8 – Cinefilia e cantinfladas
(as inserções são numeradas por ordem crescente de
data em que foram escritas)
Mais uma vez,
passou um tempão desde minha última entrada neste diário. Dois meses. Setembro
e outubro foram ocupados por um pequeno ciclo revendo 4 filmes do Cantinflas e,
num registro bem diferente, adaptações de obras de Mário Vargas Llosa, uma
proposta trazida pelo consulado do Peru. Nesse período também houve outras
atividades no cineclube, como a preparação de nossa participação no festival Cine
Favela, com uma curadoria de filmes mexicanos feita pelo Grupo de Estudos de
Cinema Latino-Americano, que atua em parceria conosco. E, como se aproximava a
data de uma Jornada – nome tradicional dos congressos nacionais de cineclubes –
na Bahia, alguns grupos e pessoas pediram e se reuniram no nosso espaço para
discutir uma participação paulista naquele encontro. No finalzinho, dia 26, de
outubro, fizemos a segunda assembléia do cineclube, fundamentalmente avaliando
os primeiros seis meses de atividade e as muitas perspectivas que estão se
abrindo.
Vendo o
últiimo texto que inseri aqui, lembro-me que estava um tanto deprimido, pois a
formação de quadros militantes vai mais devagar que a minha ansiedade.
Terminava fazendo alusão a uma alternativa, a da interação com outros
cineclubes e o fortalecimento de uma cultura de militância nesse ambiente. Mas
uma outra possibillidade talvez esteja também no aumento de atividades e de
público no cineclube. É a grande contradição: precisamos de mais gente para
ampliar nossa ação e mais atuação é um provável caminho para atrair e formar
mais quadros. Um cineclube atuando no Memorial tem essa questão exacerbada,
pois o local que nos acolhe, por si só, já gera uma porção de demandas –
oportunidades e desafios em que estamos enredados numa contradição praticamente
diária. Viver isso afasta, afinal, qualquer sensação passageira de depressão,
de derrota, pois esse devir contraditório é muito dinâmico. Nestes dois meses um novo grupo de pessoas passou a atuar no
cineclube de forma mais comprometida.
Cinefilia
Na minha
reflexão anterior sobre militância não abordei uma questão fundamental: a
cinefilia. Nos últimos anos me concentrei mais em criticar uma certa cinefilia
que, por sua vez, meio que entrou na moda acadêmica. A questão da cinefilia
remete ao cineclubismo, dando-lhe um espaço de que nunca dispôs nos estudos
cinematográficos. Mas, ao mesmo tempo, essa abordagem a que me referi o
abastarda, o “institucionaliza”, no sentido que Noel Burch apontou, de
domesticar e integrar a uma concepção hegemônica elitista. Cinéfilos, nessa
linha, são especialistas, connaisseurs,
a elite que se reconhece pela capacidade de se expressar pelas vias admitidas
por essa visão – expressão culta e literária – e que pode ser identificada por
alguns proprietários de saber: autores, críticos, acadêmicos.
A denúncia
dessa cinefilia me fez sempre lembrar da outra, a cinefilia popular, que sempre
levou milhões ao cinema e criou tantos subprodutos, do culto aos astros e
estrelas aos inúmeros fandoms (reinos
de fãns, tribos; do inglês fan,
admirador e kingdom, reino). Mas foi
só na retomada da minha prática cineclubista concreta que pude prestar atenção
a outra dimensão, essencial na compreensão da militância cineclubista. Existe
um entusiasmo – mais que interesse – pela linguagem do cinema, pelos efeitos
próprios e específicos do cinema (e derivados em outros suportes audiovisuais),
que é o que motiva e distingue justamente, o quadro cineclubista de militantes
de outras áreas da política – ou devia dizer cultura? Eu sinto isso em mim
mesmo, um enlevo criado em certos momentos e efeitos da experiência do filme,
da sala escura, do compartilhamento ao mesmo tempo coletivo e tão pessoal.
Enlevo que imagino deva ser frequentemente maior que o prazer que a mesma
sequência provoca nos que não são mordidos pela... cinefilia. Nesta época e
modelo em que o cinema é entretenimento muito ocasional e para poucos, em que retorna
e prevalece um cinema de atrações
(como dizem Tom Gunning, André Gaudreault e outros), em que a agitação supera a
narrativa, a gente pode notar numa sessão do cineclube um certo incômodo de
alguns com a duração do filme, com uma postura que já lhes é meio estranha, de
ficar sentado por um tempo mais longo e com a atenção focada numa tela, numa
linguagem (pois alguns desses poderão ficar horas diante de um computador, mas
sem uma narrativa extensa). Quase todo mundo gosta de cinema, mas um número bem
menor experimenta uma relaçao de prazer e realização mais profundos com os
filmes. Então, para dificultar mais ainda as coisas, acho que o militante
cineclubista, além de toda a dedicação e compreensão política a que me referi
anteriormente, ainda por cima, tem de ser cinéfilo!
Cantinfladas
O que mais me
fez reuperar logo o ânimo foi o ciclo do Cantinflas. Logo de cara, um público
novo! Pessoas mais idosas, e também crianças, trazidas por aquelas. Não costumo
contar os inúmeros causos que vivemos
em nossas sessões, mas aqui teve um antológico. Logo atrás de mim, um casal de
avós com a netinha. O filme era legendado, preto e branco. Os adultos adorando,
a menina morrendo de amolação, pois não conseguia ler as legendas e se ligar no
desfile de imagens que não podia acompanhar. A menina reclamava, sofria, e os
avós iam desconversando, loucos pelo filme. Eu estava quase falando para eles
saírem, pois estava mesmo muito difícil para a garotinha. Afinal, pouco depois
acabaram saindo. Outro caso, como ficamos sabendo depois, no debate, era o de
um senhor peruano que, como todos os latino-americanos – incluindo os
brasileiros - da segunda metade do século passado, teve a infância marcada pela
figura do cômico mexicano e havia ficado muito emocionado. E havia várias outras
nacionalidades do nosso continente; este é outro campo em que o cineclube é
vencedor: está construindo efetivamente um campo comum e um diálogo não apenas
entre os cinemas latino-americanos, mas também entre os diferentes países com
comunidades residentes em São Paulo. Os frequentadores mais jovens, que vinham
dos outros ciclos apresentados pelo cineclube, também acompanharam e
descobriram o Cantinflas. Essa experiência aponta para o possível acerto da
tese de que mais atividades, diferenciadas, ampliam – ao mesmo tempo que
misturam – o público e abrem novas oportunidades de motivar militantes.
Manifesto
Nesse período
– setembro e outubro – também foram feitas umas três ou quatro reuniões de
grupos e cineclubistas na nossa sala. Como disse mais acima, havia uma espécie
de convocação para uma Jornada nacional entre 15 e 21 de novembro na Bahia. Há
alguns meses, uma diretoria meio interina da entidade brasileira – o Conselho
Nacional de Cineclubes - havia sido eleita em um encontro bastante irregular, em
Vitória, ES, mais ou menos com o mandato de organizar esse encontro nacional de
reorganização. Na verdade, essa direção, fundamentalmente constituída por
cineclubistas da Bahia, já tinha esse mandato desde dezembro de 2010, na
Jornada em Moreno, PE, quando propôs a organização da Jornada seguinte em
Salvador. Ou seja, essa Jornada está sendo preparada, ou não, há três anos, sem
resultado. Nesse interim, o mandato da última diretoria encerrou-se e
formalmente a entidade entrou em colapso. Mas muita gente parece disposta a
ignorar tudo o que acontece, ou melhor, não acontece e, sem muita reflexão, e
sobretudo sem critérios de legitimidade, vai decidindo encaminhamentos – que
não se realizam – e seguindo direto em frente, como no mito da corrida dos lemingues.
Poucos se atrevem a criticar publicamente esse processo.
Então, em
função dessa virtual Jornada, algumas pessoas me pediram, na condição de
diretor do Memorial, para reunir-se aqui e debater a ida ao encontro na Bahia. Pareceu
natural ceder para essas conversas a sala do cineclube, depois dele ser
consultado. Estive presente na maioria das reuniões e também nosso presidente (Frank
Ferreira) que, por sua vez, também representa o Cineclube Darcy Ribeiro, da
Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Entre os demais, membros do
Centro Cineclubista de São Paulo, uma entidade que reúne velhos cineclubistas
em torno da liderança de Diogo Gomes dos Santos, figura histórica dos anos de
resistência à ditadura que, desde o final dos anos 80 vive um pouco das reminiscências
dessa imagem e de um suposto projeto político original, mantendo atividades
cineclubistas de forma intermitente. O CCSP tem a particularidade de associar
pessoas e entidades, assim ele se apresenta ora como cineclube, ora como uma
espécie de federação, com associados num raio de 60 km em torno da capital.
Então, havia mais alguns cineclubes contados entre os membros do CCSP
presentes. Além desses, estiveram representantes de Osasco, Embu das Artes,
Cidade Tiradentes, Diadema, salvo algum esquecimento. Assim, em cada reunião
havia cinco ou seis supostas entidades. E digo supostas porque, num dado
momento, perguntei a cada um que dia fazia suas exibições; naquele dia, nenhum
dos presentes mantinha qualquer atividade. Em outras palavras, estavam ali como
representantes virtuais de uma aspiração abstrata ou de uma experiência
passada, terminada: isso os contaminava de alguma forma com uma
representatividade imanente de algo que não existia mas era nobre,
cineclubista. E, de quebra, os qualificaria para passagem e estadia no
congresso em Salvador.
As reuniões
foram muito confusas, mesmo quando foi feito contato direto com a organização
da Jornada em Salvador. Nós e o CC Darcy Ribeiro declaramos não reconhecer o
procedimento nem pretender participar dessa forma do encontro nacional. No
final, uma última reunião elegeu um representrante e um suplente de São Paulo.
Ao que parece, o CCSP passou a reunir-se com e na secretaria da Cultura do
município com vistas a organizar um amplo projeto de organização de cineclubes
no município e arredores. Mais uma vez, os dois cineclubes atuantes resolveram
não participar do que nos parece irregular e sem perspectiva. Estou sendo
breve, porque esse assunto não me parece ter interesse real; por outro lado,
não posso evitar estas linhas para que o leitor possa ter uma mínima ideia do
que acontece.
Já no
comecinho de outubro fiquei sabendo que a Jornada havia sido cancelada e
remetida para algum momento em 2014. A informação, no entanto, não foi ainda
dada aos cineclubes e outros interessados, que estão até agora (começo de
novembro) fazendo reuniões para preparar-se para o evento e eleições para os
delegados, um pouco como se deu em São Paulo.
Da parte do
CC Latino-Americano, e seguindo aquele raciocínio de estimular uma verdadeira
cultura de cineclubismo, decidimos começar a juntar alguns cineclubes realmente
atuantes e organizados de forma associativa e democrática. Acreditamos que os
cineclubes com atividade têm diversos recursos para compartilhar e
sua representatividade real também os torna interlocutores mais fortes junto a
outras instituições, públicas e privadas. Assim, um Círculo informal de
cineclubes paulistas poode ser um começo despretensioso de uma retomada e
renovação do cineclubismo, partindo do nosso estado. Nesse sentido soltamos um
pequeno manifesto – que reproduzo ao final deste texto – assinado por mais
alguns cineclubes, e vamos fazer uma primeira reunião ainda este mês para examinarmos
possibilidades de troca de experiências e fortalecimento mútuo.
Festivais
Havíamos
acertado nossa participação em dois festivais que aconteceriam em novembro: o
Cine Favela, que reúne uma produção periférica em vários sentidos e que, depois
de várias edições, tem hoje uma abrangência mundial; e o Cine Fantasy, de
cinema de horror, trash, fantasia e
ficção em geral. Nosso cineclube participaria montando com eles uma programação
latino-americana em ambos os casos. O Cine Favela nos passou um grande número
de filmes mexicanos, para fazermos uma curadoria que, como já disse, foi
assumida pelo Grupo de Estudos do Cinema Latino-Americano. Nocaso do Fantasy,
pensamos em organizar uma mostra do cinema equatoriano chamado de bajo-tierra e da produção mexicana de
narco-cine, dois casos de produção paralela e digital. Infelizmente, por
problemas de patrocínio, o Cine Fantasy foi cancelado. Faremos um final de
semana de denúncia e de consolação, com uma trilogia sugerida por eles. Também
por razões econômicas o Cine Favela não fará mais exibições fora da sede em
Heliopólis e do Sesc; autorizaram-nos, contudo a fazer a atividade que
quisermos com os filmes que já nos deram bastante trabalho; provavelmente será
um projeto organizado pelo Grupo de Estudos que vem trabalhando nesse acervo de
mais de 70 horas de material.
Assembleia
Bem,
passaram-se seis meses da fundação do cineclube. Este diário é um retrato –
pessoal, parcial, subjetivo – e testemunho das muitas transformações que a
entidade experimentou. E seis meses é um bom período para promover uma
avaliação com a formalidade do processo democrático que permite deliberar
mudanças, adaptações.
O tema
principal da assembléia foi a avaliação da nossa trajetória. Consensualmente,
ela é de sucesso, sucesso moderado, compatível com os esforços dos militantes
do cineclube, mas sucesso indiscutível. Nosso público cresce visivelmente, e
hoje ronda uma média de cerca de 20 pessoas por sessão. Mantivemos nosso
boletim, agora na sexta edição, assim como o diálogo pela internet com os
interessados e com os sócios pela nossa lista interna. O cineclube agregou dois
grupos importantes, o de Estudos do Cinema Latino-Americano e o de Roteiros.
Tem um grupo de sócios realmente participantes que permitiu – depois de muitas
tentativas – que começasse a funcionar uma Comissão de Programação e uma do Bar
(que será aberto em breve). A perpspectiva é abrir novas sessões no ano que
vem, como o Cineclubinho e outras. O cineclube está registrado e aguardando seu
CNPJ, graças a uma economia discreta baseada nas taxas de associados e de
manutenção que nos permitem até realizar pequenos investimentos. O quadro de
associados sofreu várias mudanças, com a inadimplência de alguns (depois de 4
meses perdem provisoriamente os direitos) e a entrada de novos. Hoje o
cineclube tem 16 associados em pleno direito e a maior parte deles participa
efetivamente dos trabalhos e das decisões. Ficou para a próxima assemblei a a
proposta de criação de uma nova categoria de sócio, o militante (hoje só há a
de sócio contribuinte), que poderia ser dispensado de contribuição financeira
em troca de trabalho. Também estamos deixando amadurecer a ideia de ajudas de
custo para os que precisam responder por tarefas que implicam um
comprometimento mais longo ou mais assíduo – este mês, por exemplo, temos 12
projeções.
Uma decisão
importante e madura foi a de homenagearmos Juan Carlos Arch, militante
histórico do cineclubismo latino-americano, secretário da Federação
Internacional de Cineclubes para a nossa região e presidente da Federação
Argentina. A partir de agora, a razão social completa do nosso cineclube é
Cineclube Latino-Americano “Juan Carlos Arch”.
Começar de novo
Um manifesto cineclubista
paulista
Crise
O cineclubismo vive uma crise muito séria no Brasil. Nos últimos anos
experimentou uma trajetória de desorganização, que se tornou descaracterização,
das práticas mais básicas do cineclubismo: o caráter associativo e democrático,
a ausência de fins lucrativos, a autonomia em relação a poderes, interesses e
instituições políticas, econômicas e outras.
Do ponto de vista institucional, o cineclubismo se desestruturou. As
iniciativas para restabelecer sua organização, democracia e representatividade,
em parte por não assumirem esta crise em toda a sua extensão e profundidade,
mostram-se incertas e duvidosas. A convocação para um congresso de
reorganização está infellizmente sendo feita com irregularidades que
comprometem a democracia, a representatividade e a eficácia do encontro. Além
disso, a um mês de sua realização, os recursos ainda são incertos, a
comunicação quase inexistente, o debate ausente. Mas o mais grave é que, sob a
cobertura de um discurso triunfalista que alardeia a existência de milhares de
cineclubes no País, a grande maioria dessas supostas ações está inoperante ou
se constitui de atividades de exibição que não são mais permanentes, sistemáticas,
sustentáveis, participativas e comunitárias. Não são cineclubes: viraram
empreendimentos, eventos, esporádicos, dependentes do patrocínio estatal ou
privado (mas não da comunidade, dos associados).
Estas considerações
poderiam se estender por várias páginas. Já foram objeto de discussão em
diferentes espaços frequentados pelos cineclubistas. Não queremos mais
polemizar, mas não cremos mais nessa via. Não queremos ser vistos como hostis e
não cultivamos nenhuma desafeição pessoal aos que se empenham nessa Jornada.
Nem pretendemos qualquer disputa ou paralelismo em relação a outras
organizações ou reuniões. Mesmo sendo críticos e céticos, desejamos o melhor
para todos que sinceramente procuram trabalhar com o cinema e o povo brasileiro
– e com esses esperamos poder colaborar. Mas, diante do quadro aqui descrito,
não queremos nem podemos participar dos encaminhamentos correntes.
Por um
cineclubismo atuante, criativo e democrático:
Divertir,
instruir, emancipar!
Esgotados os argumentos, é hora de atuar. Crises são também
oportunidades: o dicionário diz que são o momento decisivo que precede a
evolução para a cura ou para a morte. Queremos, então, propor o aproveitamento
desta oportunidade para relançar em São Paulo as bases de um cineclubismo
atuante, criativo e democrático. Um cineclubismo cujo patrimônio centenário é
principalmente sua capacidade de inventar e se renovar.
Assim, o que estamos
propondo é a retomada sem presunção do trabalho realmente cineclubista, a
colaboração desinteressada entre os cineclubes verdadeiramente atuantes, no
quadro das tradições centenárias do cineclubismo – que incluem justamente a
diversidade de formas dentro do associativismo democrático e a adaptação
criativa aos novos contextos tecnológicos e culturais.
Propomos a constituição de
um Círculo Paulista de Cineclubes, bastante informal, que identifique a
situação real do cineclubismo paulista e facilite a organização de ações
colaborativas entre os cineclubes participantes. Um fórum que se reunirá a
intervalos definidos em cada reunião pelos participantes, que será coordenado
por uma mesa diretora também eleita a cada reunião, sem necessidade de
formalização legal ou maiores burocracias.
Mas, ao mesmo tempo,
queremos garantir o caráter realmente cineclubista desse círculo, adotando os
princípios organizativos e as práticas culturais que definem o cineclubismo e
constituíram historicamente seu edifício institucional. Achamos indispensável a
autenticidade e transparência da constituição e atividades dos participantes,
sua permanência e sistematicidade. Um muito breve e simples regulamento pode
orientar e organizar as reuniões. Assim, para participar das reuniões com
direito a voto e para desfrutar de eventuais benefícios obtidos pela ação
comum, os cineclubes deverão, obrigatoriamente:
1)
Constituir-se como associações abertas, democráticas e sem fins
lucrativos; sua direção e o conteúdo das diferentes atividades deve ser
controlada pelos associados. Isto não implica necessariamente registro legal,
mas a demonstração de que a estrutura e gestão são do conhecimento e têm o aval
da comunidade em que o cineclube atua;
2)
A direção dos cineclubes, independentemente de sua construção formal,
deve ser sujeita a avaliação, controle e escrutínio periódico pelos associados;
3)
Os cineclubes devem ter entre suas atividades a projeção aberta
periódica e sistemática de filmes e/ou outros materiais audiovisuais com
intervalos de, no máximo, 15 (quinze) dias;
4)
Os cineclubes não podem depender exclusivamente, para manutenção de suas
atividades, de doações ou patrocínios, mas manter alguma forma permanente de
sustentação por parte dos associados e da comunidade;
5)
Para participação plena nas reuniões, os cineclubes deverão demonstrar
sua existência há pelo menos 6 (seis) meses anteriormente à reunião. Cineclubes
em formação, ou outros que adiram explicitamente a estes 6 princípios, poderão
assistir às reuniões com direito a voz, mas não a voto. Projetos e ações que
beneficiem os membros do Círculo poderão ser estendidos a esses cineclubes, a
critério da plenária;
6)
A interpretação ou adaptação desses princípios, bem como a aceitação de
novos membros são responsabilidade e atribuição da plenária, decidida
consensualmente ou por uma maioria de no mínimo 2 (dois) terços dos presentes.
Um quórum poderá ser estabelecido após 3 reuniões de alcance estadual.
Perspectivas
Acreditamos que a reunião
de cineclubes atuantes acarreta representatividade e força. Representatividade,
que deriva da penetração do trabalho cineclubista nas comunidades – e portanto
na sociedade -, nos permitirá estabelecer as bases para uma relação efetivamente
democrática com diferentes instituições públicas e privadas. Já existem
diversas propostas a serem avaliadas pelo Círculo visando a proposição a
diferentes instâncias governamentais – ao invés do mero atendimento de editais
– de projetos de consolidação e expansão do cineclubismo em nosso estado. Mas a
união também traz a força, especialmente quando reúne entidades mais
organizadas e atuantes. Por nossos próprios meios também podemos organizar uma
série de iniciativas, como a constituição de um acervo de uso comum, uma
divulgação mais estruturada e eficiente, a organização de cursos, publicações –
entre outras idéias que devem ser apreciadas coletivamente.
Chamamos, então, os
cineclubes constituídos segundo os princípios aqui enumerados, ou que a eles
adiram, a subscreverem este manifesto e a juntarem-se a nós na organização de
uma próxima primeira reunião do Círculo Paulista de Cineclubes – ou outro nome que
se deliberar.
Cineclube Latino-Americano – São Paulo
Cineclube Darcy Ribeiro – São Paulo
Cineclube Aldire Pereira Guedes - Bauru
Cineclube Paratodos - Botucatu
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