7 - Público
e Militância
Autoformação de público
Como já disse,
o que tem sido maravilhoso no cineclube é a consolidação do seu papel mesmo, de
alternativa para um modelo de cinema alienante e explorador. É visível e
indiscutível que as pessoas que frequentam o cineclube se sentem bem, se sentem
recompensadas, se sentem parte de alguma maneira e se identificam com o
cineclube. Ele é um espaço diferenciado, que oferece e realiza uma outra
relação entre o público e os filmes, entre o público e o fenômeno cinema em sua
acepção mais ampla. E, considerando o pequeno público, também temos realizado a
parte “latino-americana” do nosso programa: parte dos frequentadores já
tornados sócios participantes são oriundos de países vizinhos.
Já estamos no
quarto boletim – agora com a programação de agosto – que sempre traz breves
apresentações dos filmes e uns dois textos sobre o tema do ciclo e sobre
cineclubismo. Antes das sessões fazemos uma breve apresentação e agora inauguramos
o mês com um primeiro debate que foi, a meu ver, muito legal. O debate do filme
chileno Machuca durou uma hora e
meia. E foi da estética do filme, sua narração e estilo, até a relação das
manifestações de rua hoje no Brasil com a situação do Chile sob Pinochet. Se
não no próximo sábado, no outro faremos os debates num espaço ao lado da sala,
com um cafezinho, uma bebida típica da nossa região – uma boa cachaça, um
tequila, um pisco, etc. -, refrescos e algum quitute.
Eu escrevi
vários textos sobre a organização de cineclubes. Ao longo de uma experiência
pessoal de já 4 décadas, consolidei uma proposta e modelo que penso ser um
resumo também da experiência associativa e democrática destes cem anos de
cineclubismo. No esquema abstrato, compus um modelo de círculos concêntricos em
que os frequentadores vão passando das camadas mais externas para as mais
internas: frequentadores se tornam sócios; sócios começam a participar de
reuniões, trabalhos, assembléias, tornando-se, enfim, militantes e dirigentes
do cineclube e do cineclubismo – e, nessa medida, revolucionários em suas
comunidades e na sociedade. Um esquema. Dar vida a esse esquema, adaptá-lo à
vida real e às pessoas reais é que é o grande desafio do cineclube, a prática
do cineclubismo. E é um pouco o tema, o suco, deste blog.
Então,
chegamos a um problema que creio estar se manifestando no cineclube, mais uma
(relativa) crise que vejo, de fato, como oportunidade de aprendizado e
superação: a questão da militância. Vamos pensar isso numa certa perspectiva. A
assembléia de fundação do cineclube reuniu um número grande de pessoas que
tinham alguma forma de interesse nessa nova idéia de cineclube no Memorial.
Fora um núcleo de três ou quatro pessoas, na prática a maior parte delas não
retornou ao cineclube, nem nas sessões nem em reuniões. Muitos têm outros
compromissos e sua presença na fundação foi mais uma manifestação de endosso,
de solidariedade, que qualquer outra coisa. Há que se reconhecer, porém, também,
que um pouco da sua “consciência social” se sacia num ato breve de apoio. Um
outro grupo de pessoas começou a se formar, justamente nesse processo que tenho
descrito aqui: frequentadores se animaram e se tornaram sócios e passaram a se
interessar e a querer opinar e contribuir na condução do cineclube. Só que a
disponibilidade de praticamente todos – fora dois velhos cineclubistas
“profissionais”, isto é, militantes, entre os quais me incluo - é quase
nenhuma. Alguns têm um perfil mais profissional, e devem ver sua contribuição
como um complemento numa vida já definida. Mas a maioria – como sempre acontece
num contexto como o nosso – é de gente mais jovem, estudantes ou
recém-formados, que parecem estar buscando um objetivo, um programa em que se
engajar. Mas não o fazem... E aí eu me confesso bastante perplexo, diante de
mudanças tão acentuadas no comportamento de uma geração para outra: da minha,
mais ou menos dos anos 70 e 80, e a de hoje, fundamentalmente deste século e
milênio.
Militância
Militantes são
pessoas especiais, cuja sensibilidade leva a um compromisso social e político
que ocupa a parte mais essencial de suas vidas. É fundamentalmente um
compromisso ideológico e tem muito a ver com a origem social das pessoas. Mas
não exclusivamente: a compreensão da realidade de exploração das pessoas e
destruição do planeta também leva muita gente, por um imperativo de coerência,
a se engajar nas lutas pela superação desta situação. Esse engajamento ético
não muda muito essencialmente na história, acho, mas é certo que teve formas
diferenciadas. Se pensamos apenas nos períodos mais recentes, em que as lutas
pela liberdade se confundem praticamente com as do proletariado, vamos achar
compromissos muito radicais no século XIX, quando as formas mais primitivas de
anarquismo levavam ao sacrifíco pessoal e ao terrorismo como propaganda
política (como hoje os extremistas religiosos). Do final do século XIX e
durante o século seguinte, o engajamento não foi menos vital - no sentido de
que representava uma ética de vida e um compromisso absoluto, com o sacrifício
de todos os benefícios pessoais e laços afetivos duradouros, como a família -,
mas tornou-se mais objetivo e organizado. Evitava-se o sacrifício menos
produtivo, mas ele sempre continuou a existir.
De fato, a
repressão também evoluiu nesse mesmo sentido: nas “democracias” modernas respeitam-se
mais as liberdades individuais mas, sempre que o sistema é realmente ameaçado,
elas são suspensas e a reação se exerce com toda a força bruta, como se pode
ver em Guantânamo, Abu Ghraib, nos milhares de assassinatos feitos por naves
não tripuladas, no cerco e punição de Julian Assange, Edward Snowden e mesmo do
jovem Bradley Manning, para citar apenas os mais em evidência.
Militantes são
pessoas especiais, uma bem pequena minoria. Mas parece que esse número caiu
muito nos últimos tempos – embora, como eu disse acima, mantenha-se basicamente
o mesmo tipo de negajamento, e de risco. Muita gente, falando do Brasil, julga
que a razão disso está no fato de que já não temos um regime autoritário, de
exceção. Poderíamos dizer que sua tese é de que há maior militância quando a
repressão é maior; essa lógica me parece meio capenga. Mas esse ponto de vista
também considera que quando há menos liberdade, mais gente se mobiliza. Isso
parece mais razoável, mas não é. Certamente um maior número de pessoas fica
insatisfeita quando as liberdades democráticas estão reduzidas, mas elas formam
uma espécie de “caldo de descontentamento” que se manifesta justamente nas
margens do possível: nas eleições, por exemplo, ou em grandes mobilizações de
rua como foi a Campanha das Diretas no Brasil. Não creio que o número de
militantes, aqueles que estavam expostos à tortura e morte, crescesse em número
nessas circunstâncias. Outro argumento é o de que, na mesma época, houve grande
agitação em todo o mundo, e o surgimento de muitos movimentos militantes também
nos países que o senso comum considera mais democráticos, como a França, a
Itália ou os Estados Unidos.
Não, a
hipótese que mais me parece razoável é a do avanço da capacidade de
convencimento, de formação de um consenso hegemônico (para usar termos de
Antonio Gramsci) mais amplo e mais profundo, a partir da falência dos regimes
de orientação variavelmente socialista – o “fim” das utopias - e o incrível
avanço das tecnologias e técnicas de comunicação e de repressão. Quando, mais
acima, eu disse que o engajamento – particularmente na passagem da hegemonia do
anarquismo para o comunismo nos meios operários – tornou-se mais objetivo,
referia-me ao reconhecimento da necessidade de organização, de acúmulo de
experiências e de forças, que superaram uma concepção de sacrífíco pessoal que
tangenciava o impulso suicida. A necessidade e o compromisso de mudar o mundo –
e os sacrifícios implicados nisso - continuaram centrais e prioritários na vida
dos militantes, mas esta vida mesma passou a ser considerada como patrimônio no
arsenal de recursos do campo revolucionário. A dedicação à causa seguia em
primeiro lugar, mas o militante tinha também direito a uma vida pessoal,
amorosa, familiar... E isso passou a ser reconhecido mesmo como condição de equilíbrio
na composição de uma concepção política mais afinada com a realidade.
A grande
diferença que vejo hoje é que essa militância passou, numa aparente grande
maioria de casos, para um segundo plano. Os pretensos militantes consideram
primordial suas sobrevivência, formação, carreira, conforto – e assim vai –, e o
espaço para o engajamento passa a ser determinado pela disponibilidade
oferecida nos intervalos de uma gama variável de interesses.
É óbvio que
isso é uma contradição em seus termos, pois o compromisso em “mudar o mundo” só
é colocado em prática “depois” dos diferentes níveis de compromisso com a
reprodução desse mesmo mundo. E a militância se aproxima do hobby, do passatempo, disputando o tempo
livre com outros compromissos e lazeres. Fenômeno evidentemente
pequeno-burguês, no sentido de priorizar o sucesso social e econômico, penetra
mais acentuadamente nas mais diversas faixas da juventude brasileira neste
momento em que cresce a escolarização universitária e avança um pouco a renda
geral. Corolário dessa situação é a tendência a chamar de classe média –
eludindo sua condição proletária essencial – aos setores de renda familiar de
cerca de um salário mínimo! Fenômeno aliás muito parecido com o que aconteceu
nos EUA no começo do século XX e do cinema, com a aculturação dos imigrantes e
a neutralização da consciência de classe do operariado.
Passei minha
vida arranjando – e invariavelmente perdendo – trabalhos em função da
possibilidade de poder manter minha militância em diferentes cineclubes, em
diferentes momentos. Tal modo de vida não era raro de encontrar no movimento
cineclubista até o final do século passado. Mas hoje são muito pouco(a)s a
viverem essa concepção. E, para piorar, na “passagem” dessas gerações (que
coincide com a democratização do país), na virada deste século, muitos dos
velhos militantes, talvez fragilizados, vulnerabilizados pela idade, procuraram
aquela segurança pessoal no sistema de cooptação que foi estabelecido em grande
parte dos meios culturais e marcadamente no ambiente chamado de cineclubista,
mas já no mucho...
A virtual falência
do cineclubismo como movimento no Brasil, com a desorganização da sua entidade
nacional e desagregação de grande número de atividades meio artificiais,
mantidas e depois abandonadas por políticas governamentais de curto alcance,
certamente contribuem para o desaparecimento da cultura cineclubista de onde
pode, costuma brotar essa militância. A descaracterização e abandono das
práticas cineclubistas – associativismo, sustentabilidade, independência –
substituídas por uma espécie de voluntarismo remunerado ou, o que foi mais
generalizado, pelo modelo empresarial ou “empreendedor”, mas também mantido
pelo Estado, fere de morte não apenas a própria noção de militância como também
a de enraizamento e representatividade nas comunidades. Nesse modelo, o público
não reivindica; grupos especializados e restritos passam a atender às demandas
do governo feitas através de editais
Talvez, para
resolver “nosso” problema de militância, no cineclube, tenhamos que apelar, nos
apoiar uma escala mais ampla, procurando outros cineclubes. Procurando criar um
(novo) ambiente de cultura e militância cineclubista. Ou não?