Há cineclubes que se organizam em torno de identidades étnicas, socioculturais. Acho que é sempre uma mistura desses, e outros, elementos. Não há definição prévia, a manha é procurar a avaliação correta da situação concreta – que, ainda por cima, é cambiante...

No caso do Cineclube Latino-Americano, nosso público deve ser (quer dizer, o que buscamos, porque, afinal, só a prática mesmo vai acabar definindo isso) o de pessoas interessadas nos nossos objetivos definidos nos estatutos e já um pouco na assembléia de fundação: conhecer e promover o audiovisual e a cultura da comunidade latino-americana em seu sentido mais amplo, aproximar as comunidades imigrantes da população paulistana e brasileira. Essa comunidade mais definida dilui-se, entretanto, na enormidade que é São Paulo: é com toda a cidade que devemos nos comunicar para reunir esse público mais específico. Mais que isso, como deveremos usar as mídias abertas – ao contrário do bairro, da cidade pequena, da escola e outros exemplos –, para nos comunicarmos com essa comunidade de interesses nosso universo abrange até a região metropolitana, com cerca de 20 milhôes de pessoas.

Felizmente estamos instalados no Memorial da América Latina, que já atrai grosso modo esse tipo de público. O Memorial é uma referência para todas as comunidades imigrantes de São Paulo – mais de 300 mil pessoas. E tem ao lado o terminal de transportes da Barra Funda, com várias linhas de ônibus, inclusive intermunicipais, metrô e trens suburbanos. Além disso, o bairro da Barra Funda, onde estamos, está vivendo um processo de adensamento populacional bem marcante, é muito próximo do Centro e cercado por diversos bairros importantes: Campos Elíseos, Santa Ifigênia, Higienópolis, Perdizes, Lapa, etc. O Memorial é também – com seus 85 mil metros quadrados, biblioteca, galeria de arte, auditórios grandes e pequenos, seu quase-museu de arte popular latino-americana e grandes espaços abertos onde rolam diversas atividades e manifestações culturais – um espaço e equipamento de lazer e cultura muito importante, uma referência na cidade (o conjunto é obra do Niemeyer). E, na atual gestão, do cineasta João Batista de Andrade, tem como marca e direção a popularização sem vulgarização de suas atividades, a apropriação pela sociedade deste importante espaço público. O Batista tem uma proximidade histórica (encurtando muito a história) com o cineclubismo. Outros dois diretores do Memorial são sócios do cineclube (e também por isso não ocupam nenhum cargo de direção no cineclube), entre eles eu mesmo, o que formalmente não garante nada mas serve para ilustrar o bom momento e clima com que começam nossas atividades. De qualquer forma, como já disse antes, o cineclube é absolutamente independente e, se um dia essa boa convivência se alterar, esperamos já nos termos consolidado o suficiente para poder continuar em outro local, se necessário.

Outra diretriz e objetivo do cineclube é de praticar o cineclubismo em todas a sua latitude e profundidade. O que parece óbvio, mas não é. Como escrevi no primeiro texto, apresentação deste blog, diversos motivos levaram a uma crise do cineclubismo no Brasil, fazendo os cineclubes perderem suas principais características: associativismo, democracia e autonomia. Isso se passa um pouco em todo o mundo, mas apenas no Brasil[i] tornou-se praticamente a realidade dominante. Por isso, estabelecer um modelo de cineclube com estatutos de notoriedade pública, associados contribuintes, trabalho coletivo organizado em comissões abertas, reuniões e eleições periódicas e auto-sustentabilidade baseada na participação dos sócios e frequentadores tornou-se hoje uma postura política. O Cineclube Latino-Americano quer praticar e divulgar esse modelo centenário – antigo mas não velho, e revolucionário no quadro conservador que hoje domina a exibição alternativa – e com ele buscar reconstruir o cineclubismo paulista e brasileiro.

É, então, com estas condições, pressupostos e objetivos que começamos nossa aventura cineclubista.

 


[i] Estive recentemente na assembléia geral da Federação Internacional de Cineclubes, realizada na Tunísia com mais de 40 países representados. Lá pude comprovar que, embora o individualismo e o empreendedorismo rondem os cineclubee em várias partes do mundo, apenas no Brasil o associativismo, as regras de controle democrático e a sustentabilidade autônoma praticamente desapareceram, tornando-se a informalidade e a dependência do Estado a realidade dominante.

sábado, 25 de maio de 2013

1 -Nasce um cineclube
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)
 
Nesta quinta-feira, 2 de maio, fundamos o Cineclube Latinoamericano. Cerca de 20 pessoas compuseram a assembléia de fundação – e umas dez justificaram sua ausência, confirmando a intenção de se associarem na primeira oportunidade. Aprovada a pauta distribuída anteriormente, foi composta uma mesa diretora dos trabalhos.
Grande parte da reunião foi ocupada com a discussão do estatuto, previamente distribuído a todos, e que recebeu alguns aperfeiçoamentos. O modelo organizativo do cineclube é o de diretorias coordenadoras de comissões de trabalho abertas: programação, divulgação, documentação, produção, entre outras. Só há uma categoria de sócios, os contribuintes, que pagarão uma pequena taxa mensal, dando direito a algumas vantagens como ingressos gratuitos e descontos em outras atividades. O detalhamento desses procedimentos (valores, prazos, exceções, etc.) será definido num Regimento Interno a ser submetido a uma próxima assembléia. As atividades do cineclube serão abertas a todos, sócios ou não, normalmente com a cobrança de uma taxa de manutenção. Além dessa base essencial, o cineclube procurará outras receitas para a sua manutenção, frutos de suas próprias atividades ou de doações, patrocínios, etc.
Aprovado o estatuto, passou-se à discussão das linhas gerais de atuação da entidade, um programa inicial para a primeira diretoria a ser eleita em seguida. O Cineclube vai estabelecer um Termo de Cooperação com a Fundação Memorial da América Latina. Esse acordo deve facultar ao cineclube o uso do chamado Espaço-Vídeo, simpática sala com cerca de 70 lugares, e aos equipamentos de som e projeção. Excepcionalmente – em manifestações especiais – outros espaços poderão ser utilizados. Em contrapartida, o cineclube manterá uma atividade permanente e sistemática, sempre a custos bem accessíveis e centrada na divulgação, conhecimento e intercâmbio das produções audiovisuais latino-americanas. O acordo não envolve nenhum recurso financeiro das partes e o cineclube terá absoluta liberdade e autonomia na organização de suas atividades. A possibilidade, seriedade, honestidade, solidez desse acordo são garantidas inicialmente pelo fato de que o Memorial é presidido pelo cineasta João Batista de Andrade, grande e histórico parceiro do cineclubismo brasileiro e mentor desta parceria.
Além do acordo a ser celebrado com o Memorial, várias outras parcerias foram mencionadas, especialmente com os consulados latino-americanos em São Paulo – muitos já manifestaram disposição de ceder filmes – e outras entidades. Graças a alguns de seus associados, o cineclube também já tem contatos com cineclubes de praticamente toda a América Latina. Também discutiu-se as possíveis comissões de trabalho – além das indispensáveis – a serem criadas. Vale citar a de tradução e legendagem, especialmente necessária num cineclube que vai trabalhar com muitos filmes falados em espanhol. Esse trabalho, inclusive, poderá ser de uma utilidade muito maior, facilitando o acesso a esses filmes para outros cineclubes ou outras iniciativas, além de poder contribuir com a CineSud, por exemplo. Outro detalhe: além de blog e página no facebook, indispensáveis para uma comunicação mais ampla com seus associados e público, o cineclube manterá um Boletim, distribuído aos frequentadores das sessões, com notícias e comentários sobre o cineclube, o cineclubismo, o audiovisual latino-americano e, claro, os filmes em exibição. O primeiro ciclo do cineclube, que começa nesta terça, 7 de maio, terá como tema o trabalhador e suas lutas; essa programação também foi aprovada pela assembléia. Com o início das atividades públicas do cineclube começará uma campanha mais maciça de associação
Esboçado um programa inicial, passamos à eleição da Diretoria e Conselho Fiscal. O que foi um exercício quase difícil, atrapalhado por diferentes ataques de modéstia dos indicados. Mas chegamos a uma excelente composição: Presidente: Frank Ferreira; Secretário: Rafael Balseiro; Tesoureira: Dolores Stinghen; Diretora de Programação e Divulgação: Mayra Rizzo, e Diretora de Documentação e Produção: Adriana Beretta. O Conselho Fiscal tem três titulares e dois suplentes. A Diretoria e Conselho do Cineclube foram empossados e, depois das tradicionais fotos, encerrada a sessão.
O Cineclube Latino-americano deve ocupar logo um espaço destacado na trajetória do cineclubismo brasileiro, e quem sabe, latino-americano. É um cineclube que será sustentado essencialmente por seus próprios meios, ao mesmo tempo que estabelece, desde seu nascimento, uma ampla teia de relações e parcerias, mas sem comprometer sua independência. A aliança com o Memorial da América Latina, os consulados e as comunidades imigrantes de São Paulo já permite vislumbrar um trabalho extenso e com características muito próprias que, como disse, poderá beneficiar outros cineclubes, não apenas pela geração de um acervo de trabalhos e experiências, mas também pelo exemplo de organização e práticas democráticas e independentes.
No fim de semana já tem reunião da comissão de programação e divulgação. Por isso, encerro por aqui esse relato: temos muito trabalho pela frente.
Abraços,
Felipe Macedo
 
Programação de maio – sempre às terças e quintas, 20hs
Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina
Metrô Barra Funda
 
07/05, terça-feira
 A COMUNA
Curta-metragem produzido na França 1914 pela Cooperativa do Cinema do Povo (primeiro cineclube da história). Trata-se de um importante documento histórico e uma iniciação à trajetória do cineclubismo.
A NÓS A LIBERDADE (A Nous la Liberté), de René Clair, 1931
Comédia clássica que inspirou “Tempos Modernos” de Charles Chaplin.
Louis e Émile fogem da prisão. Anos depois, se reencontram e Louis se tornou dono de uma fábrica enquanto o outro continuou a ser um vagabundo. Tenta ajudá-lo, mas diante da pressão e chantagem de antigos colegas de prisão toma uma decisão radical.
 
09/05 , quinta-feira
A QUEM PERTENCE O MUNDO? (Kuhle Wampe) de Bertold Brech, 1932
Um precioso documento histórico que foi produzido por Brecht dentro e para o movimento operário.
 
14/05, terça-feira
TERRA SEM PÃO, de Luís Buñuel, 1932
Documentário que reflete profundas preocupações sociais e retrata a pobreza do povoado espanhol de Las Hurdes.
LA TERRA TREMA, de Luchino Visconti, 1948
O filme expõe com vigor neorealista aspectos da proletariedade de trabalhadores do mar, pescadores da cidade de Acitrezza, litoral da Sicília (Itália), uma das regiões mais pobres do País.
 
16/05, quinta-feira
OS COMPANHEIROS, de Mario Monicelli, 1963
Comédia muitíssimo bem construída que emociona pela simplicidade com que mostra a vida dos operários em luta por uma vida digna e por uma sociedade justa.
 
21/05, terça-feira
A GREVE, de Sergei Eisenstein, 1925
A Greve é uma visionária experimentação de manipulação de imagens. O filme recria brilhantemente a greve que ocorreu em 1912 na Rússia tzarista, num conflito entre operários e polícia.
DEBATE Após a exibição do filme será realizado um debate com Dr. Giovanni Alves, professor da UNESP de Marília e coordenador geral do projeto Tela Crítica.
 
23/05, quinta-feira
A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO, de Elio Petri, 1971
O filme é uma obra do cinema político italiano que trata de conflitos, ilusões e realidades estampadas nas ruas, fábricas e escolas de qualquer tempo.
 
28/05, terça-feira
LA PATAGÔNIA REBELDE, de Héctor Olivera, 1974
A obra retrata o anarco-sindicalismo da Patagônia no início do séc. XX
 
30/05, quinta-feira
ACTAS DE MARUSIA, de Miguel Littín, 1975
O longa-metragem descreve a história real acontecida no Chile em 1907 quando mineiros da província Marusia entram em greve em protesto às péssimas condições de trabalho e desencadeiam um movimento de grande força e importância que provocou a intervenção do exército chileno e um posterior massacre.
 
 
2 - Diário do cineclube
 (as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Há uns dias mandei uma nota intitulada Nasce um cineclube para a lista dos cineclubes brasileiros. A intenção era de compartilhar a experiência da organização inicial do cineclube, mostrando um pouco os passos que a gente dá – assembléia, estatutos, eleições, etc. Nos tempos que correm, em que o nome cineclube enfeita todo tipo de iniciativa, em sua quase totalidade pouco cineclubista de fato, esse passo-a-passo da constituição do cineclube me pareceu poder interessar, exemplificar e até motivar algun(ma)s. Depois, a prática do Cineclube Latino-Americano, meu cineclube, me sugeriu que talvez o próprio acompanhamento diário da vida de um cineclube pudesse ser um grande instrumento de formação, e de interesse mais amplo. Assim, vou tentar manter um Diário do Cineclube, para mim também um instrumento de questionamento de um movimento brasileiro em crise, praticamente agônica, e de refundação de um cineclubismo centenário e revolucionário: associativo, democrático e independente.

Crise do cineclubismo no Brasil

Porque a característica mais fundamental do cineclubismo, o associativismo democrático, tem sido muito desprestigiada, substituída com muita frequência pelo voluntarismo de uma ou muito poucas pessoas que se dão todo o trabalho de organizar projeções e eventuais debates, mas que se tornam, intencional ou inadvertidamente, também responsáveis exclusivas pela orientação desse trabalho. Mistura de missionários abnegados e donos do cineclube. E o público, sem vias claras e concretas de participação, retorna a um estágio que é, na verdade, pré-cineclubista: o de platéia, de público “atendido” pela iniciativa, alfabetizado pelos que sabem mais. Muitas vezes isso acontece com as melhores intenções. Mas isso está mais para uma espécie de filantropia paternal que para a decantada “organização do público”, que tanto apregoamos.

Esse voluntarismo eventualmente é compreendido como empreendedorismo, palavra cujo sentido nem sempre é plenamente compreendido por todos que a utilizam. O empreendedorismo é a valorização consciente da iniciativa particular, individual ou definidamente limitada. Tem uma componente subjetiva importante, de exaltação da iniciativa pessoal, característica de personalidade dominante, da liderança e superioridade do empreendedor. Max Weber tem uma magnífico trabalho em que mostra como a ética protestante, por exemplo, serviu de estímulo e justificativa do empreendorismo, identificando nessa qualidade pessoal um sinal da graça divina e de um lugar assegurado no Paraíso.  De qualquer forma, essa valorização da iniciativa privada – diretamente oposta à organização coletiva e ao associativismo - é a base da organização comercial ou capitalista, em que a acumulação pessoal (ou privada, restrita a um número limitado e permanente de sócios) é o caminho da exploração de terceiros.

Corolário dessas circunstâncias – seja a falta de organização coletiva ou a iniciativa privada intencional – é que grande parte das chamadas “iniciativas cineclubistas” (eufemismo para cineclube, que já indica a ausência das características de estou falando) caiu na dependência de estímulos externos. Em outras palavras, em vez de se basear num esforço coletivo mais amplo (também há que se notar que o termo “coletivo” muitas vezes identifica justamente o quadro limitado de um grupo) das comunidades em que se assentam, essas iniciativas cineclubistas ficam quase completamente dependentes do Estado, através dos diferentes programas. E, consequentemente, também frágeis e vulneráveis, porque no Brasil ainda não existem políticas de Estado para o cineclubismo (e mesmo para grande parte da cultura) e esses programas são descontínuos, acidentados, sujeitos às frequentes oscilações de pessoas, partidos, alianças, numa realidade política pouco desenvolvida especialmente no campo cultural – e muito mais ainda no campo cultural popular.

Ou seja, grande ou a maior parte das iniciativas cineclubistas nasce e morre segundo a vigência desses programas. Outras, em número muitíssimo menor, mas mais consolidadas, conseguem constituir um mix de subvenções (são ponto disso e daquilo, com prêmio daquilo outro, cine mais, etc., ao mesmo tempo) e portanto assegurar uma base mais ou menos permanente de financiamento. Muitas dessas, entretanto, se tornam verdadeiras especialistas em atender às demandas do Estado e, dessa forma, têm sua atividade dirigida nesse sentido. Um exemplo limite: os editais de várias instituições públicas ou mesmo privadas que condicionam seu apoio a programas públicos exigem que as atividades beneficiadas sejam feitas exclusivamente em suas instalações. Quando esses grupos limitados permitem a remuneração sistemática de seus membros nas atividades “vendidas” ou “estimuladas” pelo Estado, pode-se cair numa espécie de modelo empresarial sem risco: três ou quatro pessoas (para constituir uma associação em cartório bastam trés pessoas – e mesmo apenas duas assinaturas) que se eternizam na prestação de serviços comprados por um Estado que, de forma geral, já não recebe reivindicações da sociedade, mas faz demandas de atendimento das necessidades que reconhece e decide internamente.

Claro, nas dimensões brasileiras, muitas são as exceções a todas essas situações que estou comentando. Somos historicamente um celeiro de criatividade, de invenções e experiências cineclubistas e, em grande medida, berço da própria noção do cineclubismo como organização do público. Mas atualmente essas exceções certamente são absolutamente minoritárias. Quantos cineclubes existirão no Brasil hoje que se sustentam, ainda que em parte, através de seus associados ou por taxas de manutenção que auferem em suas atividades? Quantos mantêm um quadro de associados, e realizam assembléias em que seu público decide o essencial de sua orientação? Em que medida a comunidade participa, escolhe a programação que lhe é oferecida? Há renovação, troca de direção periódica? E vejam: ainda que existam formas associativas consagradas, estas indagações não se limitam a elas. A tradição cineclubista pensa participação e democracia em termos bem informais, mas que garantam visibilidade, conhecimento e possibilidade de intervenção das comunidades dos cineclubes. Que se use o termo coletivo, de ressonância tão positivamente democrática – ou qualquer outra: círculo, usina, união, ateneu... -; mas em que medida ele se integra na comunidade ou paira sobre ela, auto-suficiente? Em que medida se comprova e se renova sua representatividade? As reuniões são públicas, abertas, sistemáticas, divulgadas?

Hegemonia da produção sobre o público

Provavelmente o maior número de casos seja o das iniciativas geradas pelo modelo Cine Mais Cultura: por ser um programa barato, distribuiu um número muito grande de equipamentos, gerando a expectativa de quase dois mil cineclubes em todo o País. Mas justamente por ser barato – isto é, não comportar as dimensões de instalação e manutenção das atividades – e por ter desvalorizado essencial e crescentemente a dimensão de formação especificamente cineclubista, gerou o modelo típico a que me refiro neste texto: o cineclube como mera ação e não organização. O objetivo do programa era a exibição de filmes – muito especialmente de filmes brasileiros e, mais especialmente, de curtas-metragens. Não era a formação de cineclubes, mas a proliferação de pontos de exibição. A direção do programa foi hegemonizada pelos interesses da produção – de um segmento definido da produção, o da produção semiamadora de curtas metragens. Por isso, não era importante a organização, a participação, a democracia: na verdade isso só complicaria e alongaria a execução do programa. Nem era necessária a sustentabilidade – elemento essencial da auto-organização -, os filmes a serem exibidos já são financiados em sua quase totalidade pelo Estado. Baseado em falsas premissas, o programa não atendeu aos interesses do verdadeiro patrocinador, o governo. O circuito precário inicialmente constituído apresentou um rendimento – em público – pífio, com médias de espectadores por sessão muito baixas (ainda que o investimento tivesse sido mínimo). Mas sobretudo mostrou-se pouco controlável, no sentido de que interessa ao Estado o acompanhamento burocrático preciso de seus investimentos, ainda que em matéria tão difícil como é a cultura. Mesmo com os produtores e dirigentes cineclubistas a eles identificados esforçando-se ao máximo, o “sistema” não forneceu informações suficientes: nem o governo consegue justificar em sua lógica interna essa farra de exibições informais nem os famosos relatórios de sessão vieram em volume suficiente para justificar mais investimentos na produção.

Embora não seja intenção deste texto discutir esta questão mais em detalhe, não posso deixar de comentar o quanto essa questão ficou mais evidente nos últimos tempos. O Cine Mais Cultura parou subitamente (há alguns anos já), e em seu lugar abriu-se uma discussão – inicialmente totalmente confusa e inconclusiva e que agora, com nova direção, entra em outra etapa – sobre como se constituir esse circuito de exibição complementar a um sistema  comercial que é essencialmente inadequado para a maioria dos segmentos da produção brasileira (não acredito que o público, no momento, tenha participação ou sequer seja reconhecido neste debate). As propostas de uso do Vale Cultura que inundaram a lista cncdialogo nos últimos tempos são a última e mais cabal demonstração do tragipatético e subalterno papel atribuído aos cineclubes e ao público, e de uma certa voracidade irrealista de alguns produtores. Primeiro se promoveu um cineclubismo gratuito para atrair e facilitar a vinda de um público que nem assim compareceu; agora se quer usar o Vale Cultura para criar bases de uma possível remuneração dos filmes nas exibições dos cineclubes. Diante do absurdo, uma sugestão luminosa: os cineclubes (que não, ou mal conseguem fazer uma sessão semanal) podem manter a situação criada de gratuidade para todos e criar uma outra sessão paga, só para as seletas categorias agraciadas pelo Vale Cultura. Venham todos, é de grátis! Só trabalhador paga...

Cineclube fácil

Mas, voltando ao que interessa, a priorização da exibição e a consequente desvalorização da organização dos cineclubes levou a um modelo e uma visão redutora em que a “atividade cineclubista” se identificava essencialmente com a projeção (e a eventual palestra ou conversa com o realizador, que passou a se confundir com o debate). Coisa simples. Você faz uma oficina rápida aqui, pega um projetor e uma tela, escolhe os filmes no cardápio da Programadora Brasil ou usa os seus e dos amigos, e pronto: Shazam! Cineclube!

Evidentemente não é assim. Projetar filmes é cada vez mais fácil – de certa forma, por isso mesmo é cada vez mais difícil reunir pessoas para vê-los. A ação do cineclube é essencialmente junto ao, com o público. O filme, o produto audiovisual, é instrumento, ferramenta de conhecimento, compreensão e de intervenção no mundo. O que inclui conhecer, compreender e fazer cinema, mas não se limita a isso. O cinema não é um fim, é um meio. Um meio de muitas coisas. O meio mais essencial, paradigmático, particularmente dos nossos tempos. A sociedade se informa, se comunica através do audiovisual. O indivíduo se socializa, se forma, em cada vez maior medida, através do audiovisual. Nos divertimos principalmente com e pelo audiovisual. Vivemos várias horas por dia – e muita gente a maior parte do dia – ligados em alguma forma de tela audiovisual. Mas nós, a sociedade, o povo, o público, não controlamos o audiovisual e esse papel essencial que ele exerce sobre todos nós. Essa formidável ferramenta – ou arsenal de muitas ferramentas – é instrumento, mais essencialmente, de alienação, de dominação, de controle, de indução ao consumo. O objetivo maior, a finalidade última do cineclube é autoorganizar o público para conhecer o audiovisual em toda a sua diversidade; compreender sua(s) estrutura(s), apoderar-se dessa ferramenta para construir o “seu” audiovisual e, através dele, reconstruir a si mesmo e ao mundo. E, quando possível, fazer isso da forma mais divertida. Divertir, instruir, emancipar!

Não é mole, não. Não basta botar um disquete num projetor e convidar alguém para vir “debater”. Tem que ser sistemático, tão confortável quanto possível. Portanto, tem que se sustentar, tem que ser do interesse do público – verificável pela sua afluência. Tem que motivar os participantes, formar cineclubistas, crescer em alcance e representatividade. Tem tanta coisa!

O cineclube batalha

Três semanas e 6 programas depois da fundação do nosso cineclube, me sinto revivendo mais uma vez uma experiência que repeti tantas vezes na vida, em quarenta anos de cineclubismo, e que nunca é a mesma.  Embora nunca tenha feito outra coisa que cineclubar – considero meu trabalho teórico e acadêmico mais recente parte integral e continuação da minha militância cineclubista – há cerca de 4 anos não vivia a rotina das sessões, das reuniões, das inúmeras tarefas que o cineclube exige numa base quase diária. Há um tempo não vivia essa expectativa, ver se deu no jornal, quantas “curtidas” hoje na nossa página. As satisfações e as frustrações esperando a chegada do público, juntando a grana para registrar o cineclube: quantas taxas de manutenção, quantos se associaram hoje? Na sala, a reação do público diante do filme, sua integração ou distanciamento do cineclube mesmo, se ele se sente e compreende parte do cineclube ou se percebe apenas a relação de consumo a que está acostumado. A tensão de falar em público (até hoje fico tenso com isso), de provocar identificação ou sofrer o estranhamento. Aguardar que os participantes se manifestem, quebrem eles as suas respectivas resistências e tensões. E a trabalheira de fazer o boletim, pesquisar os filmes, arranjar as cópias, verificar todo o material. Animar a discussão dentro da lista dos associados, juntar o pessoal para as comissões de trabalho: programar os filmes, escrever e distribuir releases. É muito trabalho, muita ansiedade, muita gratificação também. Eu até me divirto com certas derrotas que claramente são novas e importantes lições que aprendo: postura filosófica que deve indicar que estou envelhecendo...

Cineclube não é nada fácil. É dureza e vale muito a pena – literalmente, porque se pena mesmo. Por isso acho que esse relato subjetivo, esse diário pessoal, político e cineclubista, pode ser útil  para esclarecer quem está querendo montar um cineclube, quem quer cotejar experiências. E para quem quiser corrigir uma trajetória equivocada.

Quero fazer isto na forma de um blog, a que as pessoas acederão quando tiverem interesse e onde poderão também postar contribuições, questões e questionamentos, de forma que possamos trocar esse aprendizado todo de cineclubar.