domingo, 3 de novembro de 2013


8 – Cinefilia e cantinfladas
(as inserções são numeradas por ordem crescente de data em que foram escritas)

Mais uma vez, passou um tempão desde minha última entrada neste diário. Dois meses. Setembro e outubro foram ocupados por um pequeno ciclo revendo 4 filmes do Cantinflas e, num registro bem diferente, adaptações de obras de Mário Vargas Llosa, uma proposta trazida pelo consulado do Peru. Nesse período também houve outras atividades no cineclube, como a preparação de nossa participação no festival Cine Favela, com uma curadoria de filmes mexicanos feita pelo Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano, que atua em parceria conosco. E, como se aproximava a data de uma Jornada – nome tradicional dos congressos nacionais de cineclubes – na Bahia, alguns grupos e pessoas pediram e se reuniram no nosso espaço para discutir uma participação paulista naquele encontro. No finalzinho, dia 26, de outubro, fizemos a segunda assembléia do cineclube, fundamentalmente avaliando os primeiros seis meses de atividade e as muitas perspectivas que estão se abrindo.
Vendo o últiimo texto que inseri aqui, lembro-me que estava um tanto deprimido, pois a formação de quadros militantes vai mais devagar que a minha ansiedade. Terminava fazendo alusão a uma alternativa, a da interação com outros cineclubes e o fortalecimento de uma cultura de militância nesse ambiente. Mas uma outra possibillidade talvez esteja também no aumento de atividades e de público no cineclube. É a grande contradição: precisamos de mais gente para ampliar nossa ação e mais atuação é um provável caminho para atrair e formar mais quadros. Um cineclube atuando no Memorial tem essa questão exacerbada, pois o local que nos acolhe, por si só, já gera uma porção de demandas – oportunidades e desafios em que estamos enredados numa contradição praticamente diária. Viver isso afasta, afinal, qualquer sensação passageira de depressão, de derrota, pois esse devir contraditório é muito dinâmico. Nestes dois meses um novo grupo de pessoas passou a atuar no cineclube de forma mais comprometida.

Cinefilia

Na minha reflexão anterior sobre militância não abordei uma questão fundamental: a cinefilia. Nos últimos anos me concentrei mais em criticar uma certa cinefilia que, por sua vez, meio que entrou na moda acadêmica. A questão da cinefilia remete ao cineclubismo, dando-lhe um espaço de que nunca dispôs nos estudos cinematográficos. Mas, ao mesmo tempo, essa abordagem a que me referi o abastarda, o “institucionaliza”, no sentido que Noel Burch apontou, de domesticar e integrar a uma concepção hegemônica elitista. Cinéfilos, nessa linha, são especialistas, connaisseurs, a elite que se reconhece pela capacidade de se expressar pelas vias admitidas por essa visão – expressão culta e literária – e que pode ser identificada por alguns proprietários de saber: autores, críticos, acadêmicos.
A denúncia dessa cinefilia me fez sempre lembrar da outra, a cinefilia popular, que sempre levou milhões ao cinema e criou tantos subprodutos, do culto aos astros e estrelas aos inúmeros fandoms (reinos de fãns, tribos; do inglês fan, admirador e kingdom, reino). Mas foi só na retomada da minha prática cineclubista concreta que pude prestar atenção a outra dimensão, essencial na compreensão da militância cineclubista. Existe um entusiasmo – mais que interesse – pela linguagem do cinema, pelos efeitos próprios e específicos do cinema (e derivados em outros suportes audiovisuais), que é o que motiva e distingue justamente, o quadro cineclubista de militantes de outras áreas da política – ou devia dizer cultura? Eu sinto isso em mim mesmo, um enlevo criado em certos momentos e efeitos da experiência do filme, da sala escura, do compartilhamento ao mesmo tempo coletivo e tão pessoal. Enlevo que imagino deva ser frequentemente maior que o prazer que a mesma sequência provoca nos que não são mordidos pela... cinefilia. Nesta época e modelo em que o cinema é entretenimento muito ocasional e para poucos, em que retorna e prevalece um cinema de atrações (como dizem Tom Gunning, André Gaudreault e outros), em que a agitação supera a narrativa, a gente pode notar numa sessão do cineclube um certo incômodo de alguns com a duração do filme, com uma postura que já lhes é meio estranha, de ficar sentado por um tempo mais longo e com a atenção focada numa tela, numa linguagem (pois alguns desses poderão ficar horas diante de um computador, mas sem uma narrativa extensa). Quase todo mundo gosta de cinema, mas um número bem menor experimenta uma relaçao de prazer e realização mais profundos com os filmes. Então, para dificultar mais ainda as coisas, acho que o militante cineclubista, além de toda a dedicação e compreensão política a que me referi anteriormente, ainda por cima, tem de ser cinéfilo!

Cantinfladas
O que mais me fez reuperar logo o ânimo foi o ciclo do Cantinflas. Logo de cara, um público novo! Pessoas mais idosas, e também crianças, trazidas por aquelas. Não costumo contar os inúmeros causos que vivemos em nossas sessões, mas aqui teve um antológico. Logo atrás de mim, um casal de avós com a netinha. O filme era legendado, preto e branco. Os adultos adorando, a menina morrendo de amolação, pois não conseguia ler as legendas e se ligar no desfile de imagens que não podia acompanhar. A menina reclamava, sofria, e os avós iam desconversando, loucos pelo filme. Eu estava quase falando para eles saírem, pois estava mesmo muito difícil para a garotinha. Afinal, pouco depois acabaram saindo. Outro caso, como ficamos sabendo depois, no debate, era o de um senhor peruano que, como todos os latino-americanos – incluindo os brasileiros - da segunda metade do século passado, teve a infância marcada pela figura do cômico mexicano e havia ficado muito emocionado. E havia várias outras nacionalidades do nosso continente; este é outro campo em que o cineclube é vencedor: está construindo efetivamente um campo comum e um diálogo não apenas entre os cinemas latino-americanos, mas também entre os diferentes países com comunidades residentes em São Paulo. Os frequentadores mais jovens, que vinham dos outros ciclos apresentados pelo cineclube, também acompanharam e descobriram o Cantinflas. Essa experiência aponta para o possível acerto da tese de que mais atividades, diferenciadas, ampliam – ao mesmo tempo que misturam – o público e abrem novas oportunidades de motivar militantes.

Manifesto
Nesse período – setembro e outubro – também foram feitas umas três ou quatro reuniões de grupos e cineclubistas na nossa sala. Como disse mais acima, havia uma espécie de convocação para uma Jornada nacional entre 15 e 21 de novembro na Bahia. Há alguns meses, uma diretoria meio interina da entidade brasileira – o Conselho Nacional de Cineclubes - havia sido eleita em um encontro bastante irregular, em Vitória, ES, mais ou menos com o mandato de organizar esse encontro nacional de reorganização. Na verdade, essa direção, fundamentalmente constituída por cineclubistas da Bahia, já tinha esse mandato desde dezembro de 2010, na Jornada em Moreno, PE, quando propôs a organização da Jornada seguinte em Salvador. Ou seja, essa Jornada está sendo preparada, ou não, há três anos, sem resultado. Nesse interim, o mandato da última diretoria encerrou-se e formalmente a entidade entrou em colapso. Mas muita gente parece disposta a ignorar tudo o que acontece, ou melhor, não acontece e, sem muita reflexão, e sobretudo sem critérios de legitimidade, vai decidindo encaminhamentos – que não se realizam – e seguindo direto em frente, como no mito da corrida dos lemingues. Poucos se atrevem a criticar publicamente esse processo.

Então, em função dessa virtual Jornada, algumas pessoas me pediram, na condição de diretor do Memorial, para reunir-se aqui e debater a ida ao encontro na Bahia. Pareceu natural ceder para essas conversas a sala do cineclube, depois dele ser consultado. Estive presente na maioria das reuniões e também nosso presidente (Frank Ferreira) que, por sua vez, também representa o Cineclube Darcy Ribeiro, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Entre os demais, membros do Centro Cineclubista de São Paulo, uma entidade que reúne velhos cineclubistas em torno da liderança de Diogo Gomes dos Santos, figura histórica dos anos de resistência à ditadura que, desde o final dos anos 80 vive um pouco das reminiscências dessa imagem e de um suposto projeto político original, mantendo atividades cineclubistas de forma intermitente. O CCSP tem a particularidade de associar pessoas e entidades, assim ele se apresenta ora como cineclube, ora como uma espécie de federação, com associados num raio de 60 km em torno da capital. Então, havia mais alguns cineclubes contados entre os membros do CCSP presentes. Além desses, estiveram representantes de Osasco, Embu das Artes, Cidade Tiradentes, Diadema, salvo algum esquecimento. Assim, em cada reunião havia cinco ou seis supostas entidades. E digo supostas porque, num dado momento, perguntei a cada um que dia fazia suas exibições; naquele dia, nenhum dos presentes mantinha qualquer atividade. Em outras palavras, estavam ali como representantes virtuais de uma aspiração abstrata ou de uma experiência passada, terminada: isso os contaminava de alguma forma com uma representatividade imanente de algo que não existia mas era nobre, cineclubista. E, de quebra, os qualificaria para passagem e estadia no congresso em Salvador.
As reuniões foram muito confusas, mesmo quando foi feito contato direto com a organização da Jornada em Salvador. Nós e o CC Darcy Ribeiro declaramos não reconhecer o procedimento nem pretender participar dessa forma do encontro nacional. No final, uma última reunião elegeu um representrante e um suplente de São Paulo. Ao que parece, o CCSP passou a reunir-se com e na secretaria da Cultura do município com vistas a organizar um amplo projeto de organização de cineclubes no município e arredores. Mais uma vez, os dois cineclubes atuantes resolveram não participar do que nos parece irregular e sem perspectiva. Estou sendo breve, porque esse assunto não me parece ter interesse real; por outro lado, não posso evitar estas linhas para que o leitor possa ter uma mínima ideia do que acontece.

Já no comecinho de outubro fiquei sabendo que a Jornada havia sido cancelada e remetida para algum momento em 2014. A informação, no entanto, não foi ainda dada aos cineclubes e outros interessados, que estão até agora (começo de novembro) fazendo reuniões para preparar-se para o evento e eleições para os delegados, um pouco como se deu em São Paulo.
Da parte do CC Latino-Americano, e seguindo aquele raciocínio de estimular uma verdadeira cultura de cineclubismo, decidimos começar a juntar alguns cineclubes realmente atuantes e organizados de forma associativa e democrática. Acreditamos que os cineclubes com atividade têm diversos recursos para compartilhar e sua representatividade real também os torna interlocutores mais fortes junto a outras instituições, públicas e privadas. Assim, um Círculo informal de cineclubes paulistas poode ser um começo despretensioso de uma retomada e renovação do cineclubismo, partindo do nosso estado. Nesse sentido soltamos um pequeno manifesto – que reproduzo ao final deste texto – assinado por mais alguns cineclubes, e vamos fazer uma primeira reunião ainda este mês para examinarmos possibilidades de troca de experiências e fortalecimento mútuo.

Festivais
Havíamos acertado nossa participação em dois festivais que aconteceriam em novembro: o Cine Favela, que reúne uma produção periférica em vários sentidos e que, depois de várias edições, tem hoje uma abrangência mundial; e o Cine Fantasy, de cinema de horror, trash, fantasia e ficção em geral. Nosso cineclube participaria montando com eles uma programação latino-americana em ambos os casos. O Cine Favela nos passou um grande número de filmes mexicanos, para fazermos uma curadoria que, como já disse, foi assumida pelo Grupo de Estudos do Cinema Latino-Americano. Nocaso do Fantasy, pensamos em organizar uma mostra do cinema equatoriano chamado de bajo-tierra e da produção mexicana de narco-cine, dois casos de produção paralela e digital. Infelizmente, por problemas de patrocínio, o Cine Fantasy foi cancelado. Faremos um final de semana de denúncia e de consolação, com uma trilogia sugerida por eles. Também por razões econômicas o Cine Favela não fará mais exibições fora da sede em Heliopólis e do Sesc; autorizaram-nos, contudo a fazer a atividade que quisermos com os filmes que já nos deram bastante trabalho; provavelmente será um projeto organizado pelo Grupo de Estudos que vem trabalhando nesse acervo de mais de 70 horas de material.

Assembleia
Bem, passaram-se seis meses da fundação do cineclube. Este diário é um retrato – pessoal, parcial, subjetivo – e testemunho das muitas transformações que a entidade experimentou. E seis meses é um bom período para promover uma avaliação com a formalidade do processo democrático que permite deliberar mudanças, adaptações.

O tema principal da assembléia foi a avaliação da nossa trajetória. Consensualmente, ela é de sucesso, sucesso moderado, compatível com os esforços dos militantes do cineclube, mas sucesso indiscutível. Nosso público cresce visivelmente, e hoje ronda uma média de cerca de 20 pessoas por sessão. Mantivemos nosso boletim, agora na sexta edição, assim como o diálogo pela internet com os interessados e com os sócios pela nossa lista interna. O cineclube agregou dois grupos importantes, o de Estudos do Cinema Latino-Americano e o de Roteiros. Tem um grupo de sócios realmente participantes que permitiu – depois de muitas tentativas – que começasse a funcionar uma Comissão de Programação e uma do Bar (que será aberto em breve). A perpspectiva é abrir novas sessões no ano que vem, como o Cineclubinho e outras. O cineclube está registrado e aguardando seu CNPJ, graças a uma economia discreta baseada nas taxas de associados e de manutenção que nos permitem até realizar pequenos investimentos. O quadro de associados sofreu várias mudanças, com a inadimplência de alguns (depois de 4 meses perdem provisoriamente os direitos) e a entrada de novos. Hoje o cineclube tem 16 associados em pleno direito e a maior parte deles participa efetivamente dos trabalhos e das decisões. Ficou para a próxima assemblei a a proposta de criação de uma nova categoria de sócio, o militante (hoje só há a de sócio contribuinte), que poderia ser dispensado de contribuição financeira em troca de trabalho. Também estamos deixando amadurecer a ideia de ajudas de custo para os que precisam responder por tarefas que implicam um comprometimento mais longo ou mais assíduo – este mês, por exemplo, temos 12 projeções.
Uma decisão importante e madura foi a de homenagearmos Juan Carlos Arch, militante histórico do cineclubismo latino-americano, secretário da Federação Internacional de Cineclubes para a nossa região e presidente da Federação Argentina. A partir de agora, a razão social completa do nosso cineclube é Cineclube Latino-Americano “Juan Carlos Arch”.

Começar de novo
Um manifesto cineclubista paulista

Crise
O cineclubismo vive uma crise muito séria no Brasil. Nos últimos anos experimentou uma trajetória de desorganização, que se tornou descaracterização, das práticas mais básicas do cineclubismo: o caráter associativo e democrático, a ausência de fins lucrativos, a autonomia em relação a poderes, interesses e instituições políticas, econômicas e outras.

Do ponto de vista institucional, o cineclubismo se desestruturou. As iniciativas para restabelecer sua organização, democracia e representatividade, em parte por não assumirem esta crise em toda a sua extensão e profundidade, mostram-se incertas e duvidosas. A convocação para um congresso de reorganização está infellizmente sendo feita com irregularidades que comprometem a democracia, a representatividade e a eficácia do encontro. Além disso, a um mês de sua realização, os recursos ainda são incertos, a comunicação quase inexistente, o debate ausente. Mas o mais grave é que, sob a cobertura de um discurso triunfalista que alardeia a existência de milhares de cineclubes no País, a grande maioria dessas supostas ações está inoperante ou se constitui de atividades de exibição que não são mais permanentes, sistemáticas, sustentáveis, participativas e comunitárias. Não são cineclubes: viraram empreendimentos, eventos, esporádicos, dependentes do patrocínio estatal ou privado (mas não da comunidade, dos associados).
Estas considerações poderiam se estender por várias páginas. Já foram objeto de discussão em diferentes espaços frequentados pelos cineclubistas. Não queremos mais polemizar, mas não cremos mais nessa via. Não queremos ser vistos como hostis e não cultivamos nenhuma desafeição pessoal aos que se empenham nessa Jornada. Nem pretendemos qualquer disputa ou paralelismo em relação a outras organizações ou reuniões. Mesmo sendo críticos e céticos, desejamos o melhor para todos que sinceramente procuram trabalhar com o cinema e o povo brasileiro – e com esses esperamos poder colaborar. Mas, diante do quadro aqui descrito, não queremos nem podemos participar dos encaminhamentos correntes.

Por um cineclubismo atuante, criativo e democrático:
Divertir, instruir, emancipar!

Esgotados os argumentos, é hora de atuar.  Crises são também oportunidades: o dicionário diz que são o momento decisivo que precede a evolução para a cura ou para a morte. Queremos, então, propor o aproveitamento desta oportunidade para relançar em São Paulo as bases de um cineclubismo atuante, criativo e democrático. Um cineclubismo cujo patrimônio centenário é principalmente sua capacidade de inventar e se renovar.

Assim, o que estamos propondo é a retomada sem presunção do trabalho realmente cineclubista, a colaboração desinteressada entre os cineclubes verdadeiramente atuantes, no quadro das tradições centenárias do cineclubismo – que incluem justamente a diversidade de formas dentro do associativismo democrático e a adaptação criativa aos novos contextos tecnológicos e culturais.

Propomos a constituição de um Círculo Paulista de Cineclubes, bastante informal, que identifique a situação real do cineclubismo paulista e facilite a organização de ações colaborativas entre os cineclubes participantes. Um fórum que se reunirá a intervalos definidos em cada reunião pelos participantes, que será coordenado por uma mesa diretora também eleita a cada reunião, sem necessidade de formalização legal ou maiores burocracias.

Mas, ao mesmo tempo, queremos garantir o caráter realmente cineclubista desse círculo, adotando os princípios organizativos e as práticas culturais que definem o cineclubismo e constituíram historicamente seu edifício institucional. Achamos indispensável a autenticidade e transparência da constituição e atividades dos participantes, sua permanência e sistematicidade. Um muito breve e simples regulamento pode orientar e organizar as reuniões.  Assim, para participar das reuniões com direito a voto e para desfrutar de eventuais benefícios obtidos pela ação comum, os cineclubes deverão, obrigatoriamente:

1)    Constituir-se como associações abertas, democráticas e sem fins lucrativos; sua direção e o conteúdo das diferentes atividades deve ser controlada pelos associados. Isto não implica necessariamente registro legal, mas a demonstração de que a estrutura e gestão são do conhecimento e têm o aval da comunidade em que o cineclube atua;

2)    A direção dos cineclubes, independentemente de sua construção formal, deve ser sujeita a avaliação, controle e escrutínio periódico pelos associados;

3)    Os cineclubes devem ter entre suas atividades a projeção aberta periódica e sistemática de filmes e/ou outros materiais audiovisuais com intervalos de, no máximo, 15 (quinze) dias;

4)    Os cineclubes não podem depender exclusivamente, para manutenção de suas atividades, de doações ou patrocínios, mas manter alguma forma permanente de sustentação por parte dos associados e da comunidade;

5)    Para participação plena nas reuniões, os cineclubes deverão demonstrar sua existência há pelo menos 6 (seis) meses anteriormente à reunião. Cineclubes em formação, ou outros que adiram explicitamente a estes 6 princípios, poderão assistir às reuniões com direito a voz, mas não a voto. Projetos e ações que beneficiem os membros do Círculo poderão ser estendidos a esses cineclubes, a critério da plenária;

6)    A interpretação ou adaptação desses princípios, bem como a aceitação de novos membros são responsabilidade e atribuição da plenária, decidida consensualmente ou por uma maioria de no mínimo 2 (dois) terços dos presentes. Um quórum poderá ser estabelecido após 3 reuniões de alcance estadual.

Perspectivas

Acreditamos que a reunião de cineclubes atuantes acarreta representatividade e força. Representatividade, que deriva da penetração do trabalho cineclubista nas comunidades – e portanto na sociedade -, nos permitirá estabelecer as bases para uma relação efetivamente democrática com diferentes instituições públicas e privadas. Já existem diversas propostas a serem avaliadas pelo Círculo visando a proposição a diferentes instâncias governamentais – ao invés do mero atendimento de editais – de projetos de consolidação e expansão do cineclubismo em nosso estado. Mas a união também traz a força, especialmente quando reúne entidades mais organizadas e atuantes. Por nossos próprios meios também podemos organizar uma série de iniciativas, como a constituição de um acervo de uso comum, uma divulgação mais estruturada e eficiente, a organização de cursos, publicações – entre outras idéias que devem ser apreciadas coletivamente.

Chamamos, então, os cineclubes constituídos segundo os princípios aqui enumerados, ou que a eles adiram, a subscreverem este manifesto e a juntarem-se a nós na organização de uma próxima primeira reunião do Círculo Paulista de Cineclubes – ou outro nome que se deliberar.

Cineclube Latino-Americano – São Paulo
Cineclube Darcy Ribeiro – São Paulo

Cineclube Aldire Pereira Guedes - Bauru
Cineclube Paratodos - Botucatu 

 

sábado, 7 de setembro de 2013


7 - Público e Militância
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Autoformação de público
Como já disse, o que tem sido maravilhoso no cineclube é a consolidação do seu papel mesmo, de alternativa para um modelo de cinema alienante e explorador. É visível e indiscutível que as pessoas que frequentam o cineclube se sentem bem, se sentem recompensadas, se sentem parte de alguma maneira e se identificam com o cineclube. Ele é um espaço diferenciado, que oferece e realiza uma outra relação entre o público e os filmes, entre o público e o fenômeno cinema em sua acepção mais ampla. E, considerando o pequeno público, também temos realizado a parte “latino-americana” do nosso programa: parte dos frequentadores já tornados sócios participantes são oriundos de países vizinhos.

Já estamos no quarto boletim – agora com a programação de agosto – que sempre traz breves apresentações dos filmes e uns dois textos sobre o tema do ciclo e sobre cineclubismo. Antes das sessões fazemos uma breve apresentação e agora inauguramos o mês com um primeiro debate que foi, a meu ver, muito legal. O debate do filme chileno Machuca durou uma hora e meia. E foi da estética do filme, sua narração e estilo, até a relação das manifestações de rua hoje no Brasil com a situação do Chile sob Pinochet. Se não no próximo sábado, no outro faremos os debates num espaço ao lado da sala, com um cafezinho, uma bebida típica da nossa região – uma boa cachaça, um tequila, um pisco, etc. -, refrescos e algum quitute.
Eu escrevi vários textos sobre a organização de cineclubes. Ao longo de uma experiência pessoal de já 4 décadas, consolidei uma proposta e modelo que penso ser um resumo também da experiência associativa e democrática destes cem anos de cineclubismo. No esquema abstrato, compus um modelo de círculos concêntricos em que os frequentadores vão passando das camadas mais externas para as mais internas: frequentadores se tornam sócios; sócios começam a participar de reuniões, trabalhos, assembléias, tornando-se, enfim, militantes e dirigentes do cineclube e do cineclubismo – e, nessa medida, revolucionários em suas comunidades e na sociedade. Um esquema. Dar vida a esse esquema, adaptá-lo à vida real e às pessoas reais é que é o grande desafio do cineclube, a prática do cineclubismo. E é um pouco o tema, o suco, deste blog.

Então, chegamos a um problema que creio estar se manifestando no cineclube, mais uma (relativa) crise que vejo, de fato, como oportunidade de aprendizado e superação: a questão da militância. Vamos pensar isso numa certa perspectiva. A assembléia de fundação do cineclube reuniu um número grande de pessoas que tinham alguma forma de interesse nessa nova idéia de cineclube no Memorial. Fora um núcleo de três ou quatro pessoas, na prática a maior parte delas não retornou ao cineclube, nem nas sessões nem em reuniões. Muitos têm outros compromissos e sua presença na fundação foi mais uma manifestação de endosso, de solidariedade, que qualquer outra coisa. Há que se reconhecer, porém, também, que um pouco da sua “consciência social” se sacia num ato breve de apoio. Um outro grupo de pessoas começou a se formar, justamente nesse processo que tenho descrito aqui: frequentadores se animaram e se tornaram sócios e passaram a se interessar e a querer opinar e contribuir na condução do cineclube. Só que a disponibilidade de praticamente todos – fora dois velhos cineclubistas “profissionais”, isto é, militantes, entre os quais me incluo - é quase nenhuma. Alguns têm um perfil mais profissional, e devem ver sua contribuição como um complemento numa vida já definida. Mas a maioria – como sempre acontece num contexto como o nosso – é de gente mais jovem, estudantes ou recém-formados, que parecem estar buscando um objetivo, um programa em que se engajar. Mas não o fazem... E aí eu me confesso bastante perplexo, diante de mudanças tão acentuadas no comportamento de uma geração para outra: da minha, mais ou menos dos anos 70 e 80, e a de hoje, fundamentalmente deste século e milênio.

Militância
Militantes são pessoas especiais, cuja sensibilidade leva a um compromisso social e político que ocupa a parte mais essencial de suas vidas. É fundamentalmente um compromisso ideológico e tem muito a ver com a origem social das pessoas. Mas não exclusivamente: a compreensão da realidade de exploração das pessoas e destruição do planeta também leva muita gente, por um imperativo de coerência, a se engajar nas lutas pela superação desta situação. Esse engajamento ético não muda muito essencialmente na história, acho, mas é certo que teve formas diferenciadas. Se pensamos apenas nos períodos mais recentes, em que as lutas pela liberdade se confundem praticamente com as do proletariado, vamos achar compromissos muito radicais no século XIX, quando as formas mais primitivas de anarquismo levavam ao sacrifíco pessoal e ao terrorismo como propaganda política (como hoje os extremistas religiosos). Do final do século XIX e durante o século seguinte, o engajamento não foi menos vital - no sentido de que representava uma ética de vida e um compromisso absoluto, com o sacrifício de todos os benefícios pessoais e laços afetivos duradouros, como a família -, mas tornou-se mais objetivo e organizado. Evitava-se o sacrifício menos produtivo, mas ele sempre continuou a existir.

De fato, a repressão também evoluiu nesse mesmo sentido: nas “democracias” modernas respeitam-se mais as liberdades individuais mas, sempre que o sistema é realmente ameaçado, elas são suspensas e a reação se exerce com toda a força bruta, como se pode ver em Guantânamo, Abu Ghraib, nos milhares de assassinatos feitos por naves não tripuladas, no cerco e punição de Julian Assange, Edward Snowden e mesmo do jovem Bradley Manning, para citar apenas os mais em evidência.
Militantes são pessoas especiais, uma bem pequena minoria. Mas parece que esse número caiu muito nos últimos tempos – embora, como eu disse acima, mantenha-se basicamente o mesmo tipo de negajamento, e de risco. Muita gente, falando do Brasil, julga que a razão disso está no fato de que já não temos um regime autoritário, de exceção. Poderíamos dizer que sua tese é de que há maior militância quando a repressão é maior; essa lógica me parece meio capenga. Mas esse ponto de vista também considera que quando há menos liberdade, mais gente se mobiliza. Isso parece mais razoável, mas não é. Certamente um maior número de pessoas fica insatisfeita quando as liberdades democráticas estão reduzidas, mas elas formam uma espécie de “caldo de descontentamento” que se manifesta justamente nas margens do possível: nas eleições, por exemplo, ou em grandes mobilizações de rua como foi a Campanha das Diretas no Brasil. Não creio que o número de militantes, aqueles que estavam expostos à tortura e morte, crescesse em número nessas circunstâncias. Outro argumento é o de que, na mesma época, houve grande agitação em todo o mundo, e o surgimento de muitos movimentos militantes também nos países que o senso comum considera mais democráticos, como a França, a Itália ou os Estados Unidos.

Não, a hipótese que mais me parece razoável é a do avanço da capacidade de convencimento, de formação de um consenso hegemônico (para usar termos de Antonio Gramsci) mais amplo e mais profundo, a partir da falência dos regimes de orientação variavelmente socialista – o “fim” das utopias - e o incrível avanço das tecnologias e técnicas de comunicação e de repressão. Quando, mais acima, eu disse que o engajamento – particularmente na passagem da hegemonia do anarquismo para o comunismo nos meios operários – tornou-se mais objetivo, referia-me ao reconhecimento da necessidade de organização, de acúmulo de experiências e de forças, que superaram uma concepção de sacrífíco pessoal que tangenciava o impulso suicida. A necessidade e o compromisso de mudar o mundo – e os sacrifícios implicados nisso - continuaram centrais e prioritários na vida dos militantes, mas esta vida mesma passou a ser considerada como patrimônio no arsenal de recursos do campo revolucionário. A dedicação à causa seguia em primeiro lugar, mas o militante tinha também direito a uma vida pessoal, amorosa, familiar... E isso passou a ser reconhecido mesmo como condição de equilíbrio na composição de uma concepção política mais afinada com a realidade.  
A grande diferença que vejo hoje é que essa militância passou, numa aparente grande maioria de casos, para um segundo plano. Os pretensos militantes consideram primordial suas sobrevivência, formação, carreira, conforto – e assim vai –, e o espaço para o engajamento passa a ser determinado pela disponibilidade oferecida nos intervalos de uma gama variável de interesses.

É óbvio que isso é uma contradição em seus termos, pois o compromisso em “mudar o mundo” só é colocado em prática “depois” dos diferentes níveis de compromisso com a reprodução desse mesmo mundo. E a militância se aproxima do hobby, do passatempo, disputando o tempo livre com outros compromissos e lazeres. Fenômeno evidentemente pequeno-burguês, no sentido de priorizar o sucesso social e econômico, penetra mais acentuadamente nas mais diversas faixas da juventude brasileira neste momento em que cresce a escolarização universitária e avança um pouco a renda geral. Corolário dessa situação é a tendência a chamar de classe média – eludindo sua condição proletária essencial – aos setores de renda familiar de cerca de um salário mínimo! Fenômeno aliás muito parecido com o que aconteceu nos EUA no começo do século XX e do cinema, com a aculturação dos imigrantes e a neutralização da consciência de classe do operariado.
Passei minha vida arranjando – e invariavelmente perdendo – trabalhos em função da possibilidade de poder manter minha militância em diferentes cineclubes, em diferentes momentos. Tal modo de vida não era raro de encontrar no movimento cineclubista até o final do século passado. Mas hoje são muito pouco(a)s a viverem essa concepção. E, para piorar, na “passagem” dessas gerações (que coincide com a democratização do país), na virada deste século, muitos dos velhos militantes, talvez fragilizados, vulnerabilizados pela idade, procuraram aquela segurança pessoal no sistema de cooptação que foi estabelecido em grande parte dos meios culturais e marcadamente no ambiente chamado de cineclubista, mas já no mucho...

A virtual falência do cineclubismo como movimento no Brasil, com a desorganização da sua entidade nacional e desagregação de grande número de atividades meio artificiais, mantidas e depois abandonadas por políticas governamentais de curto alcance, certamente contribuem para o desaparecimento da cultura cineclubista de onde pode, costuma brotar essa militância. A descaracterização e abandono das práticas cineclubistas – associativismo, sustentabilidade, independência – substituídas por uma espécie de voluntarismo remunerado ou, o que foi mais generalizado, pelo modelo empresarial ou “empreendedor”, mas também mantido pelo Estado, fere de morte não apenas a própria noção de militância como também a de enraizamento e representatividade nas comunidades. Nesse modelo, o público não reivindica; grupos especializados e restritos passam a atender às demandas do governo feitas através de editais
Talvez, para resolver “nosso” problema de militância, no cineclube, tenhamos que apelar, nos apoiar uma escala mais ampla, procurando outros cineclubes. Procurando criar um (novo) ambiente de cultura e militância cineclubista. Ou não?

sábado, 24 de agosto de 2013


6 – A experiência – e os problemas - evoluem

(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

 

Como acontece com todos os blogs que mantenho – eu ia dizer “tento manter” mas, apesar deste comentário, eles existem –, acabam passando às vezes semanas, meses, entre as postagens. Então, retomando nosso papo, o Cineclube Latino-Americano viveu mais dois meses – junho e julho –, acumulou diversas experências, conseguiu algumas vitórias, continua enfrentando problemas já detectados aqui e tem revelado novos. Finalmente, decidimos mudar o dia - e um pouco o modelo – de exibição.

Programação e divulgação

No final de junho terminamos o ciclo sobre os trabalhadores. Com o problema de divulgação, entre talvez outros, mantivemos uma média de perto de 10 pessoas por sessão, às vezes menos. Como acho que já comentei em outras postagens, o clima criado, de cineclube, é nossa grande vitória até aqui. Mas um público médio de 10 pessoas, considerando toda a nossa situação (abordada em outros textos aqui) é indiscutivelmente uma derrota.

Sinto que a  maior razão para isso é a falta de comunicação com o público. É revoltante que jornais como a Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, que mantêm uma página de “serviço” com todos os cinemas da metrópole – e uma rubrica “cineclubes” em ambos!! – não publique nossa programação. Mais que uma grande conspiração ideológica da imprensa burguesa contra um  cineclubismo potencialmente revolucionário (que, no entanto, certamente faz parte disso), vejo nesse fenômeno uma manifestação de um certo atavismo pequeno-burguês dos responsáveis por essas seções – e acessoriamente os editores dos cadernos de cultura – que usam seu poderzinho para estimular seus valores “culturais” subjetivos. Têm o pequeno poder de selecionar o que lhes apraz. Algo semelhante ao que acontece quando o Estado dá um uniforme e uma arma a um policial... Uma indicação dessa “esfera de poder” quase individualizada é que um outro jornal, menor, do grupo Folha, tem dado a nossa programação. O fato de – segundo me diz o pessoal da divulgação do cineclube –, num outro extremo, alguns saites não aceitarem divulgar programações pagas, mesmo a preços acessíveis, também me parece um paternalismo preconceituoso de quem não reflete na necessidade de iniciativas independentes precisarem se manter.

Mas não ficamos parados; é claro, e então nos voltamos mais para a internet. Eu acho que existe uma supervalorização muito grande desse meio. Para mim, ela é uma espécie do velho boca-a-boca turbinado: espalha com muita, maior eficiência, idéias, informações simples que já sejam do interesse das pessoas. Mas, evidentemente, não tem o condão de mobilizá-las. O buraco é bem mais embaixo. Com todo o trabalho que foi feito nestes três meses, nossa divulgação atinge alguns milhares de pessoas: a lista de correio (mailing list) do Memorial, diversas páginas do Facebook de associados – alguns com milhares de “amigos” -, a lista nacional dos cineclubes, a nossa própria lista... Mas não alterou significativamente a situação.

Uma fácil, rápida e muito equivocada tentativa de explicação para esse bloqueio de público seria a de que “hoje em dia tudo pode ser acessado em casa”, pelo Youtube e quejandos. É verdade, mas ninguém faz isso. Além das condições específicas da experiência em comum, da tela grande, do ambiente adequado, a verdade é que (quase) ninguém vê filmes como os da(s) programação(ões) do(s) cineclube(s).pela internet. De fato, me lembro de uma frase do Alain Bergala num debate: 99% do material postado no Youtube é visto apenas por um restrito círculo de dois ou três amigos do “realizador”. E de vez em quando postam lá um gatinho rolando a escada, uma gafe da Beyoncé, e tem 50 milhôes de acessos...

No mês de julho, somando essa questão com a oportunidade de parceria com o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, mudamos nossa programação: mantivemos as sessões às terças e quintas, mas eliminamos as duas quintas de abertura e encerramento do Festival (dias 11 e 18) e programamos filmes todos os dias do Festival (12 a 17) num horário alternativo. As sessões do Festival no Auditório do Memorial foram às 17, 19 e 21 horas; as nossas, às 20hs. Esta foi a programação:

Ciclo Fundadores do Cinema Latino-Americano

 

Dia 2 – Los Olvidados (1950), Luís Buñuel  – México.

Dia 4 – Barravento (1962), Glauber Rocha – Brasil.

Dia 9 – Cinco Vezes Favela (1962), Diversos – Brasil.

Dia 12 - 79 Primaveras – Santiago Álvarez (Cuba, 1967).

Dia 13 – La Hora de los Hornos (1968), Fernando Solanas e Octavio Getino – Argentina.

Dia 14 – A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos – Brasil.

Dia 15 – O Chacal de Nahueltoro (1969), Miguel Littín – Chile.

Dia 16 – Os Fuzis (1964), Ruy Guerra – Brasil.

Dia 17 – Yamar Maliku (O Sangue do Condor), (1969), Jorge Sanjinéz – Bolívia.

Dia 23 – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Tomás Gutierrez Alea – Cuba.

Dia 25 – A Tortura e Outras Formas de Diálogo (1968), Patrício Guzmán – Chile.

Dia 30 – Maioria Absoluta (1963), Leon Hirszman; Viramundo (1965), Geraldo Sarno, e Liberdade de Imprensa (1967), João Batista de Andrade – Brasil.

Sem fazer parte exatamente do Festival, que se concentra em filmes contemporâneos, nosso ciclo pretendeu dar uma visão geral dos grandes nomes que trouxeram à baila a própria idéia de uma identidade comum do cinema realizado em nosso sub-continente. Nossa parceria incluiu ainda a comemoração do centenário do cineclubismo – a que voltaremos – e a realização de uma oficina de formação cineclubista para os frequentadores do Festival. Também cedemos nossa sala para projeções e debates feitos pela ABD de São Paulo em comemoração-reflexão sobre os 40 anos da entidade.

Até o dia 12 a situação continuou igual, mas a partir do início do Festival nosso público cresceu significativamente. Chegamos a ter sessões com mais de 50 pessoas. Não sei se foi uma maior exposição na mídia que tivemos na carona do Festival ou o fato de que passamos a contar com um luminoso emprestado pelo Memorial, uma espécie de fachada luminosa que dirigimos para a entrada do Auditório, anunciando nossa programação – o painel é programável - de cada dia. Durante os 6 dias do Festival também não cobramos, pois o Festival é gratuito, mas isso certamente não foi decisivo fora daquele contexto porque as pessoas que voltaram depois nunca reclamaram da nossa pequena taxa de manutenção. Passado o Festival voltamos a desaparecer dos jornais já citados e o público refluiu para nossa média anterior.

Em vista dessa experiência, o cineclube decidiu passar as sessões para os sábados às 17hs. Também resolveu diminuir o número de sessões, limitando a um filme por sábado. Fui voto vencido, por estreita margem: ainda acho que devíamos passar dois filmes – por exemplo, às 16 e 18h. A grande vantagem do horário do sábado é que agora poderemos fazer um bom debate após as projeções. Começando às 20hs durante nas terças e quintas só fazíamos uma apresentação inicial, de uns dez minutos, pois não dava para ficar até tarde durante a semana. Por outro lado, na minha opinião, um único filme por semana – considerando todas as facilidades que temos no Memorial – vai empobrecer a abordagem dos temas em ciclos, ou então prolongar os ciclos por dois ou mais meses...

Essa questão toda do público é muito particular do nosso caso, que temos que buscar um público genérico numa cidade muito diversa e competitiva. Numa cidade do interior o cineclube teria pouca “concorrência” e uma quase natural acolhida da imprensa – além de poder cercar os principais pontos de visibilidade locais. Num cineclube de bairro pode-se chegar nas pessoas até com filipetas embaixo da porta. Nos dois casos as pessoas têm mais contato, se conhecem mais. Ter São Paulo como desafio não é mole, mas esse desafio está à nossa altura, e nós à dele.

Parênteses: o centenário do cineclubismo

No domingo, dia 14 de julho (da queda da Bastilha e início da Revolução Francesa), o Festival apresentou uma sessão montada conjuntamente conosco em homenagem ao centenário do cineclubismo. Como representante do cineclube e curador do Festival, ponderei que não adiantaria fazer uma mesa redonda para debater o tema, pois na condição atual do cineclubismo, não haveria quadros para compor esse debate. Seria, para variar, uma mesa de cineastas falando sobre cineclubismo. Preferi fazermos um ato voltado fundamentalmente para o público: uma sessão ao ar livre do filme produzido pelo primeiro cineclube: A Comuna, realizado pela cooperativa Cinema do Povo em 1914. Foi proposto ao grupo afro e feminino de percussão Ilú Obá de Min sonorizar essa experiência. Foi um, senão o momento de maior significação e impacto do Festival. Entre 500 e 600 pessoas se juntaram para provavelmente terem um primeiro contato com a própria idéia do cineclubismo como organização do público e sua força centenária. Muito otimismo talvez... Mas de qualquer forma foi um sucesso muito grande, uma experiência empolgante e comovedora que certamente marcou a memória dos participantes e a história do Festival.

quinta-feira, 30 de maio de 2013


5 – O público inicial
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Os filmes

Já falamos antes do público que buscamos atingir, organizar, representar. Faltou, talvez, considerar que, se pensamos num público de uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes e partimos de uma sala de 70 ou 80 lugares localizada numa instituição bem conhecida, e se já definimos objetivos bem determinados, estamos falando de uma comunidade bem menor: bem informada, pois interessada num tema preciso e nada comercial; politizada, pois América Latina, nesse contexto, traz logo a imagem das questões sociais, políticas, culturais...

Nosso ciclo inicial, sobre o tratamento do trabalhador no cinema mundial, reforça essas características. Ele deverá ter um apelo para quem já viu muitos dos filmes programados, reconhecidamente importantes na história do cinema e também na experiência do público que viveu a relação de alguns desses filmes com os contextos históricos em que foram lançados. Vários desses títulos foram lançados durante os anos da ditadura (ou das ditaduras, também em outros países), e solidariamente exxperimentados por pessoas que a ela resistiam; outros eram programados no contexto de atividades de resistência mesmo, clandestinamente, nos cineclubes por exemplo. Por causa desse mesmo perfil geral, devem ser atrativos para os jovens que não tiveram oportunidade de vè-los, mas que têm informação e formação para se interessar. O ciclo do nosso cineclube é, francamente, muito bem montado e bastante completo: uma verdadeira história do tema no cinema ocidental – com a ausência importante do cinema japonês e outros do Oriente. Também não tínhamos espaço para um panorama igualmente representativo de curtas; optamos por mostrar apenas uns poucos, mas de importância fundadora para o tema. Em junho o ciclo se completa.Terão sido 18 filmes em 16 programas, desde A Comuna, realizada em 1914 pelo cineclube Cinema do Povo, até Pão e Rosas, de Kenneth Loach, entrando no século 21, passando por Eisenstein, Brecht, o surrealismo, o Neorealismo, o cinema político italiano, dos EUA e, claro, dos países latino-americanos, com destaque para o Brasil.

Divulgação

Por um lado, ainda não temos uma comissão de divulgação funcionando regularmente – as comissões são a pauta principal da nossa próxima reunião de trabalho (da diretoria, aberta aos sócios). A Mayra, diretora da área, contatou ou buscou contatar os principais jornais da cidade – especialmente Folha de Sâo Paulo e Estado de São Paulo -, além de desenhar uma página inicial no facebook com a ajuda posterior do Rafael, nosso secretario; o Frank e eu palpitando com textos e sinopses. Por outro lado, o Memorial colocou nossa programação no seu “caderno de programação” mensal e sua assessoria de imprensa a distribuiu para os principais guias de jornais e revistas semanais.

Nenhum grande veículo publicou. É impressionante: confirmamos que os responsáveis receberam, mas não estão publicando. O mais incrível é que os guias de programação, diária e semanal, tanto da Folha quanto do Estado, têm uma rubrica Cineclubes (onde divulgam programações diversas, mas nenhuma de cineclube mesmo). Não consigo compreender porque um espaço de serviço, que lista todas as salas de São Paulo, está claramente se recusando a dar a nossa programação. É uma política deliberada? Uma arrogância disseminada?Já os jornais de bairro e de distribuição gratuita, ainda que bem menos influentes, estão dando alguma coisa e já ganhamos frequentadores através deles. Alguns saites também divulgaram. O resto é esforço nosso, ainda pouco organizado, em listas de amigos...

Pessoalmente tive uma experiência – e uma lição - muito interessante. Diante da falta de divulgação e do pouco público (como veremos adiante), consegui uma doação para que publicássemos um anúncio na Folha de São Paulo. Minha experiência de outros cineclubes, especialmente do Elétrico, que tinha um público muito grande, era que a Folha era o grande canal de comunicação com ele. Conseguíamos na época capas e matérias de destaque no caderno cultural do jornal e isso dava resultados visíveis na frequência. O exemplo contrário também: quando uma crítica malhava um filme que exibíamos podia prejudicar muito sua “carreira” em nossa sala. Eu pensei, então, que um único tiro – o anúncio na Folha – poderia ser decisivo para a gente romper essa barreira que estava nos impedindo de fazer chegar nossa programação ao público.

E foi uma grande lição: ninguém do público daquele dia veio por causa da Folha ou sequer havia visto o anúncio. Aprendi que os tempos realmente mudaram drasticamente: o público que vimos construindo não lê a grande imprensa; o público leitor (por telefone ou email algumas pessoas indicaram terem visto o anúncio, mas não vieram para o filme) não está mobilizado para o nosso tipo de atividade. Tem mais o que não fazer. São generalizações talvez muito rápidas, mas acredito que essencialmente – nesse sentido geral – corretas.

A força e a independencia da comunicação do cineclube provavelmente estará, em última instância, no boca-a-boca – o que inclui as formas de comunicação em rede – e na constituição de uma efetiva comunidade proprietária, no sentido de participante, do cineclube.

O público

Essa conclusão acima se deve à experiência destas primeiras 8 sessões (1 mês) já realizadas e de como está se constituindo nosso público. Acho que documentar aqui essa evolução e as reflexões sobre ela serão muito interessantes para cotejar, no futuro, com os resultados reais a que chegaremos.

Mais da metade dos sócios fundadores, da primeira assembléia, não veio ao cineclube neste período. Desses, uma parte contribui meio de longe: é essencialmente solidária. Uma minoria expressiva, o que inclui a maior parte da diretoria e mais alguns, milita, trabalha nas atividades que vimos desenvolvendo.

Com o bloqueio da divulgação, nosso públlico até aqui é pequeno: uma média de 12 ou 13 espectadores em cada sessão, incluindo os associados. Ou seja, apenas cerca da metade veio pela divulgação  e pelo convite de membros do cineclube.

Em outro texto eu disse que havia frustrações que me alegravam. E é isso: embora o público seja pequeno e cresça quase à razão de um novo frequentador por sessão, ou menos, o clima do cineclube está fantástico. As pessoas estão adorando, e praticamente todos os que vieram passaram a voltar em todas as sessões seguintes. Dessa meia dúzia, quem não se associou, pretende fazê-lo. Dois dos novos frequentadores e sócios são hermanos de países vizinhos

Esse pequeno público se reconhece no cineclube, adota o cineclube, se integra, sente-se em casa no cineclube. O debate, não programado, acontece espontaneamente: o pessoal não vai embora e forma uma roda na porta, discutindo o filme, a situação da história. Dado o tema, o papo é bem político, mas é também sobre cinema.

Estou muito contente: em um mês podemos dizer que temos um público pequeno mas que participa realmente. Que se consolida em bases bem firmes, mesmo que não estoure num sucesso pontual. Que cresce devagar e persistentemente. Temos cada vez mais membros para acolher os novos. Os casos concretos é que mexem com a gente – e eu me lembro de outros depoimentos, em outras épocas, quando as pessoas diziam que o cineclube tinha mudado a vida delas. Um casal que veio, manifestou um entusiasmo imediato: tinha sido como que uma descoberta para os dois: ele mais ligado no tema social; ela, em cinema. Coisa que, duas sessões depois, como disseram, já tinha mudado. Ah!, esqueci de mencionar que são todos jovens, a maioria estudante ou recém-formada. Então, com a generosidade e calor da juventude, também foram emocionantes os relatos, no debate informal, da indignação que sentiam e descobriam com as histórias das vidas e lutas da classe operária em diferentes momentos, países, circunstâncias.

Dá trabalho, mas é muito gratificante partilhar essas emoções. Vale a pena cineclubar.

4 – O cineclube batalha – preparando a sessão
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Nossa assembléia de fundação foi na quinta e, por causa da divulgação do Memorial, já tínhamos sessão marcada na terça seguinte. Marcamos reunião no domingo, que teve quórum da diretoria mais eu. Vimos que o registro do cineclube iria aguardar um pouco: calculamos que o custo seria da ordem de 400 reais e ainda não tínhamos nenhum recurso. Enquanto isso, a secretária da assembléia de fundação está passando a limpo a ata que será juntada às assinaturas colhidas.

Acertamos a definição de alguns pontos tratados na assembléia: a taxa de manutenção será de 5 reais e a mensalidade dos sócios de 20 reais, dando direito a 4 entradas e desconto de 20% em qualquer outra atividade (temos grandes planos). De qualquer forma, neste primeiro mês exibiremos 8 programas, com duas sessões semanais, às terças e quintas.

Boletim

Dividimos o trabalho para a feitura do primeiro boletim: formato ofício dobrado – até por uma espécie de homenagem saudosa, para lembrar os clássicos boletins de cineclubes. Acertamos uma introdução de uma página, apresentando o cineclube e orientando o frequentador sobre como participar, se associar, etc. Escrevi um texto que introduzia a questão do centenário do cineclubismo e uma nota sobre o Dia do Público, em memória do 10 de maio de 1849 e o massacre do Astor Place[i].

No estado de São Paulo existe uma lei que instituiu o Dia do Público e do Cineclubismo. Eu sempre digo que é meio esquisito – e creio que posso fazer essa afirmação porque a proposta do Dia do Público, aprovada por federações de cineclubes de vários pa[ises, é minha: o dia do público deve valorizar o público em geral, de cinema, teatro, dança, futebol... O cineclubismo é uma gota – ainda que importante – nesse universo, e não devia se apropriar da data como faz no texto da lei. E ainda por cima, os eventos do Astor Place aconteceram 50 anos antes do surgimento do próprio cinema!

As outras páginas do boletim tinham a programação, com nome do filme, diretor, data e origem, além de uma curta sinopse. Imprimimos e encadernamos 150 exemplares na segunda-feira, com a colaboração de sócios que trabalham no Memorial. Retrospectivamente, posso dizer que acabaram sobrando alguns...

Logotipia

Coloca-se, então, o problema da identidade visual. O cineclube - todo cineclube, creio – precisa de uma logotipia que o identifique e marque sua relação com o público. Na minha experiência isso geralmente acontecia com a identificação de um talento entre os membros do cineclube. O capixaba Hélio Coelho é um grande nome nessa tradição: fez o logotipo do Elétrico Cineclube, mas também é o criador da formiguinha – que foi feita para o CNC comemorar os 60 anos do cineclubismo, em 1988 - que usamos em várias atividades, e da marca da Associação de Cineclubes de Vila Velha (ES), entre outras. Tremendo artista. O Victor Nosek criou as peças do Cineclube Bixiga, o Marcos Madalena, incrível ilustrador, deu vida ao Oscarito e me esqueço do primemiro nome doEpstein, que fazia cartazes muito legais para o Cineclube Oficina, entidades de que participei.

Nosso secretário, o Rafael, conhece a coisa, mas não houve ainda tempo para desenvolver essa tal identidade. Assim, pegamos na rede um mapa estilizado da América Latina e aplicamos – com letras sugeridas pelo Rafael – na capa do boletim e também na página do facebook (preparada pela Mayra), igualmente feita meio às pressas. Mas o problema da identidade, da logotipia aplicada e identificada com outras peças e atividades ainda está de pé, irresolvido.

Organização da sessão

Outro tema urgente era organizar e dividir  os trabalhos da sessão. Já está acertado que o Carlos assume a projeção, e o filho dele vem ajudar: os dois manjam bastante de tudo referente a equipamento, autoração, etc. Vamos rodiziar entre os diretores e outros associados cuja presença já está confirmada as funções de bilheteria e recolha dos “ingressos”.

Como a sala do cineclube fica num dos extremos do Pavilhão da Criatividade – que é a sede da exposição permanente de cultura popular latino-americana no Memorial – nossa entrada corresponde à saída da exposição, mas ela está fechada nesse horário. A sala de espera do cineclube é uma beleza: é uma das pontas da exposição, enfeitada com vitrines com peças belindíssimas... O espaço de projeção é uma espécie de caixa preta, em cuja parede teremos que em breve colocar nome e marca do cineclube e, na porta de entrada, um banner com a programação (mais tarde, na terceira semana, a Adriana preparou dois banners sobre armações que são postas externamente, indicando o caminho e a entrada do cineclube).

O Frank tem guardados os borderôs que eram usados na sala Maria Antonia do PopCine, eu os imprimirei. E, como o Memorial tem um sistema de impressão de ingressos para seus grandes espetáculos, fornecer um número relativamente pequeno para nós praticamente não tem custo para eles: assim, nossos ingressos também ficaram bem bacanas. Também imprimimos uma ficha de associação provisória bem simples.

Os membros do cineclube procurarão chegar o mais cedo possível, mas abriremos nossa bilheteria (uma mesinha na entrada) às 19h30 e seremos rigorosos com todos os horários – é importante para estabelecer o hábito. Às 20h, um ou mais membros do cineclube farão uma breve apresentação do filme (e, neste começo, do cineclube), de até 10 minutos. No começo será mais o Frank, e um pouco eu, mais velhuscos. Mas o ideal é que todos partilhem essa tarefa. Como as sessões são em dias de trabalho e devem terminar lá pelas 22h ou mais, não haverá debate formal (logo ficará claro que o debate ocorre de qualquer jeito na saída, mas voltarei a isto).

 


[i] Outro blog meu: http://felipemacedocineclubes.blogspot.com.br/ tem um texto contando e contextualizando essa efeméride.