9 - Teoria e prática
(as
inserções são numeradas por ordem crescente da data em que foram escritas)
Bom humor
Minhas últimas postagens neste “diário”
tão bissexto refletiam uma certa expectativa, um pouco de angústia com toda a
questão da formação de quadros cineclubistas, de comprometimento dos
frequentadores e participantes do cineclube com a atividade. Essa ansiedade, de
fato, tinha a ver com as minhas convicções mais profundas sobre o cineclubismo
e também com o grande isolamento a que elas me levaram dentro do que hoje se
autodenomina movimento cineclubista no Brasil – e que cada vez é menos
movimento e menos cineclubista.
Os últimos acontecimentos na esfera
do nosso cineclube, no entanto, mudaram profundamente tudo isso. Duas frases,
particularmente, mudaram minha disposição pessoal (porque a realidade foi
mudada pelos acontecimentos de que falo a seguir) para muito melhor. A Maureen
Bisiliat, artista de renome internacional hoje meio aposentada do Memorial mas
sempre engajada com o trabalho cultural – e atenta para o cineclube que se instalou
no espaço que ela criou, o Pavilhão da Criatividade -, mesmo sem ter um
envolvimento mais profundo com a nossa atividade, sacou tudo: - “Vocês estão
construindo uma versão contemporânea de uma idéia centenária”, foi o que ela
disse, mais ou menos. Já o Frank, este sim cineclubista de quatro costados e
informado sobre as lides desse movimento, além de velho amigo, me disse: -
“Isso está comprovando a sua teoria”. E explicou: “Teoria no sentido científico
mesmo, que se comprova na experiência concreta.” Teoria cineclubista, uai. E
que não é “minha”, mas que, como foi “oportunamente” jogada para escanteio
pelas lideranças dos últimos anos, está um pouco identificada com a minha “intransigência”.
Resolvi acreditar nos dois. Minha
luta de 40 anos no cineclubismo, tal como meu afastamento das últimas direções
– que penso terem praticamente destruído o cineclubismo brasileiro – e minha
dedicação, neste último ano, à construção do que penso ser um verdadeiro
cineclube são todas atitudes derivadas de uma concepção de cineclubismo que,
como prática política e cultural, é tarefa bem árdua. E que, face à crise do
movimento, que tenho denunciado, tornou-se também bastante solitária – isto é,
em relação aos porta-vozes desse fac-símile de cineclubismo que estertora em
círculos cada vez mais restritos mas que ainda estrebucha, vez por outra, graças
ao reconhecimento de uma estrutura governamental que pouco ou nada lhes fica a
dever. Dito de maneira mais simples, as muitas dificuldades da prática
cineclubista cotidiana leva(va)m a essa ansiedade, a uma certa insegurança,
incerteza. Sinto que esse era o tom e a sensação das entradas anteriores deste
diário. Mas as frases citadas, justamente, e a realidade que descrevem, desmancharam
esse clima. E também me ajudaram a
compreender mais coisas.
Nos últimos anos, que coincidem com
minha denúncia dos descaminhos do cineclubismo, mais ou menos a partir de 2007,
perdi várias amizades velhas de décadas e sempre em meio ao debate de questões
cineclubistas. Hoje penso que o meu radicalismo, esta qualidade que cultivo,
foi sempre a razão desses rompimentos. Meu apego à sustentação pelo público, à
crença na capacidade crítica do público levaram essas amizades a murcharem e ao
afastamento dos amigos que não queriam correr o risco de basear e sustentar
projetos e cineclubes na adesão e comparecimento do público – preferiram o patrocínio
privado ou o favor público -, assim como não acreditavam na capacidade criativa
desse público, adotando os modelos mais rápidos da tutela, da curadoria, da
alfabetização do espectador, da formação de plateia. Não sei se 20, 30 anos de
luta os cansaram, se a idade os fragilizou, ou se o cinismo é uma espécie de
doença senil, pois estes, mais antigos, no fundo sabem que estão traindo suas
concepções e ideais forjados nos tempos da luta contra a Ditadura. Porque os
mais jovens, a última geração de uma certa “política do cineclubismo”, por sua
formação mesmo, nunca compreenderam ou acreditaram no público, nem nunca foram
público; representam a postura autoral e proprietária de uma pequeno-burguesia
que se vê produtora de filmes mas aparentemente não tem talento para romper as
barreiras que sempre tolheram o cinema brasileiro – e que sempre foram
rompidas, ao menos em parte, onde havia talento – e percebeu num cineclube
emasculado, na plateia tutelada, a possibilidade de exibir seus filmes por
decreto, os mesmo decretos que sustentam artificialmente sua produção. Mas para
todos eles, velhos antigos e velhos novos, o radicalismo que defendo é
irrealista, ingênuo (para alguns é perigoso, comunista e até ateu).
Ironicamente, sou seu melhor teórico – como vários deles gostam de dizer em
público – mas, na prática, um derrotado. No fundo, não têm teórico nem teoria,
apegam-se ao discurso que possam aproveitar para justificar as “oportunidades”
a que se atiram. E o mais trágico é que, na verdade, somos todos derrotados,
face ao capitalismo dominante. Mas mais derrotados são os que se iludem com os
afagos da dominação e da alienação (que depois de alguns meses deixa(ra)m de
existir) ou pior, apenas tentam se aproveitar deles.
A contemporanização da experiência
centenária
Nosso cineclube vinha nessa luta pela
consolidação do seu caráter associativo, da incorporação efetiva da sua
comunidade, seu público, como direção da atividade cineclubista. Dava passos
adiante e passos atrás; a evolução, como disse mais atrás, era incerta,
especialmente no (meu) plano subjetivo. Mesmo assim já estávamos com umas 10
pessoas participando das reuniões de trabalho, que envolviam toda a gestão do
cineclube. Isso em janeiro, depois de cerca de um mês de interrupção de nossas
atividades em meados de dezembro. Nisso há também que se consignar e considerar
o incêndio do grande Auditório Simón Bolívar que, mesmo sem atingir diretamente
o cineclube, levou toda a instituição do Memorial a uma reorganização de urgência.
Em minha postagem anterior eu
discutia as opções de atrairmos mais militantes pela politização do nosso
projeto – isto é, no diálogo político com outros cineclubes – e/ou pela
ampliação de nossas atividades, cobrindo uma gama maior de interesses e,
portanto, de interessados. Foi nesse clima que publicamos em nossa página no
Facebook uma chamada de voluntários interessados em participar do cineclube. E
bum!, a coisa estourou! Foram mais de 20 candidaturas no primeiro dia, 40 na
primeira semana. O ritmo caiu, mas ainda temos – cerca de um mês depois - pelo
menos um contato por dia. Foi uma revolução, um salto quantitativo e
qualitativo na organização do cineclube. E a descoberta de uma forma de
articulação da proposta cineclubista politicamente centenária, mas atualíssima,
com um modo de comunicação e mobilização contemporâneo. Em que constituiu esse
salto?
Rapidamente, para garantir a adesão
dos interessados, marcamos uma reunião de apresentação do projeto do cineclube.
Na verdade foram duas, dois sábados seguidos; com cerca de 30 participantes. A
apresentação foi feita com a projeção de um curta metragem com entrevistas de
cineclubistas de várias partes do mundo – um aquecimento motivador – e uma
exposição ilustrada por um dispositivo visual (PPT). Apresentamos o projeto do
cineclube, seu caráter associativo e democrático, e seus objetivos principais:
recuperar a experiência cineclubista neste momento de falência dos valores
cineclubistas (associativismo, democracia, independência, sustentabilidade) e,
através dessa forma de organização do público, apropriarmo-nos de todos os
aspectos (história, linguagem, memória, criação) do cinema e do audiovisual,
com ênfase no conhecimento do cinema latino-americano (do qual o cinema
brasileiro, obviamente, faz parte). Mostramos que essa forma de organização se
articula através de comissões e assembleias, e aí colocamos em detalhe as
comissões que precisamos organizar neste momento, os horários de trabalho
efetivo nas sessões e de contribuição nos instrumentos de divulgação e debate.
Enfatizamos o compromisso cineclubista – cineclube não é hobby, mas ação cultural e política – ao mesmo tempo em que abrimos
a possibilidade de adotarmos alguma ajuda de custo, pequena, para ajudar no
transporte e alimentação das pessoas que precisassem.
As pessoas que vieram tinham bastante
em comum: faixa etária entre 20 e 30 e poucos anos; uma maioria de
universitários, sendo alguns recém-formados. Também havia substância no
interesse delas: muitas tinham cursos ou oficinas de cinema ou cineclubismo;
algumas trabalhavam com audiovisual; outras, com outra formação, queriam muito
entrar na área do cinema. E muitas tinham um interesse claro no cineclubismo
mesmo. Nas duas reuniões distribuímos uma espécie de questionário indagando
sobre seus interesses, em que setor queriam colaborar – considerando a
apresentação que haviam assistido – quantas horas podiam dar ao cineclube. A
partir da tabulação dessa enquete tínhamos um quadro inicial de que comissões –
com base tanto no interesse quanto na disponibilidade real – poderíamos criar,
que gama de atividades o cineclube poderia abarcar.
Além das que vieram nas reuniões,
outras pessoas foram contatadas por email ou telefone, e outras ainda foram
trazidas por aquelas. Na semana seguinte fizemos a reunião de trabalho em que
estabelecemos as comissões concretas, elegemos seus relatores (que se reúnem
com a diretoria – no processo que se segue, tendem a ser a diretoria - para
coordenar o conjunto do cineclube), definimos dias e horários de reuniões das novas
comissões formadas. Nessa reunião de trabalho estavam cerca de 30 pessoas,
sendo que mais algumas que não puderam comparecer estavam em contato e aderiram
a diferentes comissões. As comissões são abertas e as pessoas continuam
chegando (assim como algumas possivelmente vão se afastar).
Até então, apenas uma pessoa pediu a
ajuda de custo que citei mais acima. No caso, é alguém que se envolveu em
várias frentes de trabalho e realmente gastaria uma quantia mais ou menos importante
no transporte várias vezes por semana e na alimentação de que precisaria por ficar
muitas horas no cineclube. Estas questões levam a alguns comentários
importantes. Primeiro: o cineclube dispõe de uma pequena reserva porque seus
associados e frequentadores pagam uma contribuição pela sua participação. Por
isso pudemos pagar nossos registros legais, publicar um boletim bem simples mas
importantíssimo e outras pequenas despesas. Agora, com a ampliação das
atividades, funcionando 5 dias por semana, as despesas – e, esperamos, as
receitas, aumentarão. Segundo: o cinelube tem apenas uma categoria de sócio, o
sócio contribuinte, que paga uma pequena taxa mensal e tem acesso livre a todas
as nossas atividades (o público não associado paga uma taxa de manutenção de R$
5,00 para entrar em cada sessão – nos poucos casos em que a pessoa não pode
pagar, entra assim mesmo). Esta participação financeira já representa um reconhecimento,
uma adesão básica ao cineclube. Mas agora, com esse salto organizativo, o
envolvimento de um número grande de militantes (é o nome certo para o “voluntário”
cineclubista) e a ampliação das atividades, as coisas mudaram. Assim, vamos
propor a criação de uma nova categoria de associado, a do sócio militante, cuja
contribuição não é financeira, mas consiste na dedicação de um certo número de
horas por semana de participação nas atividades do cineclube. Isso leva ao
terceiro comentário importante: as pessoas não vêm trabalhar voluntariamente para o cineclube (como acontece em
muitos eventos); serão associadas e concretamente dirigentes da ação cultural
em que militam: no seu, no nosso cineclube.
E quando o
público se organiza...
Assim, o cineclube tem hoje 5
comissões de trabalho ( com uma média de 8 participantes) e 3 grupos de estudo
(várias pessoas participam de mais de uma atividade), e um corpo militante de
mais de 30 pessoas. Mas, mais que isso, criou-se uma “massa crítica”, um núcleo
de participação que mesmo sofrendo perdas, também tende a se renovar, em parte
pelo número relativamente elevado “de base”, mas principalmente pela auto
realização das pessoas nas diferentes atividades. Um outro aspecto
interessantíssimo das últimas reuniões é que as pessoas têm diversas “especialidades”
(músicos, psicólogos, professores, jornalistas, estudantes e técnicos de
audiovisual, de informática e muitos outros talentos), diversos saberes que
modificam e enriquecem as atividades em que vão participar – e, nessa mesma medida,
trazem um sentido de realização pessoal para os participantes.
Se considerarmos que nossa sala tem
cerca de 75 lugares, as mais de 30 pessoas que efetivamente participam do
trabalho do cineclube já representam em grande parte a realização do objetivo,
antes meio abstrato, do “público organizado”. Pois o cineclube se torna o ponto
de encontro dessa galera, local de partilha com seus círculos de amigos. A
comunidade que o cineclube representa torna-se realidade concreta!
Além da sala simpática que o Memorial
nos cede, abriremos finalmente nosso barzinho e espaço de convivência (que está
ficando lindo). De fato, uma das comissões é justamente a da festa de
inauguração desse espaço, que depois se tornará a Comissão do bar. Além dessa, temos as duas comissões que cuidam,
uma do Boletim impresso, outra da Comunicação, que abrange saite,
facebook, essas coisas... A partir de março o cineclube terá 5 sessões
semanais, cada uma com um tema. Às quartas-feiras teremos a sessão Gosma Verde, sugestivo tema que engloba
o trash, o kitsch, o filme b, as artes marciais, a ficção científica, a pornochanchada,
enfim, o que os anglófonos chamam de exploitation
film. Nas quintas, a programação fica por conta do Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano, uma “comissão” que se
juntou ao cineclube com um propósito de debate mais preciso, acadêmico sem ser
excludente: serão ciclos baseados em trabalhos dos membros do grupo, sempre com
debate. Esse trabalho também será feito com professores das escolas da região
do Memorial. As sextas serão do Cinema
Mudo e, pelo menos uma vez por mês, teremos música ao vivo acompanhando os
filmes. Aos sábados o tema do ciclo será definido a cada ocasião pela comissão
de Programação. E aos domingos, matinê com o Cineclubinho. A comissão de Programação
cuidará de várias sessões temáticas, exceto a das quintas e as do Cineclubinho que, pela especificidade do
trabalho, com muitas atividades de animação, tem também uma comissão própria. De
fato, creio que há uma tendência para a divisão da comissão de Programação em
torno de seus temas, pois o interesse maior de algumas pessoas e a própria
capacidade de aprofundamento dos assuntos – que evolui com a prática – torna as
reuniões mais especializadas e mesmo mais longas. Além dessas, o S.E.R.I.O é outra comissão organizada
como grupo de estudos, voltado para a discussão sobre roteiros. E uma comissão Movimento Cineclubista – a maior, com 14
participantes – será espaço de estudo e mobilização em prol do fortalecimento
do cineclubismo. Em princípio será o laboratório de organização de um
verdadeiro curso de formação de dirigentes cineclubistas, não uma rápida
oficina, mas um trabalho de pesquisa e formação em profundidade, um pouco como
foi o “clássico” curso de que emprestei o nome, realizado por Paulo Emílio,
Carlos Vieira, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet e muitos outros, na
Cinemateca, em 1958. Mas também estamos organizando um espaço de intercâmbio variado
com outros cineclubes do estado, como escrevi na postagem anterior neste
diário.