sábado, 22 de fevereiro de 2014

9 - Teoria e prática
(as inserções são numeradas por ordem crescente da data em que foram escritas)

Bom humor

      Minhas últimas postagens neste “diário” tão bissexto refletiam uma certa expectativa, um pouco de angústia com toda a questão da formação de quadros cineclubistas, de comprometimento dos frequentadores e participantes do cineclube com a atividade. Essa ansiedade, de fato, tinha a ver com as minhas convicções mais profundas sobre o cineclubismo e também com o grande isolamento a que elas me levaram dentro do que hoje se autodenomina movimento cineclubista no Brasil – e que cada vez é menos movimento e menos cineclubista.

    Os últimos acontecimentos na esfera do nosso cineclube, no entanto, mudaram profundamente tudo isso. Duas frases, particularmente, mudaram minha disposição pessoal (porque a realidade foi mudada pelos acontecimentos de que falo a seguir) para muito melhor. A Maureen Bisiliat, artista de renome internacional hoje meio aposentada do Memorial mas sempre engajada com o trabalho cultural – e atenta para o cineclube que se instalou no espaço que ela criou, o Pavilhão da Criatividade -, mesmo sem ter um envolvimento mais profundo com a nossa atividade, sacou tudo: - “Vocês estão construindo uma versão contemporânea de uma idéia centenária”, foi o que ela disse, mais ou menos. Já o Frank, este sim cineclubista de quatro costados e informado sobre as lides desse movimento, além de velho amigo, me disse: - “Isso está comprovando a sua teoria”. E explicou: “Teoria no sentido científico mesmo, que se comprova na experiência concreta.” Teoria cineclubista, uai. E que não é “minha”, mas que, como foi “oportunamente” jogada para escanteio pelas lideranças dos últimos anos, está um pouco identificada com a minha “intransigência”.

       Resolvi acreditar nos dois. Minha luta de 40 anos no cineclubismo, tal como meu afastamento das últimas direções – que penso terem praticamente destruído o cineclubismo brasileiro – e minha dedicação, neste último ano, à construção do que penso ser um verdadeiro cineclube são todas atitudes derivadas de uma concepção de cineclubismo que, como prática política e cultural, é tarefa bem árdua. E que, face à crise do movimento, que tenho denunciado, tornou-se também bastante solitária – isto é, em relação aos porta-vozes desse fac-símile de cineclubismo que estertora em círculos cada vez mais restritos mas que ainda estrebucha, vez por outra, graças ao reconhecimento de uma estrutura governamental que pouco ou nada lhes fica a dever. Dito de maneira mais simples, as muitas dificuldades da prática cineclubista cotidiana leva(va)m a essa ansiedade, a uma certa insegurança, incerteza. Sinto que esse era o tom e a sensação das entradas anteriores deste diário. Mas as frases citadas, justamente, e a realidade que descrevem, desmancharam esse clima. E também me  ajudaram a compreender mais coisas.

       Nos últimos anos, que coincidem com minha denúncia dos descaminhos do cineclubismo, mais ou menos a partir de 2007, perdi várias amizades velhas de décadas e sempre em meio ao debate de questões cineclubistas. Hoje penso que o meu radicalismo, esta qualidade que cultivo, foi sempre a razão desses rompimentos. Meu apego à sustentação pelo público, à crença na capacidade crítica do público levaram essas amizades a murcharem e ao afastamento dos amigos que não queriam correr o risco de basear e sustentar projetos e cineclubes na adesão e comparecimento do público – preferiram o patrocínio privado ou o favor público -, assim como não acreditavam na capacidade criativa desse público, adotando os modelos mais rápidos da tutela, da curadoria, da alfabetização do espectador, da formação de plateia. Não sei se 20, 30 anos de luta os cansaram, se a idade os fragilizou, ou se o cinismo é uma espécie de doença senil, pois estes, mais antigos, no fundo sabem que estão traindo suas concepções e ideais forjados nos tempos da luta contra a Ditadura. Porque os mais jovens, a última geração de uma certa “política do cineclubismo”, por sua formação mesmo, nunca compreenderam ou acreditaram no público, nem nunca foram público; representam a postura autoral e proprietária de uma pequeno-burguesia que se vê produtora de filmes mas aparentemente não tem talento para romper as barreiras que sempre tolheram o cinema brasileiro – e que sempre foram rompidas, ao menos em parte, onde havia talento – e percebeu num cineclube emasculado, na plateia tutelada, a possibilidade de exibir seus filmes por decreto, os mesmo decretos que sustentam artificialmente sua produção. Mas para todos eles, velhos antigos e velhos novos, o radicalismo que defendo é irrealista, ingênuo (para alguns é perigoso, comunista e até ateu). Ironicamente, sou seu melhor teórico – como vários deles gostam de dizer em público – mas, na prática, um derrotado. No fundo, não têm teórico nem teoria, apegam-se ao discurso que possam aproveitar para justificar as “oportunidades” a que se atiram. E o mais trágico é que, na verdade, somos todos derrotados, face ao capitalismo dominante. Mas mais derrotados são os que se iludem com os afagos da dominação e da alienação (que depois de alguns meses deixa(ra)m de existir) ou pior, apenas tentam se aproveitar deles.

A contemporanização da experiência centenária

         Nosso cineclube vinha nessa luta pela consolidação do seu caráter associativo, da incorporação efetiva da sua comunidade, seu público, como direção da atividade cineclubista. Dava passos adiante e passos atrás; a evolução, como disse mais atrás, era incerta, especialmente no (meu) plano subjetivo. Mesmo assim já estávamos com umas 10 pessoas participando das reuniões de trabalho, que envolviam toda a gestão do cineclube. Isso em janeiro, depois de cerca de um mês de interrupção de nossas atividades em meados de dezembro. Nisso há também que se consignar e considerar o incêndio do grande Auditório Simón Bolívar que, mesmo sem atingir diretamente o cineclube, levou toda a instituição do Memorial a uma reorganização de urgência.

           Em minha postagem anterior eu discutia as opções de atrairmos mais militantes pela politização do nosso projeto – isto é, no diálogo político com outros cineclubes – e/ou pela ampliação de nossas atividades, cobrindo uma gama maior de interesses e, portanto, de interessados. Foi nesse clima que publicamos em nossa página no Facebook uma chamada de voluntários interessados em participar do cineclube. E bum!, a coisa estourou! Foram mais de 20 candidaturas no primeiro dia, 40 na primeira semana. O ritmo caiu, mas ainda temos – cerca de um mês depois - pelo menos um contato por dia. Foi uma revolução, um salto quantitativo e qualitativo na organização do cineclube. E a descoberta de uma forma de articulação da proposta cineclubista politicamente centenária, mas atualíssima, com um modo de comunicação e mobilização contemporâneo. Em que constituiu esse salto?

             Rapidamente, para garantir a adesão dos interessados, marcamos uma reunião de apresentação do projeto do cineclube. Na verdade foram duas, dois sábados seguidos; com cerca de 30 participantes. A apresentação foi feita com a projeção de um curta metragem com entrevistas de cineclubistas de várias partes do mundo – um aquecimento motivador – e uma exposição ilustrada por um dispositivo visual (PPT). Apresentamos o projeto do cineclube, seu caráter associativo e democrático, e seus objetivos principais: recuperar a experiência cineclubista neste momento de falência dos valores cineclubistas (associativismo, democracia, independência, sustentabilidade) e, através dessa forma de organização do público, apropriarmo-nos de todos os aspectos (história, linguagem, memória, criação) do cinema e do audiovisual, com ênfase no conhecimento do cinema latino-americano (do qual o cinema brasileiro, obviamente, faz parte). Mostramos que essa forma de organização se articula através de comissões e assembleias, e aí colocamos em detalhe as comissões que precisamos organizar neste momento, os horários de trabalho efetivo nas sessões e de contribuição nos instrumentos de divulgação e debate. Enfatizamos o compromisso cineclubista – cineclube não é hobby, mas ação cultural e política – ao mesmo tempo em que abrimos a possibilidade de adotarmos alguma ajuda de custo, pequena, para ajudar no transporte e alimentação das pessoas que precisassem.

            As pessoas que vieram tinham bastante em comum: faixa etária entre 20 e 30 e poucos anos; uma maioria de universitários, sendo alguns recém-formados. Também havia substância no interesse delas: muitas tinham cursos ou oficinas de cinema ou cineclubismo; algumas trabalhavam com audiovisual; outras, com outra formação, queriam muito entrar na área do cinema. E muitas tinham um interesse claro no cineclubismo mesmo. Nas duas reuniões distribuímos uma espécie de questionário indagando sobre seus interesses, em que setor queriam colaborar – considerando a apresentação que haviam assistido – quantas horas podiam dar ao cineclube. A partir da tabulação dessa enquete tínhamos um quadro inicial de que comissões – com base tanto no interesse quanto na disponibilidade real – poderíamos criar, que gama de atividades o cineclube poderia abarcar.

            Além das que vieram nas reuniões, outras pessoas foram contatadas por email ou telefone, e outras ainda foram trazidas por aquelas. Na semana seguinte fizemos a reunião de trabalho em que estabelecemos as comissões concretas, elegemos seus relatores (que se reúnem com a diretoria – no processo que se segue, tendem a ser a diretoria - para coordenar o conjunto do cineclube), definimos dias e horários de reuniões das novas comissões formadas. Nessa reunião de trabalho estavam cerca de 30 pessoas, sendo que mais algumas que não puderam comparecer estavam em contato e aderiram a diferentes comissões. As comissões são abertas e as pessoas continuam chegando (assim como algumas possivelmente vão se afastar).

           Até então, apenas uma pessoa pediu a ajuda de custo que citei mais acima. No caso, é alguém que se envolveu em várias frentes de trabalho e realmente gastaria uma quantia mais ou menos importante no transporte várias vezes por semana e na alimentação de que precisaria por ficar muitas horas no cineclube. Estas questões levam a alguns comentários importantes. Primeiro: o cineclube dispõe de uma pequena reserva porque seus associados e frequentadores pagam uma contribuição pela sua participação. Por isso pudemos pagar nossos registros legais, publicar um boletim bem simples mas importantíssimo e outras pequenas despesas. Agora, com a ampliação das atividades, funcionando 5 dias por semana, as despesas – e, esperamos, as receitas, aumentarão. Segundo: o cinelube tem apenas uma categoria de sócio, o sócio contribuinte, que paga uma pequena taxa mensal e tem acesso livre a todas as nossas atividades (o público não associado paga uma taxa de manutenção de R$ 5,00 para entrar em cada sessão – nos poucos casos em que a pessoa não pode pagar, entra assim mesmo). Esta participação financeira já representa um reconhecimento, uma adesão básica ao cineclube. Mas agora, com esse salto organizativo, o envolvimento de um número grande de militantes (é o nome certo para o “voluntário” cineclubista) e a ampliação das atividades, as coisas mudaram. Assim, vamos propor a criação de uma nova categoria de associado, a do sócio militante, cuja contribuição não é financeira, mas consiste na dedicação de um certo número de horas por semana de participação nas atividades do cineclube. Isso leva ao terceiro comentário importante: as pessoas não vêm trabalhar voluntariamente para o cineclube (como acontece em muitos eventos); serão associadas e concretamente dirigentes da ação cultural em que militam: no seu, no nosso cineclube.

E quando o público se organiza...

             Assim, o cineclube tem hoje 5 comissões de trabalho ( com uma média de 8 participantes) e 3 grupos de estudo (várias pessoas participam de mais de uma atividade), e um corpo militante de mais de 30 pessoas. Mas, mais que isso, criou-se uma “massa crítica”, um núcleo de participação que mesmo sofrendo perdas, também tende a se renovar, em parte pelo número relativamente elevado “de base”, mas principalmente pela auto realização das pessoas nas diferentes atividades. Um outro aspecto interessantíssimo das últimas reuniões é que as pessoas têm diversas “especialidades” (músicos, psicólogos, professores, jornalistas, estudantes e técnicos de audiovisual, de informática e muitos outros talentos), diversos saberes que modificam e enriquecem as atividades em que vão participar – e, nessa mesma medida, trazem um sentido de realização pessoal para os participantes.

               Se considerarmos que nossa sala tem cerca de 75 lugares, as mais de 30 pessoas que efetivamente participam do trabalho do cineclube já representam em grande parte a realização do objetivo, antes meio abstrato, do “público organizado”. Pois o cineclube se torna o ponto de encontro dessa galera, local de partilha com seus círculos de amigos. A comunidade que o cineclube representa torna-se realidade concreta!

          Além da sala simpática que o Memorial nos cede, abriremos finalmente nosso barzinho e espaço de convivência (que está ficando lindo). De fato, uma das comissões é justamente a da festa de inauguração desse espaço, que depois se tornará a Comissão do bar. Além dessa, temos as duas comissões que cuidam, uma do Boletim impresso, outra da Comunicação, que abrange saite, facebook, essas coisas... A partir de março o cineclube terá 5 sessões semanais, cada uma com um tema. Às quartas-feiras teremos a sessão Gosma Verde, sugestivo tema que engloba o trash, o kitsch, o filme b, as artes marciais, a ficção científica, a pornochanchada, enfim, o que os anglófonos chamam de exploitation film. Nas quintas, a programação fica por conta do Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano, uma “comissão” que se juntou ao cineclube com um propósito de debate mais preciso, acadêmico sem ser excludente: serão ciclos baseados em trabalhos dos membros do grupo, sempre com debate. Esse trabalho também será feito com professores das escolas da região do Memorial. As sextas serão do Cinema Mudo e, pelo menos uma vez por mês, teremos música ao vivo acompanhando os filmes. Aos sábados o tema do ciclo será definido a cada ocasião pela comissão de Programação. E aos domingos, matinê com o Cineclubinho. A comissão de Programação cuidará de várias sessões temáticas, exceto a das quintas e as do Cineclubinho que, pela especificidade do trabalho, com muitas atividades de animação, tem também uma comissão própria. De fato, creio que há uma tendência para a divisão da comissão de Programação em torno de seus temas, pois o interesse maior de algumas pessoas e a própria capacidade de aprofundamento dos assuntos – que evolui com a prática – torna as reuniões mais especializadas e mesmo mais longas. Além dessas, o S.E.R.I.O é outra comissão organizada como grupo de estudos, voltado para a discussão sobre roteiros. E uma comissão Movimento Cineclubista – a maior, com 14 participantes – será espaço de estudo e mobilização em prol do fortalecimento do cineclubismo. Em princípio será o laboratório de organização de um verdadeiro curso de formação de dirigentes cineclubistas, não uma rápida oficina, mas um trabalho de pesquisa e formação em profundidade, um pouco como foi o “clássico” curso de que emprestei o nome, realizado por Paulo Emílio, Carlos Vieira, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet e muitos outros, na Cinemateca, em 1958. Mas também estamos organizando um espaço de intercâmbio variado com outros cineclubes do estado, como escrevi na postagem anterior neste diário.