sábado, 7 de setembro de 2013


7 - Público e Militância
(as inserções são numeradas por ordem de data em que foram escritas)

Autoformação de público
Como já disse, o que tem sido maravilhoso no cineclube é a consolidação do seu papel mesmo, de alternativa para um modelo de cinema alienante e explorador. É visível e indiscutível que as pessoas que frequentam o cineclube se sentem bem, se sentem recompensadas, se sentem parte de alguma maneira e se identificam com o cineclube. Ele é um espaço diferenciado, que oferece e realiza uma outra relação entre o público e os filmes, entre o público e o fenômeno cinema em sua acepção mais ampla. E, considerando o pequeno público, também temos realizado a parte “latino-americana” do nosso programa: parte dos frequentadores já tornados sócios participantes são oriundos de países vizinhos.

Já estamos no quarto boletim – agora com a programação de agosto – que sempre traz breves apresentações dos filmes e uns dois textos sobre o tema do ciclo e sobre cineclubismo. Antes das sessões fazemos uma breve apresentação e agora inauguramos o mês com um primeiro debate que foi, a meu ver, muito legal. O debate do filme chileno Machuca durou uma hora e meia. E foi da estética do filme, sua narração e estilo, até a relação das manifestações de rua hoje no Brasil com a situação do Chile sob Pinochet. Se não no próximo sábado, no outro faremos os debates num espaço ao lado da sala, com um cafezinho, uma bebida típica da nossa região – uma boa cachaça, um tequila, um pisco, etc. -, refrescos e algum quitute.
Eu escrevi vários textos sobre a organização de cineclubes. Ao longo de uma experiência pessoal de já 4 décadas, consolidei uma proposta e modelo que penso ser um resumo também da experiência associativa e democrática destes cem anos de cineclubismo. No esquema abstrato, compus um modelo de círculos concêntricos em que os frequentadores vão passando das camadas mais externas para as mais internas: frequentadores se tornam sócios; sócios começam a participar de reuniões, trabalhos, assembléias, tornando-se, enfim, militantes e dirigentes do cineclube e do cineclubismo – e, nessa medida, revolucionários em suas comunidades e na sociedade. Um esquema. Dar vida a esse esquema, adaptá-lo à vida real e às pessoas reais é que é o grande desafio do cineclube, a prática do cineclubismo. E é um pouco o tema, o suco, deste blog.

Então, chegamos a um problema que creio estar se manifestando no cineclube, mais uma (relativa) crise que vejo, de fato, como oportunidade de aprendizado e superação: a questão da militância. Vamos pensar isso numa certa perspectiva. A assembléia de fundação do cineclube reuniu um número grande de pessoas que tinham alguma forma de interesse nessa nova idéia de cineclube no Memorial. Fora um núcleo de três ou quatro pessoas, na prática a maior parte delas não retornou ao cineclube, nem nas sessões nem em reuniões. Muitos têm outros compromissos e sua presença na fundação foi mais uma manifestação de endosso, de solidariedade, que qualquer outra coisa. Há que se reconhecer, porém, também, que um pouco da sua “consciência social” se sacia num ato breve de apoio. Um outro grupo de pessoas começou a se formar, justamente nesse processo que tenho descrito aqui: frequentadores se animaram e se tornaram sócios e passaram a se interessar e a querer opinar e contribuir na condução do cineclube. Só que a disponibilidade de praticamente todos – fora dois velhos cineclubistas “profissionais”, isto é, militantes, entre os quais me incluo - é quase nenhuma. Alguns têm um perfil mais profissional, e devem ver sua contribuição como um complemento numa vida já definida. Mas a maioria – como sempre acontece num contexto como o nosso – é de gente mais jovem, estudantes ou recém-formados, que parecem estar buscando um objetivo, um programa em que se engajar. Mas não o fazem... E aí eu me confesso bastante perplexo, diante de mudanças tão acentuadas no comportamento de uma geração para outra: da minha, mais ou menos dos anos 70 e 80, e a de hoje, fundamentalmente deste século e milênio.

Militância
Militantes são pessoas especiais, cuja sensibilidade leva a um compromisso social e político que ocupa a parte mais essencial de suas vidas. É fundamentalmente um compromisso ideológico e tem muito a ver com a origem social das pessoas. Mas não exclusivamente: a compreensão da realidade de exploração das pessoas e destruição do planeta também leva muita gente, por um imperativo de coerência, a se engajar nas lutas pela superação desta situação. Esse engajamento ético não muda muito essencialmente na história, acho, mas é certo que teve formas diferenciadas. Se pensamos apenas nos períodos mais recentes, em que as lutas pela liberdade se confundem praticamente com as do proletariado, vamos achar compromissos muito radicais no século XIX, quando as formas mais primitivas de anarquismo levavam ao sacrifíco pessoal e ao terrorismo como propaganda política (como hoje os extremistas religiosos). Do final do século XIX e durante o século seguinte, o engajamento não foi menos vital - no sentido de que representava uma ética de vida e um compromisso absoluto, com o sacrifício de todos os benefícios pessoais e laços afetivos duradouros, como a família -, mas tornou-se mais objetivo e organizado. Evitava-se o sacrifício menos produtivo, mas ele sempre continuou a existir.

De fato, a repressão também evoluiu nesse mesmo sentido: nas “democracias” modernas respeitam-se mais as liberdades individuais mas, sempre que o sistema é realmente ameaçado, elas são suspensas e a reação se exerce com toda a força bruta, como se pode ver em Guantânamo, Abu Ghraib, nos milhares de assassinatos feitos por naves não tripuladas, no cerco e punição de Julian Assange, Edward Snowden e mesmo do jovem Bradley Manning, para citar apenas os mais em evidência.
Militantes são pessoas especiais, uma bem pequena minoria. Mas parece que esse número caiu muito nos últimos tempos – embora, como eu disse acima, mantenha-se basicamente o mesmo tipo de negajamento, e de risco. Muita gente, falando do Brasil, julga que a razão disso está no fato de que já não temos um regime autoritário, de exceção. Poderíamos dizer que sua tese é de que há maior militância quando a repressão é maior; essa lógica me parece meio capenga. Mas esse ponto de vista também considera que quando há menos liberdade, mais gente se mobiliza. Isso parece mais razoável, mas não é. Certamente um maior número de pessoas fica insatisfeita quando as liberdades democráticas estão reduzidas, mas elas formam uma espécie de “caldo de descontentamento” que se manifesta justamente nas margens do possível: nas eleições, por exemplo, ou em grandes mobilizações de rua como foi a Campanha das Diretas no Brasil. Não creio que o número de militantes, aqueles que estavam expostos à tortura e morte, crescesse em número nessas circunstâncias. Outro argumento é o de que, na mesma época, houve grande agitação em todo o mundo, e o surgimento de muitos movimentos militantes também nos países que o senso comum considera mais democráticos, como a França, a Itália ou os Estados Unidos.

Não, a hipótese que mais me parece razoável é a do avanço da capacidade de convencimento, de formação de um consenso hegemônico (para usar termos de Antonio Gramsci) mais amplo e mais profundo, a partir da falência dos regimes de orientação variavelmente socialista – o “fim” das utopias - e o incrível avanço das tecnologias e técnicas de comunicação e de repressão. Quando, mais acima, eu disse que o engajamento – particularmente na passagem da hegemonia do anarquismo para o comunismo nos meios operários – tornou-se mais objetivo, referia-me ao reconhecimento da necessidade de organização, de acúmulo de experiências e de forças, que superaram uma concepção de sacrífíco pessoal que tangenciava o impulso suicida. A necessidade e o compromisso de mudar o mundo – e os sacrifícios implicados nisso - continuaram centrais e prioritários na vida dos militantes, mas esta vida mesma passou a ser considerada como patrimônio no arsenal de recursos do campo revolucionário. A dedicação à causa seguia em primeiro lugar, mas o militante tinha também direito a uma vida pessoal, amorosa, familiar... E isso passou a ser reconhecido mesmo como condição de equilíbrio na composição de uma concepção política mais afinada com a realidade.  
A grande diferença que vejo hoje é que essa militância passou, numa aparente grande maioria de casos, para um segundo plano. Os pretensos militantes consideram primordial suas sobrevivência, formação, carreira, conforto – e assim vai –, e o espaço para o engajamento passa a ser determinado pela disponibilidade oferecida nos intervalos de uma gama variável de interesses.

É óbvio que isso é uma contradição em seus termos, pois o compromisso em “mudar o mundo” só é colocado em prática “depois” dos diferentes níveis de compromisso com a reprodução desse mesmo mundo. E a militância se aproxima do hobby, do passatempo, disputando o tempo livre com outros compromissos e lazeres. Fenômeno evidentemente pequeno-burguês, no sentido de priorizar o sucesso social e econômico, penetra mais acentuadamente nas mais diversas faixas da juventude brasileira neste momento em que cresce a escolarização universitária e avança um pouco a renda geral. Corolário dessa situação é a tendência a chamar de classe média – eludindo sua condição proletária essencial – aos setores de renda familiar de cerca de um salário mínimo! Fenômeno aliás muito parecido com o que aconteceu nos EUA no começo do século XX e do cinema, com a aculturação dos imigrantes e a neutralização da consciência de classe do operariado.
Passei minha vida arranjando – e invariavelmente perdendo – trabalhos em função da possibilidade de poder manter minha militância em diferentes cineclubes, em diferentes momentos. Tal modo de vida não era raro de encontrar no movimento cineclubista até o final do século passado. Mas hoje são muito pouco(a)s a viverem essa concepção. E, para piorar, na “passagem” dessas gerações (que coincide com a democratização do país), na virada deste século, muitos dos velhos militantes, talvez fragilizados, vulnerabilizados pela idade, procuraram aquela segurança pessoal no sistema de cooptação que foi estabelecido em grande parte dos meios culturais e marcadamente no ambiente chamado de cineclubista, mas já no mucho...

A virtual falência do cineclubismo como movimento no Brasil, com a desorganização da sua entidade nacional e desagregação de grande número de atividades meio artificiais, mantidas e depois abandonadas por políticas governamentais de curto alcance, certamente contribuem para o desaparecimento da cultura cineclubista de onde pode, costuma brotar essa militância. A descaracterização e abandono das práticas cineclubistas – associativismo, sustentabilidade, independência – substituídas por uma espécie de voluntarismo remunerado ou, o que foi mais generalizado, pelo modelo empresarial ou “empreendedor”, mas também mantido pelo Estado, fere de morte não apenas a própria noção de militância como também a de enraizamento e representatividade nas comunidades. Nesse modelo, o público não reivindica; grupos especializados e restritos passam a atender às demandas do governo feitas através de editais
Talvez, para resolver “nosso” problema de militância, no cineclube, tenhamos que apelar, nos apoiar uma escala mais ampla, procurando outros cineclubes. Procurando criar um (novo) ambiente de cultura e militância cineclubista. Ou não?