sábado, 22 de fevereiro de 2014

9 - Teoria e prática
(as inserções são numeradas por ordem crescente da data em que foram escritas)

Bom humor

      Minhas últimas postagens neste “diário” tão bissexto refletiam uma certa expectativa, um pouco de angústia com toda a questão da formação de quadros cineclubistas, de comprometimento dos frequentadores e participantes do cineclube com a atividade. Essa ansiedade, de fato, tinha a ver com as minhas convicções mais profundas sobre o cineclubismo e também com o grande isolamento a que elas me levaram dentro do que hoje se autodenomina movimento cineclubista no Brasil – e que cada vez é menos movimento e menos cineclubista.

    Os últimos acontecimentos na esfera do nosso cineclube, no entanto, mudaram profundamente tudo isso. Duas frases, particularmente, mudaram minha disposição pessoal (porque a realidade foi mudada pelos acontecimentos de que falo a seguir) para muito melhor. A Maureen Bisiliat, artista de renome internacional hoje meio aposentada do Memorial mas sempre engajada com o trabalho cultural – e atenta para o cineclube que se instalou no espaço que ela criou, o Pavilhão da Criatividade -, mesmo sem ter um envolvimento mais profundo com a nossa atividade, sacou tudo: - “Vocês estão construindo uma versão contemporânea de uma idéia centenária”, foi o que ela disse, mais ou menos. Já o Frank, este sim cineclubista de quatro costados e informado sobre as lides desse movimento, além de velho amigo, me disse: - “Isso está comprovando a sua teoria”. E explicou: “Teoria no sentido científico mesmo, que se comprova na experiência concreta.” Teoria cineclubista, uai. E que não é “minha”, mas que, como foi “oportunamente” jogada para escanteio pelas lideranças dos últimos anos, está um pouco identificada com a minha “intransigência”.

       Resolvi acreditar nos dois. Minha luta de 40 anos no cineclubismo, tal como meu afastamento das últimas direções – que penso terem praticamente destruído o cineclubismo brasileiro – e minha dedicação, neste último ano, à construção do que penso ser um verdadeiro cineclube são todas atitudes derivadas de uma concepção de cineclubismo que, como prática política e cultural, é tarefa bem árdua. E que, face à crise do movimento, que tenho denunciado, tornou-se também bastante solitária – isto é, em relação aos porta-vozes desse fac-símile de cineclubismo que estertora em círculos cada vez mais restritos mas que ainda estrebucha, vez por outra, graças ao reconhecimento de uma estrutura governamental que pouco ou nada lhes fica a dever. Dito de maneira mais simples, as muitas dificuldades da prática cineclubista cotidiana leva(va)m a essa ansiedade, a uma certa insegurança, incerteza. Sinto que esse era o tom e a sensação das entradas anteriores deste diário. Mas as frases citadas, justamente, e a realidade que descrevem, desmancharam esse clima. E também me  ajudaram a compreender mais coisas.

       Nos últimos anos, que coincidem com minha denúncia dos descaminhos do cineclubismo, mais ou menos a partir de 2007, perdi várias amizades velhas de décadas e sempre em meio ao debate de questões cineclubistas. Hoje penso que o meu radicalismo, esta qualidade que cultivo, foi sempre a razão desses rompimentos. Meu apego à sustentação pelo público, à crença na capacidade crítica do público levaram essas amizades a murcharem e ao afastamento dos amigos que não queriam correr o risco de basear e sustentar projetos e cineclubes na adesão e comparecimento do público – preferiram o patrocínio privado ou o favor público -, assim como não acreditavam na capacidade criativa desse público, adotando os modelos mais rápidos da tutela, da curadoria, da alfabetização do espectador, da formação de plateia. Não sei se 20, 30 anos de luta os cansaram, se a idade os fragilizou, ou se o cinismo é uma espécie de doença senil, pois estes, mais antigos, no fundo sabem que estão traindo suas concepções e ideais forjados nos tempos da luta contra a Ditadura. Porque os mais jovens, a última geração de uma certa “política do cineclubismo”, por sua formação mesmo, nunca compreenderam ou acreditaram no público, nem nunca foram público; representam a postura autoral e proprietária de uma pequeno-burguesia que se vê produtora de filmes mas aparentemente não tem talento para romper as barreiras que sempre tolheram o cinema brasileiro – e que sempre foram rompidas, ao menos em parte, onde havia talento – e percebeu num cineclube emasculado, na plateia tutelada, a possibilidade de exibir seus filmes por decreto, os mesmo decretos que sustentam artificialmente sua produção. Mas para todos eles, velhos antigos e velhos novos, o radicalismo que defendo é irrealista, ingênuo (para alguns é perigoso, comunista e até ateu). Ironicamente, sou seu melhor teórico – como vários deles gostam de dizer em público – mas, na prática, um derrotado. No fundo, não têm teórico nem teoria, apegam-se ao discurso que possam aproveitar para justificar as “oportunidades” a que se atiram. E o mais trágico é que, na verdade, somos todos derrotados, face ao capitalismo dominante. Mas mais derrotados são os que se iludem com os afagos da dominação e da alienação (que depois de alguns meses deixa(ra)m de existir) ou pior, apenas tentam se aproveitar deles.

A contemporanização da experiência centenária

         Nosso cineclube vinha nessa luta pela consolidação do seu caráter associativo, da incorporação efetiva da sua comunidade, seu público, como direção da atividade cineclubista. Dava passos adiante e passos atrás; a evolução, como disse mais atrás, era incerta, especialmente no (meu) plano subjetivo. Mesmo assim já estávamos com umas 10 pessoas participando das reuniões de trabalho, que envolviam toda a gestão do cineclube. Isso em janeiro, depois de cerca de um mês de interrupção de nossas atividades em meados de dezembro. Nisso há também que se consignar e considerar o incêndio do grande Auditório Simón Bolívar que, mesmo sem atingir diretamente o cineclube, levou toda a instituição do Memorial a uma reorganização de urgência.

           Em minha postagem anterior eu discutia as opções de atrairmos mais militantes pela politização do nosso projeto – isto é, no diálogo político com outros cineclubes – e/ou pela ampliação de nossas atividades, cobrindo uma gama maior de interesses e, portanto, de interessados. Foi nesse clima que publicamos em nossa página no Facebook uma chamada de voluntários interessados em participar do cineclube. E bum!, a coisa estourou! Foram mais de 20 candidaturas no primeiro dia, 40 na primeira semana. O ritmo caiu, mas ainda temos – cerca de um mês depois - pelo menos um contato por dia. Foi uma revolução, um salto quantitativo e qualitativo na organização do cineclube. E a descoberta de uma forma de articulação da proposta cineclubista politicamente centenária, mas atualíssima, com um modo de comunicação e mobilização contemporâneo. Em que constituiu esse salto?

             Rapidamente, para garantir a adesão dos interessados, marcamos uma reunião de apresentação do projeto do cineclube. Na verdade foram duas, dois sábados seguidos; com cerca de 30 participantes. A apresentação foi feita com a projeção de um curta metragem com entrevistas de cineclubistas de várias partes do mundo – um aquecimento motivador – e uma exposição ilustrada por um dispositivo visual (PPT). Apresentamos o projeto do cineclube, seu caráter associativo e democrático, e seus objetivos principais: recuperar a experiência cineclubista neste momento de falência dos valores cineclubistas (associativismo, democracia, independência, sustentabilidade) e, através dessa forma de organização do público, apropriarmo-nos de todos os aspectos (história, linguagem, memória, criação) do cinema e do audiovisual, com ênfase no conhecimento do cinema latino-americano (do qual o cinema brasileiro, obviamente, faz parte). Mostramos que essa forma de organização se articula através de comissões e assembleias, e aí colocamos em detalhe as comissões que precisamos organizar neste momento, os horários de trabalho efetivo nas sessões e de contribuição nos instrumentos de divulgação e debate. Enfatizamos o compromisso cineclubista – cineclube não é hobby, mas ação cultural e política – ao mesmo tempo em que abrimos a possibilidade de adotarmos alguma ajuda de custo, pequena, para ajudar no transporte e alimentação das pessoas que precisassem.

            As pessoas que vieram tinham bastante em comum: faixa etária entre 20 e 30 e poucos anos; uma maioria de universitários, sendo alguns recém-formados. Também havia substância no interesse delas: muitas tinham cursos ou oficinas de cinema ou cineclubismo; algumas trabalhavam com audiovisual; outras, com outra formação, queriam muito entrar na área do cinema. E muitas tinham um interesse claro no cineclubismo mesmo. Nas duas reuniões distribuímos uma espécie de questionário indagando sobre seus interesses, em que setor queriam colaborar – considerando a apresentação que haviam assistido – quantas horas podiam dar ao cineclube. A partir da tabulação dessa enquete tínhamos um quadro inicial de que comissões – com base tanto no interesse quanto na disponibilidade real – poderíamos criar, que gama de atividades o cineclube poderia abarcar.

            Além das que vieram nas reuniões, outras pessoas foram contatadas por email ou telefone, e outras ainda foram trazidas por aquelas. Na semana seguinte fizemos a reunião de trabalho em que estabelecemos as comissões concretas, elegemos seus relatores (que se reúnem com a diretoria – no processo que se segue, tendem a ser a diretoria - para coordenar o conjunto do cineclube), definimos dias e horários de reuniões das novas comissões formadas. Nessa reunião de trabalho estavam cerca de 30 pessoas, sendo que mais algumas que não puderam comparecer estavam em contato e aderiram a diferentes comissões. As comissões são abertas e as pessoas continuam chegando (assim como algumas possivelmente vão se afastar).

           Até então, apenas uma pessoa pediu a ajuda de custo que citei mais acima. No caso, é alguém que se envolveu em várias frentes de trabalho e realmente gastaria uma quantia mais ou menos importante no transporte várias vezes por semana e na alimentação de que precisaria por ficar muitas horas no cineclube. Estas questões levam a alguns comentários importantes. Primeiro: o cineclube dispõe de uma pequena reserva porque seus associados e frequentadores pagam uma contribuição pela sua participação. Por isso pudemos pagar nossos registros legais, publicar um boletim bem simples mas importantíssimo e outras pequenas despesas. Agora, com a ampliação das atividades, funcionando 5 dias por semana, as despesas – e, esperamos, as receitas, aumentarão. Segundo: o cinelube tem apenas uma categoria de sócio, o sócio contribuinte, que paga uma pequena taxa mensal e tem acesso livre a todas as nossas atividades (o público não associado paga uma taxa de manutenção de R$ 5,00 para entrar em cada sessão – nos poucos casos em que a pessoa não pode pagar, entra assim mesmo). Esta participação financeira já representa um reconhecimento, uma adesão básica ao cineclube. Mas agora, com esse salto organizativo, o envolvimento de um número grande de militantes (é o nome certo para o “voluntário” cineclubista) e a ampliação das atividades, as coisas mudaram. Assim, vamos propor a criação de uma nova categoria de associado, a do sócio militante, cuja contribuição não é financeira, mas consiste na dedicação de um certo número de horas por semana de participação nas atividades do cineclube. Isso leva ao terceiro comentário importante: as pessoas não vêm trabalhar voluntariamente para o cineclube (como acontece em muitos eventos); serão associadas e concretamente dirigentes da ação cultural em que militam: no seu, no nosso cineclube.

E quando o público se organiza...

             Assim, o cineclube tem hoje 5 comissões de trabalho ( com uma média de 8 participantes) e 3 grupos de estudo (várias pessoas participam de mais de uma atividade), e um corpo militante de mais de 30 pessoas. Mas, mais que isso, criou-se uma “massa crítica”, um núcleo de participação que mesmo sofrendo perdas, também tende a se renovar, em parte pelo número relativamente elevado “de base”, mas principalmente pela auto realização das pessoas nas diferentes atividades. Um outro aspecto interessantíssimo das últimas reuniões é que as pessoas têm diversas “especialidades” (músicos, psicólogos, professores, jornalistas, estudantes e técnicos de audiovisual, de informática e muitos outros talentos), diversos saberes que modificam e enriquecem as atividades em que vão participar – e, nessa mesma medida, trazem um sentido de realização pessoal para os participantes.

               Se considerarmos que nossa sala tem cerca de 75 lugares, as mais de 30 pessoas que efetivamente participam do trabalho do cineclube já representam em grande parte a realização do objetivo, antes meio abstrato, do “público organizado”. Pois o cineclube se torna o ponto de encontro dessa galera, local de partilha com seus círculos de amigos. A comunidade que o cineclube representa torna-se realidade concreta!

          Além da sala simpática que o Memorial nos cede, abriremos finalmente nosso barzinho e espaço de convivência (que está ficando lindo). De fato, uma das comissões é justamente a da festa de inauguração desse espaço, que depois se tornará a Comissão do bar. Além dessa, temos as duas comissões que cuidam, uma do Boletim impresso, outra da Comunicação, que abrange saite, facebook, essas coisas... A partir de março o cineclube terá 5 sessões semanais, cada uma com um tema. Às quartas-feiras teremos a sessão Gosma Verde, sugestivo tema que engloba o trash, o kitsch, o filme b, as artes marciais, a ficção científica, a pornochanchada, enfim, o que os anglófonos chamam de exploitation film. Nas quintas, a programação fica por conta do Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano, uma “comissão” que se juntou ao cineclube com um propósito de debate mais preciso, acadêmico sem ser excludente: serão ciclos baseados em trabalhos dos membros do grupo, sempre com debate. Esse trabalho também será feito com professores das escolas da região do Memorial. As sextas serão do Cinema Mudo e, pelo menos uma vez por mês, teremos música ao vivo acompanhando os filmes. Aos sábados o tema do ciclo será definido a cada ocasião pela comissão de Programação. E aos domingos, matinê com o Cineclubinho. A comissão de Programação cuidará de várias sessões temáticas, exceto a das quintas e as do Cineclubinho que, pela especificidade do trabalho, com muitas atividades de animação, tem também uma comissão própria. De fato, creio que há uma tendência para a divisão da comissão de Programação em torno de seus temas, pois o interesse maior de algumas pessoas e a própria capacidade de aprofundamento dos assuntos – que evolui com a prática – torna as reuniões mais especializadas e mesmo mais longas. Além dessas, o S.E.R.I.O é outra comissão organizada como grupo de estudos, voltado para a discussão sobre roteiros. E uma comissão Movimento Cineclubista – a maior, com 14 participantes – será espaço de estudo e mobilização em prol do fortalecimento do cineclubismo. Em princípio será o laboratório de organização de um verdadeiro curso de formação de dirigentes cineclubistas, não uma rápida oficina, mas um trabalho de pesquisa e formação em profundidade, um pouco como foi o “clássico” curso de que emprestei o nome, realizado por Paulo Emílio, Carlos Vieira, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet e muitos outros, na Cinemateca, em 1958. Mas também estamos organizando um espaço de intercâmbio variado com outros cineclubes do estado, como escrevi na postagem anterior neste diário.









domingo, 3 de novembro de 2013


8 – Cinefilia e cantinfladas
(as inserções são numeradas por ordem crescente de data em que foram escritas)

Mais uma vez, passou um tempão desde minha última entrada neste diário. Dois meses. Setembro e outubro foram ocupados por um pequeno ciclo revendo 4 filmes do Cantinflas e, num registro bem diferente, adaptações de obras de Mário Vargas Llosa, uma proposta trazida pelo consulado do Peru. Nesse período também houve outras atividades no cineclube, como a preparação de nossa participação no festival Cine Favela, com uma curadoria de filmes mexicanos feita pelo Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano, que atua em parceria conosco. E, como se aproximava a data de uma Jornada – nome tradicional dos congressos nacionais de cineclubes – na Bahia, alguns grupos e pessoas pediram e se reuniram no nosso espaço para discutir uma participação paulista naquele encontro. No finalzinho, dia 26, de outubro, fizemos a segunda assembléia do cineclube, fundamentalmente avaliando os primeiros seis meses de atividade e as muitas perspectivas que estão se abrindo.
Vendo o últiimo texto que inseri aqui, lembro-me que estava um tanto deprimido, pois a formação de quadros militantes vai mais devagar que a minha ansiedade. Terminava fazendo alusão a uma alternativa, a da interação com outros cineclubes e o fortalecimento de uma cultura de militância nesse ambiente. Mas uma outra possibillidade talvez esteja também no aumento de atividades e de público no cineclube. É a grande contradição: precisamos de mais gente para ampliar nossa ação e mais atuação é um provável caminho para atrair e formar mais quadros. Um cineclube atuando no Memorial tem essa questão exacerbada, pois o local que nos acolhe, por si só, já gera uma porção de demandas – oportunidades e desafios em que estamos enredados numa contradição praticamente diária. Viver isso afasta, afinal, qualquer sensação passageira de depressão, de derrota, pois esse devir contraditório é muito dinâmico. Nestes dois meses um novo grupo de pessoas passou a atuar no cineclube de forma mais comprometida.

Cinefilia

Na minha reflexão anterior sobre militância não abordei uma questão fundamental: a cinefilia. Nos últimos anos me concentrei mais em criticar uma certa cinefilia que, por sua vez, meio que entrou na moda acadêmica. A questão da cinefilia remete ao cineclubismo, dando-lhe um espaço de que nunca dispôs nos estudos cinematográficos. Mas, ao mesmo tempo, essa abordagem a que me referi o abastarda, o “institucionaliza”, no sentido que Noel Burch apontou, de domesticar e integrar a uma concepção hegemônica elitista. Cinéfilos, nessa linha, são especialistas, connaisseurs, a elite que se reconhece pela capacidade de se expressar pelas vias admitidas por essa visão – expressão culta e literária – e que pode ser identificada por alguns proprietários de saber: autores, críticos, acadêmicos.
A denúncia dessa cinefilia me fez sempre lembrar da outra, a cinefilia popular, que sempre levou milhões ao cinema e criou tantos subprodutos, do culto aos astros e estrelas aos inúmeros fandoms (reinos de fãns, tribos; do inglês fan, admirador e kingdom, reino). Mas foi só na retomada da minha prática cineclubista concreta que pude prestar atenção a outra dimensão, essencial na compreensão da militância cineclubista. Existe um entusiasmo – mais que interesse – pela linguagem do cinema, pelos efeitos próprios e específicos do cinema (e derivados em outros suportes audiovisuais), que é o que motiva e distingue justamente, o quadro cineclubista de militantes de outras áreas da política – ou devia dizer cultura? Eu sinto isso em mim mesmo, um enlevo criado em certos momentos e efeitos da experiência do filme, da sala escura, do compartilhamento ao mesmo tempo coletivo e tão pessoal. Enlevo que imagino deva ser frequentemente maior que o prazer que a mesma sequência provoca nos que não são mordidos pela... cinefilia. Nesta época e modelo em que o cinema é entretenimento muito ocasional e para poucos, em que retorna e prevalece um cinema de atrações (como dizem Tom Gunning, André Gaudreault e outros), em que a agitação supera a narrativa, a gente pode notar numa sessão do cineclube um certo incômodo de alguns com a duração do filme, com uma postura que já lhes é meio estranha, de ficar sentado por um tempo mais longo e com a atenção focada numa tela, numa linguagem (pois alguns desses poderão ficar horas diante de um computador, mas sem uma narrativa extensa). Quase todo mundo gosta de cinema, mas um número bem menor experimenta uma relaçao de prazer e realização mais profundos com os filmes. Então, para dificultar mais ainda as coisas, acho que o militante cineclubista, além de toda a dedicação e compreensão política a que me referi anteriormente, ainda por cima, tem de ser cinéfilo!

Cantinfladas
O que mais me fez reuperar logo o ânimo foi o ciclo do Cantinflas. Logo de cara, um público novo! Pessoas mais idosas, e também crianças, trazidas por aquelas. Não costumo contar os inúmeros causos que vivemos em nossas sessões, mas aqui teve um antológico. Logo atrás de mim, um casal de avós com a netinha. O filme era legendado, preto e branco. Os adultos adorando, a menina morrendo de amolação, pois não conseguia ler as legendas e se ligar no desfile de imagens que não podia acompanhar. A menina reclamava, sofria, e os avós iam desconversando, loucos pelo filme. Eu estava quase falando para eles saírem, pois estava mesmo muito difícil para a garotinha. Afinal, pouco depois acabaram saindo. Outro caso, como ficamos sabendo depois, no debate, era o de um senhor peruano que, como todos os latino-americanos – incluindo os brasileiros - da segunda metade do século passado, teve a infância marcada pela figura do cômico mexicano e havia ficado muito emocionado. E havia várias outras nacionalidades do nosso continente; este é outro campo em que o cineclube é vencedor: está construindo efetivamente um campo comum e um diálogo não apenas entre os cinemas latino-americanos, mas também entre os diferentes países com comunidades residentes em São Paulo. Os frequentadores mais jovens, que vinham dos outros ciclos apresentados pelo cineclube, também acompanharam e descobriram o Cantinflas. Essa experiência aponta para o possível acerto da tese de que mais atividades, diferenciadas, ampliam – ao mesmo tempo que misturam – o público e abrem novas oportunidades de motivar militantes.

Manifesto
Nesse período – setembro e outubro – também foram feitas umas três ou quatro reuniões de grupos e cineclubistas na nossa sala. Como disse mais acima, havia uma espécie de convocação para uma Jornada nacional entre 15 e 21 de novembro na Bahia. Há alguns meses, uma diretoria meio interina da entidade brasileira – o Conselho Nacional de Cineclubes - havia sido eleita em um encontro bastante irregular, em Vitória, ES, mais ou menos com o mandato de organizar esse encontro nacional de reorganização. Na verdade, essa direção, fundamentalmente constituída por cineclubistas da Bahia, já tinha esse mandato desde dezembro de 2010, na Jornada em Moreno, PE, quando propôs a organização da Jornada seguinte em Salvador. Ou seja, essa Jornada está sendo preparada, ou não, há três anos, sem resultado. Nesse interim, o mandato da última diretoria encerrou-se e formalmente a entidade entrou em colapso. Mas muita gente parece disposta a ignorar tudo o que acontece, ou melhor, não acontece e, sem muita reflexão, e sobretudo sem critérios de legitimidade, vai decidindo encaminhamentos – que não se realizam – e seguindo direto em frente, como no mito da corrida dos lemingues. Poucos se atrevem a criticar publicamente esse processo.

Então, em função dessa virtual Jornada, algumas pessoas me pediram, na condição de diretor do Memorial, para reunir-se aqui e debater a ida ao encontro na Bahia. Pareceu natural ceder para essas conversas a sala do cineclube, depois dele ser consultado. Estive presente na maioria das reuniões e também nosso presidente (Frank Ferreira) que, por sua vez, também representa o Cineclube Darcy Ribeiro, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Entre os demais, membros do Centro Cineclubista de São Paulo, uma entidade que reúne velhos cineclubistas em torno da liderança de Diogo Gomes dos Santos, figura histórica dos anos de resistência à ditadura que, desde o final dos anos 80 vive um pouco das reminiscências dessa imagem e de um suposto projeto político original, mantendo atividades cineclubistas de forma intermitente. O CCSP tem a particularidade de associar pessoas e entidades, assim ele se apresenta ora como cineclube, ora como uma espécie de federação, com associados num raio de 60 km em torno da capital. Então, havia mais alguns cineclubes contados entre os membros do CCSP presentes. Além desses, estiveram representantes de Osasco, Embu das Artes, Cidade Tiradentes, Diadema, salvo algum esquecimento. Assim, em cada reunião havia cinco ou seis supostas entidades. E digo supostas porque, num dado momento, perguntei a cada um que dia fazia suas exibições; naquele dia, nenhum dos presentes mantinha qualquer atividade. Em outras palavras, estavam ali como representantes virtuais de uma aspiração abstrata ou de uma experiência passada, terminada: isso os contaminava de alguma forma com uma representatividade imanente de algo que não existia mas era nobre, cineclubista. E, de quebra, os qualificaria para passagem e estadia no congresso em Salvador.
As reuniões foram muito confusas, mesmo quando foi feito contato direto com a organização da Jornada em Salvador. Nós e o CC Darcy Ribeiro declaramos não reconhecer o procedimento nem pretender participar dessa forma do encontro nacional. No final, uma última reunião elegeu um representrante e um suplente de São Paulo. Ao que parece, o CCSP passou a reunir-se com e na secretaria da Cultura do município com vistas a organizar um amplo projeto de organização de cineclubes no município e arredores. Mais uma vez, os dois cineclubes atuantes resolveram não participar do que nos parece irregular e sem perspectiva. Estou sendo breve, porque esse assunto não me parece ter interesse real; por outro lado, não posso evitar estas linhas para que o leitor possa ter uma mínima ideia do que acontece.

Já no comecinho de outubro fiquei sabendo que a Jornada havia sido cancelada e remetida para algum momento em 2014. A informação, no entanto, não foi ainda dada aos cineclubes e outros interessados, que estão até agora (começo de novembro) fazendo reuniões para preparar-se para o evento e eleições para os delegados, um pouco como se deu em São Paulo.
Da parte do CC Latino-Americano, e seguindo aquele raciocínio de estimular uma verdadeira cultura de cineclubismo, decidimos começar a juntar alguns cineclubes realmente atuantes e organizados de forma associativa e democrática. Acreditamos que os cineclubes com atividade têm diversos recursos para compartilhar e sua representatividade real também os torna interlocutores mais fortes junto a outras instituições, públicas e privadas. Assim, um Círculo informal de cineclubes paulistas poode ser um começo despretensioso de uma retomada e renovação do cineclubismo, partindo do nosso estado. Nesse sentido soltamos um pequeno manifesto – que reproduzo ao final deste texto – assinado por mais alguns cineclubes, e vamos fazer uma primeira reunião ainda este mês para examinarmos possibilidades de troca de experiências e fortalecimento mútuo.

Festivais
Havíamos acertado nossa participação em dois festivais que aconteceriam em novembro: o Cine Favela, que reúne uma produção periférica em vários sentidos e que, depois de várias edições, tem hoje uma abrangência mundial; e o Cine Fantasy, de cinema de horror, trash, fantasia e ficção em geral. Nosso cineclube participaria montando com eles uma programação latino-americana em ambos os casos. O Cine Favela nos passou um grande número de filmes mexicanos, para fazermos uma curadoria que, como já disse, foi assumida pelo Grupo de Estudos do Cinema Latino-Americano. Nocaso do Fantasy, pensamos em organizar uma mostra do cinema equatoriano chamado de bajo-tierra e da produção mexicana de narco-cine, dois casos de produção paralela e digital. Infelizmente, por problemas de patrocínio, o Cine Fantasy foi cancelado. Faremos um final de semana de denúncia e de consolação, com uma trilogia sugerida por eles. Também por razões econômicas o Cine Favela não fará mais exibições fora da sede em Heliopólis e do Sesc; autorizaram-nos, contudo a fazer a atividade que quisermos com os filmes que já nos deram bastante trabalho; provavelmente será um projeto organizado pelo Grupo de Estudos que vem trabalhando nesse acervo de mais de 70 horas de material.

Assembleia
Bem, passaram-se seis meses da fundação do cineclube. Este diário é um retrato – pessoal, parcial, subjetivo – e testemunho das muitas transformações que a entidade experimentou. E seis meses é um bom período para promover uma avaliação com a formalidade do processo democrático que permite deliberar mudanças, adaptações.

O tema principal da assembléia foi a avaliação da nossa trajetória. Consensualmente, ela é de sucesso, sucesso moderado, compatível com os esforços dos militantes do cineclube, mas sucesso indiscutível. Nosso público cresce visivelmente, e hoje ronda uma média de cerca de 20 pessoas por sessão. Mantivemos nosso boletim, agora na sexta edição, assim como o diálogo pela internet com os interessados e com os sócios pela nossa lista interna. O cineclube agregou dois grupos importantes, o de Estudos do Cinema Latino-Americano e o de Roteiros. Tem um grupo de sócios realmente participantes que permitiu – depois de muitas tentativas – que começasse a funcionar uma Comissão de Programação e uma do Bar (que será aberto em breve). A perpspectiva é abrir novas sessões no ano que vem, como o Cineclubinho e outras. O cineclube está registrado e aguardando seu CNPJ, graças a uma economia discreta baseada nas taxas de associados e de manutenção que nos permitem até realizar pequenos investimentos. O quadro de associados sofreu várias mudanças, com a inadimplência de alguns (depois de 4 meses perdem provisoriamente os direitos) e a entrada de novos. Hoje o cineclube tem 16 associados em pleno direito e a maior parte deles participa efetivamente dos trabalhos e das decisões. Ficou para a próxima assemblei a a proposta de criação de uma nova categoria de sócio, o militante (hoje só há a de sócio contribuinte), que poderia ser dispensado de contribuição financeira em troca de trabalho. Também estamos deixando amadurecer a ideia de ajudas de custo para os que precisam responder por tarefas que implicam um comprometimento mais longo ou mais assíduo – este mês, por exemplo, temos 12 projeções.
Uma decisão importante e madura foi a de homenagearmos Juan Carlos Arch, militante histórico do cineclubismo latino-americano, secretário da Federação Internacional de Cineclubes para a nossa região e presidente da Federação Argentina. A partir de agora, a razão social completa do nosso cineclube é Cineclube Latino-Americano “Juan Carlos Arch”.

Começar de novo
Um manifesto cineclubista paulista

Crise
O cineclubismo vive uma crise muito séria no Brasil. Nos últimos anos experimentou uma trajetória de desorganização, que se tornou descaracterização, das práticas mais básicas do cineclubismo: o caráter associativo e democrático, a ausência de fins lucrativos, a autonomia em relação a poderes, interesses e instituições políticas, econômicas e outras.

Do ponto de vista institucional, o cineclubismo se desestruturou. As iniciativas para restabelecer sua organização, democracia e representatividade, em parte por não assumirem esta crise em toda a sua extensão e profundidade, mostram-se incertas e duvidosas. A convocação para um congresso de reorganização está infellizmente sendo feita com irregularidades que comprometem a democracia, a representatividade e a eficácia do encontro. Além disso, a um mês de sua realização, os recursos ainda são incertos, a comunicação quase inexistente, o debate ausente. Mas o mais grave é que, sob a cobertura de um discurso triunfalista que alardeia a existência de milhares de cineclubes no País, a grande maioria dessas supostas ações está inoperante ou se constitui de atividades de exibição que não são mais permanentes, sistemáticas, sustentáveis, participativas e comunitárias. Não são cineclubes: viraram empreendimentos, eventos, esporádicos, dependentes do patrocínio estatal ou privado (mas não da comunidade, dos associados).
Estas considerações poderiam se estender por várias páginas. Já foram objeto de discussão em diferentes espaços frequentados pelos cineclubistas. Não queremos mais polemizar, mas não cremos mais nessa via. Não queremos ser vistos como hostis e não cultivamos nenhuma desafeição pessoal aos que se empenham nessa Jornada. Nem pretendemos qualquer disputa ou paralelismo em relação a outras organizações ou reuniões. Mesmo sendo críticos e céticos, desejamos o melhor para todos que sinceramente procuram trabalhar com o cinema e o povo brasileiro – e com esses esperamos poder colaborar. Mas, diante do quadro aqui descrito, não queremos nem podemos participar dos encaminhamentos correntes.

Por um cineclubismo atuante, criativo e democrático:
Divertir, instruir, emancipar!

Esgotados os argumentos, é hora de atuar.  Crises são também oportunidades: o dicionário diz que são o momento decisivo que precede a evolução para a cura ou para a morte. Queremos, então, propor o aproveitamento desta oportunidade para relançar em São Paulo as bases de um cineclubismo atuante, criativo e democrático. Um cineclubismo cujo patrimônio centenário é principalmente sua capacidade de inventar e se renovar.

Assim, o que estamos propondo é a retomada sem presunção do trabalho realmente cineclubista, a colaboração desinteressada entre os cineclubes verdadeiramente atuantes, no quadro das tradições centenárias do cineclubismo – que incluem justamente a diversidade de formas dentro do associativismo democrático e a adaptação criativa aos novos contextos tecnológicos e culturais.

Propomos a constituição de um Círculo Paulista de Cineclubes, bastante informal, que identifique a situação real do cineclubismo paulista e facilite a organização de ações colaborativas entre os cineclubes participantes. Um fórum que se reunirá a intervalos definidos em cada reunião pelos participantes, que será coordenado por uma mesa diretora também eleita a cada reunião, sem necessidade de formalização legal ou maiores burocracias.

Mas, ao mesmo tempo, queremos garantir o caráter realmente cineclubista desse círculo, adotando os princípios organizativos e as práticas culturais que definem o cineclubismo e constituíram historicamente seu edifício institucional. Achamos indispensável a autenticidade e transparência da constituição e atividades dos participantes, sua permanência e sistematicidade. Um muito breve e simples regulamento pode orientar e organizar as reuniões.  Assim, para participar das reuniões com direito a voto e para desfrutar de eventuais benefícios obtidos pela ação comum, os cineclubes deverão, obrigatoriamente:

1)    Constituir-se como associações abertas, democráticas e sem fins lucrativos; sua direção e o conteúdo das diferentes atividades deve ser controlada pelos associados. Isto não implica necessariamente registro legal, mas a demonstração de que a estrutura e gestão são do conhecimento e têm o aval da comunidade em que o cineclube atua;

2)    A direção dos cineclubes, independentemente de sua construção formal, deve ser sujeita a avaliação, controle e escrutínio periódico pelos associados;

3)    Os cineclubes devem ter entre suas atividades a projeção aberta periódica e sistemática de filmes e/ou outros materiais audiovisuais com intervalos de, no máximo, 15 (quinze) dias;

4)    Os cineclubes não podem depender exclusivamente, para manutenção de suas atividades, de doações ou patrocínios, mas manter alguma forma permanente de sustentação por parte dos associados e da comunidade;

5)    Para participação plena nas reuniões, os cineclubes deverão demonstrar sua existência há pelo menos 6 (seis) meses anteriormente à reunião. Cineclubes em formação, ou outros que adiram explicitamente a estes 6 princípios, poderão assistir às reuniões com direito a voz, mas não a voto. Projetos e ações que beneficiem os membros do Círculo poderão ser estendidos a esses cineclubes, a critério da plenária;

6)    A interpretação ou adaptação desses princípios, bem como a aceitação de novos membros são responsabilidade e atribuição da plenária, decidida consensualmente ou por uma maioria de no mínimo 2 (dois) terços dos presentes. Um quórum poderá ser estabelecido após 3 reuniões de alcance estadual.

Perspectivas

Acreditamos que a reunião de cineclubes atuantes acarreta representatividade e força. Representatividade, que deriva da penetração do trabalho cineclubista nas comunidades – e portanto na sociedade -, nos permitirá estabelecer as bases para uma relação efetivamente democrática com diferentes instituições públicas e privadas. Já existem diversas propostas a serem avaliadas pelo Círculo visando a proposição a diferentes instâncias governamentais – ao invés do mero atendimento de editais – de projetos de consolidação e expansão do cineclubismo em nosso estado. Mas a união também traz a força, especialmente quando reúne entidades mais organizadas e atuantes. Por nossos próprios meios também podemos organizar uma série de iniciativas, como a constituição de um acervo de uso comum, uma divulgação mais estruturada e eficiente, a organização de cursos, publicações – entre outras idéias que devem ser apreciadas coletivamente.

Chamamos, então, os cineclubes constituídos segundo os princípios aqui enumerados, ou que a eles adiram, a subscreverem este manifesto e a juntarem-se a nós na organização de uma próxima primeira reunião do Círculo Paulista de Cineclubes – ou outro nome que se deliberar.

Cineclube Latino-Americano – São Paulo
Cineclube Darcy Ribeiro – São Paulo

Cineclube Aldire Pereira Guedes - Bauru
Cineclube Paratodos - Botucatu 

 

sábado, 7 de setembro de 2013


7 - Público e Militância
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Autoformação de público
Como já disse, o que tem sido maravilhoso no cineclube é a consolidação do seu papel mesmo, de alternativa para um modelo de cinema alienante e explorador. É visível e indiscutível que as pessoas que frequentam o cineclube se sentem bem, se sentem recompensadas, se sentem parte de alguma maneira e se identificam com o cineclube. Ele é um espaço diferenciado, que oferece e realiza uma outra relação entre o público e os filmes, entre o público e o fenômeno cinema em sua acepção mais ampla. E, considerando o pequeno público, também temos realizado a parte “latino-americana” do nosso programa: parte dos frequentadores já tornados sócios participantes são oriundos de países vizinhos.

Já estamos no quarto boletim – agora com a programação de agosto – que sempre traz breves apresentações dos filmes e uns dois textos sobre o tema do ciclo e sobre cineclubismo. Antes das sessões fazemos uma breve apresentação e agora inauguramos o mês com um primeiro debate que foi, a meu ver, muito legal. O debate do filme chileno Machuca durou uma hora e meia. E foi da estética do filme, sua narração e estilo, até a relação das manifestações de rua hoje no Brasil com a situação do Chile sob Pinochet. Se não no próximo sábado, no outro faremos os debates num espaço ao lado da sala, com um cafezinho, uma bebida típica da nossa região – uma boa cachaça, um tequila, um pisco, etc. -, refrescos e algum quitute.
Eu escrevi vários textos sobre a organização de cineclubes. Ao longo de uma experiência pessoal de já 4 décadas, consolidei uma proposta e modelo que penso ser um resumo também da experiência associativa e democrática destes cem anos de cineclubismo. No esquema abstrato, compus um modelo de círculos concêntricos em que os frequentadores vão passando das camadas mais externas para as mais internas: frequentadores se tornam sócios; sócios começam a participar de reuniões, trabalhos, assembléias, tornando-se, enfim, militantes e dirigentes do cineclube e do cineclubismo – e, nessa medida, revolucionários em suas comunidades e na sociedade. Um esquema. Dar vida a esse esquema, adaptá-lo à vida real e às pessoas reais é que é o grande desafio do cineclube, a prática do cineclubismo. E é um pouco o tema, o suco, deste blog.

Então, chegamos a um problema que creio estar se manifestando no cineclube, mais uma (relativa) crise que vejo, de fato, como oportunidade de aprendizado e superação: a questão da militância. Vamos pensar isso numa certa perspectiva. A assembléia de fundação do cineclube reuniu um número grande de pessoas que tinham alguma forma de interesse nessa nova idéia de cineclube no Memorial. Fora um núcleo de três ou quatro pessoas, na prática a maior parte delas não retornou ao cineclube, nem nas sessões nem em reuniões. Muitos têm outros compromissos e sua presença na fundação foi mais uma manifestação de endosso, de solidariedade, que qualquer outra coisa. Há que se reconhecer, porém, também, que um pouco da sua “consciência social” se sacia num ato breve de apoio. Um outro grupo de pessoas começou a se formar, justamente nesse processo que tenho descrito aqui: frequentadores se animaram e se tornaram sócios e passaram a se interessar e a querer opinar e contribuir na condução do cineclube. Só que a disponibilidade de praticamente todos – fora dois velhos cineclubistas “profissionais”, isto é, militantes, entre os quais me incluo - é quase nenhuma. Alguns têm um perfil mais profissional, e devem ver sua contribuição como um complemento numa vida já definida. Mas a maioria – como sempre acontece num contexto como o nosso – é de gente mais jovem, estudantes ou recém-formados, que parecem estar buscando um objetivo, um programa em que se engajar. Mas não o fazem... E aí eu me confesso bastante perplexo, diante de mudanças tão acentuadas no comportamento de uma geração para outra: da minha, mais ou menos dos anos 70 e 80, e a de hoje, fundamentalmente deste século e milênio.

Militância
Militantes são pessoas especiais, cuja sensibilidade leva a um compromisso social e político que ocupa a parte mais essencial de suas vidas. É fundamentalmente um compromisso ideológico e tem muito a ver com a origem social das pessoas. Mas não exclusivamente: a compreensão da realidade de exploração das pessoas e destruição do planeta também leva muita gente, por um imperativo de coerência, a se engajar nas lutas pela superação desta situação. Esse engajamento ético não muda muito essencialmente na história, acho, mas é certo que teve formas diferenciadas. Se pensamos apenas nos períodos mais recentes, em que as lutas pela liberdade se confundem praticamente com as do proletariado, vamos achar compromissos muito radicais no século XIX, quando as formas mais primitivas de anarquismo levavam ao sacrifíco pessoal e ao terrorismo como propaganda política (como hoje os extremistas religiosos). Do final do século XIX e durante o século seguinte, o engajamento não foi menos vital - no sentido de que representava uma ética de vida e um compromisso absoluto, com o sacrifício de todos os benefícios pessoais e laços afetivos duradouros, como a família -, mas tornou-se mais objetivo e organizado. Evitava-se o sacrifício menos produtivo, mas ele sempre continuou a existir.

De fato, a repressão também evoluiu nesse mesmo sentido: nas “democracias” modernas respeitam-se mais as liberdades individuais mas, sempre que o sistema é realmente ameaçado, elas são suspensas e a reação se exerce com toda a força bruta, como se pode ver em Guantânamo, Abu Ghraib, nos milhares de assassinatos feitos por naves não tripuladas, no cerco e punição de Julian Assange, Edward Snowden e mesmo do jovem Bradley Manning, para citar apenas os mais em evidência.
Militantes são pessoas especiais, uma bem pequena minoria. Mas parece que esse número caiu muito nos últimos tempos – embora, como eu disse acima, mantenha-se basicamente o mesmo tipo de negajamento, e de risco. Muita gente, falando do Brasil, julga que a razão disso está no fato de que já não temos um regime autoritário, de exceção. Poderíamos dizer que sua tese é de que há maior militância quando a repressão é maior; essa lógica me parece meio capenga. Mas esse ponto de vista também considera que quando há menos liberdade, mais gente se mobiliza. Isso parece mais razoável, mas não é. Certamente um maior número de pessoas fica insatisfeita quando as liberdades democráticas estão reduzidas, mas elas formam uma espécie de “caldo de descontentamento” que se manifesta justamente nas margens do possível: nas eleições, por exemplo, ou em grandes mobilizações de rua como foi a Campanha das Diretas no Brasil. Não creio que o número de militantes, aqueles que estavam expostos à tortura e morte, crescesse em número nessas circunstâncias. Outro argumento é o de que, na mesma época, houve grande agitação em todo o mundo, e o surgimento de muitos movimentos militantes também nos países que o senso comum considera mais democráticos, como a França, a Itália ou os Estados Unidos.

Não, a hipótese que mais me parece razoável é a do avanço da capacidade de convencimento, de formação de um consenso hegemônico (para usar termos de Antonio Gramsci) mais amplo e mais profundo, a partir da falência dos regimes de orientação variavelmente socialista – o “fim” das utopias - e o incrível avanço das tecnologias e técnicas de comunicação e de repressão. Quando, mais acima, eu disse que o engajamento – particularmente na passagem da hegemonia do anarquismo para o comunismo nos meios operários – tornou-se mais objetivo, referia-me ao reconhecimento da necessidade de organização, de acúmulo de experiências e de forças, que superaram uma concepção de sacrífíco pessoal que tangenciava o impulso suicida. A necessidade e o compromisso de mudar o mundo – e os sacrifícios implicados nisso - continuaram centrais e prioritários na vida dos militantes, mas esta vida mesma passou a ser considerada como patrimônio no arsenal de recursos do campo revolucionário. A dedicação à causa seguia em primeiro lugar, mas o militante tinha também direito a uma vida pessoal, amorosa, familiar... E isso passou a ser reconhecido mesmo como condição de equilíbrio na composição de uma concepção política mais afinada com a realidade.  
A grande diferença que vejo hoje é que essa militância passou, numa aparente grande maioria de casos, para um segundo plano. Os pretensos militantes consideram primordial suas sobrevivência, formação, carreira, conforto – e assim vai –, e o espaço para o engajamento passa a ser determinado pela disponibilidade oferecida nos intervalos de uma gama variável de interesses.

É óbvio que isso é uma contradição em seus termos, pois o compromisso em “mudar o mundo” só é colocado em prática “depois” dos diferentes níveis de compromisso com a reprodução desse mesmo mundo. E a militância se aproxima do hobby, do passatempo, disputando o tempo livre com outros compromissos e lazeres. Fenômeno evidentemente pequeno-burguês, no sentido de priorizar o sucesso social e econômico, penetra mais acentuadamente nas mais diversas faixas da juventude brasileira neste momento em que cresce a escolarização universitária e avança um pouco a renda geral. Corolário dessa situação é a tendência a chamar de classe média – eludindo sua condição proletária essencial – aos setores de renda familiar de cerca de um salário mínimo! Fenômeno aliás muito parecido com o que aconteceu nos EUA no começo do século XX e do cinema, com a aculturação dos imigrantes e a neutralização da consciência de classe do operariado.
Passei minha vida arranjando – e invariavelmente perdendo – trabalhos em função da possibilidade de poder manter minha militância em diferentes cineclubes, em diferentes momentos. Tal modo de vida não era raro de encontrar no movimento cineclubista até o final do século passado. Mas hoje são muito pouco(a)s a viverem essa concepção. E, para piorar, na “passagem” dessas gerações (que coincide com a democratização do país), na virada deste século, muitos dos velhos militantes, talvez fragilizados, vulnerabilizados pela idade, procuraram aquela segurança pessoal no sistema de cooptação que foi estabelecido em grande parte dos meios culturais e marcadamente no ambiente chamado de cineclubista, mas já no mucho...

A virtual falência do cineclubismo como movimento no Brasil, com a desorganização da sua entidade nacional e desagregação de grande número de atividades meio artificiais, mantidas e depois abandonadas por políticas governamentais de curto alcance, certamente contribuem para o desaparecimento da cultura cineclubista de onde pode, costuma brotar essa militância. A descaracterização e abandono das práticas cineclubistas – associativismo, sustentabilidade, independência – substituídas por uma espécie de voluntarismo remunerado ou, o que foi mais generalizado, pelo modelo empresarial ou “empreendedor”, mas também mantido pelo Estado, fere de morte não apenas a própria noção de militância como também a de enraizamento e representatividade nas comunidades. Nesse modelo, o público não reivindica; grupos especializados e restritos passam a atender às demandas do governo feitas através de editais
Talvez, para resolver “nosso” problema de militância, no cineclube, tenhamos que apelar, nos apoiar uma escala mais ampla, procurando outros cineclubes. Procurando criar um (novo) ambiente de cultura e militância cineclubista. Ou não?

sábado, 24 de agosto de 2013


6 – A experiência – e os problemas - evoluem

(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

 

Como acontece com todos os blogs que mantenho – eu ia dizer “tento manter” mas, apesar deste comentário, eles existem –, acabam passando às vezes semanas, meses, entre as postagens. Então, retomando nosso papo, o Cineclube Latino-Americano viveu mais dois meses – junho e julho –, acumulou diversas experências, conseguiu algumas vitórias, continua enfrentando problemas já detectados aqui e tem revelado novos. Finalmente, decidimos mudar o dia - e um pouco o modelo – de exibição.

Programação e divulgação

No final de junho terminamos o ciclo sobre os trabalhadores. Com o problema de divulgação, entre talvez outros, mantivemos uma média de perto de 10 pessoas por sessão, às vezes menos. Como acho que já comentei em outras postagens, o clima criado, de cineclube, é nossa grande vitória até aqui. Mas um público médio de 10 pessoas, considerando toda a nossa situação (abordada em outros textos aqui) é indiscutivelmente uma derrota.

Sinto que a  maior razão para isso é a falta de comunicação com o público. É revoltante que jornais como a Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, que mantêm uma página de “serviço” com todos os cinemas da metrópole – e uma rubrica “cineclubes” em ambos!! – não publique nossa programação. Mais que uma grande conspiração ideológica da imprensa burguesa contra um  cineclubismo potencialmente revolucionário (que, no entanto, certamente faz parte disso), vejo nesse fenômeno uma manifestação de um certo atavismo pequeno-burguês dos responsáveis por essas seções – e acessoriamente os editores dos cadernos de cultura – que usam seu poderzinho para estimular seus valores “culturais” subjetivos. Têm o pequeno poder de selecionar o que lhes apraz. Algo semelhante ao que acontece quando o Estado dá um uniforme e uma arma a um policial... Uma indicação dessa “esfera de poder” quase individualizada é que um outro jornal, menor, do grupo Folha, tem dado a nossa programação. O fato de – segundo me diz o pessoal da divulgação do cineclube –, num outro extremo, alguns saites não aceitarem divulgar programações pagas, mesmo a preços acessíveis, também me parece um paternalismo preconceituoso de quem não reflete na necessidade de iniciativas independentes precisarem se manter.

Mas não ficamos parados; é claro, e então nos voltamos mais para a internet. Eu acho que existe uma supervalorização muito grande desse meio. Para mim, ela é uma espécie do velho boca-a-boca turbinado: espalha com muita, maior eficiência, idéias, informações simples que já sejam do interesse das pessoas. Mas, evidentemente, não tem o condão de mobilizá-las. O buraco é bem mais embaixo. Com todo o trabalho que foi feito nestes três meses, nossa divulgação atinge alguns milhares de pessoas: a lista de correio (mailing list) do Memorial, diversas páginas do Facebook de associados – alguns com milhares de “amigos” -, a lista nacional dos cineclubes, a nossa própria lista... Mas não alterou significativamente a situação.

Uma fácil, rápida e muito equivocada tentativa de explicação para esse bloqueio de público seria a de que “hoje em dia tudo pode ser acessado em casa”, pelo Youtube e quejandos. É verdade, mas ninguém faz isso. Além das condições específicas da experiência em comum, da tela grande, do ambiente adequado, a verdade é que (quase) ninguém vê filmes como os da(s) programação(ões) do(s) cineclube(s).pela internet. De fato, me lembro de uma frase do Alain Bergala num debate: 99% do material postado no Youtube é visto apenas por um restrito círculo de dois ou três amigos do “realizador”. E de vez em quando postam lá um gatinho rolando a escada, uma gafe da Beyoncé, e tem 50 milhôes de acessos...

No mês de julho, somando essa questão com a oportunidade de parceria com o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, mudamos nossa programação: mantivemos as sessões às terças e quintas, mas eliminamos as duas quintas de abertura e encerramento do Festival (dias 11 e 18) e programamos filmes todos os dias do Festival (12 a 17) num horário alternativo. As sessões do Festival no Auditório do Memorial foram às 17, 19 e 21 horas; as nossas, às 20hs. Esta foi a programação:

Ciclo Fundadores do Cinema Latino-Americano

 

Dia 2 – Los Olvidados (1950), Luís Buñuel  – México.

Dia 4 – Barravento (1962), Glauber Rocha – Brasil.

Dia 9 – Cinco Vezes Favela (1962), Diversos – Brasil.

Dia 12 - 79 Primaveras – Santiago Álvarez (Cuba, 1967).

Dia 13 – La Hora de los Hornos (1968), Fernando Solanas e Octavio Getino – Argentina.

Dia 14 – A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos – Brasil.

Dia 15 – O Chacal de Nahueltoro (1969), Miguel Littín – Chile.

Dia 16 – Os Fuzis (1964), Ruy Guerra – Brasil.

Dia 17 – Yamar Maliku (O Sangue do Condor), (1969), Jorge Sanjinéz – Bolívia.

Dia 23 – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Tomás Gutierrez Alea – Cuba.

Dia 25 – A Tortura e Outras Formas de Diálogo (1968), Patrício Guzmán – Chile.

Dia 30 – Maioria Absoluta (1963), Leon Hirszman; Viramundo (1965), Geraldo Sarno, e Liberdade de Imprensa (1967), João Batista de Andrade – Brasil.

Sem fazer parte exatamente do Festival, que se concentra em filmes contemporâneos, nosso ciclo pretendeu dar uma visão geral dos grandes nomes que trouxeram à baila a própria idéia de uma identidade comum do cinema realizado em nosso sub-continente. Nossa parceria incluiu ainda a comemoração do centenário do cineclubismo – a que voltaremos – e a realização de uma oficina de formação cineclubista para os frequentadores do Festival. Também cedemos nossa sala para projeções e debates feitos pela ABD de São Paulo em comemoração-reflexão sobre os 40 anos da entidade.

Até o dia 12 a situação continuou igual, mas a partir do início do Festival nosso público cresceu significativamente. Chegamos a ter sessões com mais de 50 pessoas. Não sei se foi uma maior exposição na mídia que tivemos na carona do Festival ou o fato de que passamos a contar com um luminoso emprestado pelo Memorial, uma espécie de fachada luminosa que dirigimos para a entrada do Auditório, anunciando nossa programação – o painel é programável - de cada dia. Durante os 6 dias do Festival também não cobramos, pois o Festival é gratuito, mas isso certamente não foi decisivo fora daquele contexto porque as pessoas que voltaram depois nunca reclamaram da nossa pequena taxa de manutenção. Passado o Festival voltamos a desaparecer dos jornais já citados e o público refluiu para nossa média anterior.

Em vista dessa experiência, o cineclube decidiu passar as sessões para os sábados às 17hs. Também resolveu diminuir o número de sessões, limitando a um filme por sábado. Fui voto vencido, por estreita margem: ainda acho que devíamos passar dois filmes – por exemplo, às 16 e 18h. A grande vantagem do horário do sábado é que agora poderemos fazer um bom debate após as projeções. Começando às 20hs durante nas terças e quintas só fazíamos uma apresentação inicial, de uns dez minutos, pois não dava para ficar até tarde durante a semana. Por outro lado, na minha opinião, um único filme por semana – considerando todas as facilidades que temos no Memorial – vai empobrecer a abordagem dos temas em ciclos, ou então prolongar os ciclos por dois ou mais meses...

Essa questão toda do público é muito particular do nosso caso, que temos que buscar um público genérico numa cidade muito diversa e competitiva. Numa cidade do interior o cineclube teria pouca “concorrência” e uma quase natural acolhida da imprensa – além de poder cercar os principais pontos de visibilidade locais. Num cineclube de bairro pode-se chegar nas pessoas até com filipetas embaixo da porta. Nos dois casos as pessoas têm mais contato, se conhecem mais. Ter São Paulo como desafio não é mole, mas esse desafio está à nossa altura, e nós à dele.

Parênteses: o centenário do cineclubismo

No domingo, dia 14 de julho (da queda da Bastilha e início da Revolução Francesa), o Festival apresentou uma sessão montada conjuntamente conosco em homenagem ao centenário do cineclubismo. Como representante do cineclube e curador do Festival, ponderei que não adiantaria fazer uma mesa redonda para debater o tema, pois na condição atual do cineclubismo, não haveria quadros para compor esse debate. Seria, para variar, uma mesa de cineastas falando sobre cineclubismo. Preferi fazermos um ato voltado fundamentalmente para o público: uma sessão ao ar livre do filme produzido pelo primeiro cineclube: A Comuna, realizado pela cooperativa Cinema do Povo em 1914. Foi proposto ao grupo afro e feminino de percussão Ilú Obá de Min sonorizar essa experiência. Foi um, senão o momento de maior significação e impacto do Festival. Entre 500 e 600 pessoas se juntaram para provavelmente terem um primeiro contato com a própria idéia do cineclubismo como organização do público e sua força centenária. Muito otimismo talvez... Mas de qualquer forma foi um sucesso muito grande, uma experiência empolgante e comovedora que certamente marcou a memória dos participantes e a história do Festival.